Colaboração,  Palavreiros

Confesso que menti

Seria no dia 27 de março de 1981.

Eles viriam para o Brasil, para duas apresentações no Morumbi, em São Paulo.

Eu não podia acreditar que isso era verdade!

Numa época em que nossos ídolos eram inalcançáveis, semideuses ou lenda.

Sim, eles eram o máximo, o Queen!

Eu não perderia por nada!!

Mas como convencer a minha mãe disso?

Eu não poderia ficar fora dessa!

Morávamos em Marília. Era uma viagem longa até São Paulo. Eu, uma menina de 16 anos, “sem contar que era para estar no meio de uma multidão de malucos!” …

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Ontem, 8/11/2018, eu estava me sentindo muito mal, deprimida e decidi dar um fim no baixo astral. Fui ao cinema ver “BOHEMIAN RHAPSODY”, para conferir na telona a história do meu ídolo, FRED MERCURY, que morreu em 1991.

Não esperava nada demais. Fui me distrair.

Como deixamos nossos sonhos morrerem!

O filme começa de uma forma despretensiosa. Não vejo semelhança do ator com o Fred Mercury num primeiro momento, mas, na verdade, eu também não o conhecia com a idade em que ele aparece no início do filme.

Aos poucos fui sendo tomada pela admiração da personalidade que o roteiro foi mostrando, sobre o artista que se tratava, mostrando a forma que as músicas foram sendo compostas, de forma intuitiva, ousada, com requinte e tudo de maravilhoso que existia dentro daquele cara genial. Ele conseguiu por tudo dentro da sua música.

Ela acontece na vida dele de uma forma tão inata, que parece o ar que respiramos, ou não respiramos. Sua vida foi música!

Tudo isso começa a acontecer (Queen) quando eu tinha meus 12 anos, ou seja, fez muito parte da minha vida, dos meus anos dourados.

Eu e minhas amigas nos trancávamos no quarto e ouvíamos com volume super alto. Fingíamos tocar guitarra e uma das músicas com que eu mais me identificava era BOHEMIAN RHAPSODY.

Uma emoção tomava conta de mim. Eu sentia que em algum lugar do mundo alguém me entendia, porque, na verdade, eu também me sentia uma ovelha negra, reprimida pela minha mãe.

Voltando ao filme, eu explodi de felicidade ao ver o tamanho da multidão que assistia o seu show, o quanto cada um curtia, a forma como o Queen tocava a todos.

Dez horas de viagem: uma grande aventura.

Eu não me arrependo de ter mentido. Eu disse que iria passar o final de semana na fazenda de uma amiga e na verdade fomos para São Paulo em seis amigos, de trem, Marília – São Paulo. Dez horas de viagem, uma grande aventura. Os bancos eram de madeira, o garçom passava vestido de pinguim, com uma bandeja no alto, vendendo pão com mortadela e Coca-Cola.

Embarquei nessa aventura confiando nos amigos. Eu não conhecia o caminho.

O Morumbi estava lotado! Uma loucura!

Quando o show começou, parecia que eu estava no céu! …

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E no cinema, vendo o filme …

Chorei, chorei, chorei … chorei com muita emoção.

Eu fiz parte daquele público. Eu continuo a mesma. São poucas as coisas pelas quais tenho paixão. Essa é uma delas. Queen!

Confesso que menti, mãe!

Foi por uma paixão…

…Eu ainda posso me apaixonar!

“Mama….oh oh oh oh ……”

 

Ana Machado é publicitária


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