Crônica,  Silvia Pereira

Diário de Viagem: Granada – II

“Sete dias em apenas uma cidade?”, questionam muitos conhecidos sobre minha primeira viagem internacional. A série “Diário de Viagem: Granada”, a que dou continuidade com esta postagem, vai explicar porque sete dias ainda não foram suficientes para eu conhecer toda a beleza e história da capital da Andaluzia, na Espanha. Estava devendo esses relatos a muitos amigos e leitores. Espero que apreciem.

 

Cheguei a Granada em uma manhã da Primavera europeia.

Minha primeira visão da capital Andaluza, emoldurada pela janela do ônibus que tomei em Madri – deve-se desembarcar no aeroporto Madrid-Barajas, o mais próximo -, foi dos picos brancos de Sierra Nevada, o maciço montanhoso considerado Reserva da Biosfera pela Unesco.  Um dos cartões postais da província, a serra tem seus picos nevados o ano todo, razão pela qual abriga um pueblo (povoado) com estação de esqui.

Por ter reservado três dias para conhecer um pouco da capital espanhola, já cheguei com o olhar encantado pelas belezas arquitetônicas, museus e parques madrilenhos. Mas nada me preparou para a imersão que vivenciaria na secular Granada, fundada pelos mouros na Idade Média e tomada por reis católicos em 1492, mas cujos primeiros vestígios arqueológicos datam do século VII a.C..

Entendi logo porque meus anfitriões – brasileiros que escolheram Granada para curtir sua aposentadoria – decidiram não ter carro na cidade de 234 mil habitantes e 88 km² de área.

O metrô de superfície é limpo, eficiente e fácil de usar. Estacionadas por vários locais públicos, vê-se bicicletas amarelas de um serviço de aluguel por aplicativo, que podem ser usadas e deixadas em qualquer outro ponto para o próximo usuário. Ciclovias acompanham as largas calçadas das principais artérias da cidade.

Não há engarrafamento no trânsito e o tráfego, até nas vias mais movimentadas, flui contínuo e silencioso.

A paisagem urbana conjuga arquitetura milenar e contemporânea mesmo na parte moderna da cidade. Mas o que me tirou o fôlego mesmo foi a primeira visita ao Centro Histórico, que guarda vestígios da ocupação moura em edificações preservadas por séculos.

 

Centro histórico

Margem do rio Genil

Granada foi edificada na ampla depressão formada pelo rio Genil, para o qual confluem os rios Darro e Beiro.

Nosso caminho a pé até o Centro Histórico se deu a partir do Genil, margeado por calçadas no nível mais alto e, em alguns trechos, por passarelas de pedestres no nível da água, às quais se tem acesso por escadas.

Naquela primavera, a passarela estava emoldurada por flores de todos os matizes na maior parte do caminho.

Para chegar ao Centro, viramos na Acera Del Darro, passando pela Fonte de Las Granadas e seguimos pela Carrera de Las Virgens, que passa pela fachada da linda Igreja da Virgen de Las Angustias.

Chegamos por ela à Calle de los Reyes, que percorremos por um pequeno trecho, passando pela Plaza Del Carmen, onde fica a Prefeitura, para entrarmos por um beco que levou à Plaza Bib-Rambla, que concentra lojinhas e quiosques de vendas de suvenires.

Plaza Bib-Rambla

Dali meus anfitriões me conduziram por outro beco, onde tive meu primeiro grande choque de encantamento na cidade. Em um instante, estava apreciando lenços em uma vitrine. No outro, ao me virar, quedava boquiaberta ante a fachada grandiosa da Catedral de La Encarnacion, construída no século 14, após a tomada da cidade pelos reis Felipe de Castela e Isabela la Catolica.

Fachada da Catedral de la Encarnacion

Com projeto assinado pelo arquiteto Diego de Siloé e contribuições dos arquitetos e artistas Enrique Egas e Alonso Cano, o templo católico representa o Renascimento Espanhol. Particularmente, o entendi como uma resposta católica à opulência da cultura moura, cujos vestígios ainda podem ser encontrados até hoje por toda Granada, ainda habitada também por muçulmanos – pelas ruas, em meio a turistas, vê-se mulheres de véu na cabeça trajando trajes caríssimos e joias idem.

Interior da Catedral de la Encarnacion

A catedral valeu um tour guiado por seu interior suntuosíssimo (5 euros a entrada), que permite a apreciação de vários altares com esculturas e pinturas da mais rica arte sacra do período.

O tour termina em uma lojinha de suvenires com saída na direção da Gran Via de Colón, a avenida principal do Centro. Por ela voltamos à praça Isabela La Catolica e seguimos pela Calle de los Reyes até a Plaza Nueva, que abriga o edifício (também de arquitetura secular) Palacio de La Justicia, entre outras edificações antigas ocupadas por pequenos comércios.

Palacio de la Justicia

 

“A rua mais linda do mundo”

Hora de entrar na que meu anfitrião, Eduardo, considera “a rua mais linda do mundo”: Carrera Del Darro, que, obviamente, margeia o rio Darro.

Carrera del Darro, “a rua mais linda do mundo”, segundo Eduardo.
Igreja de São Paulo e São Pedro Apóstolos

Caminhamos a pé por seu leito carroçável de pedras, ladeado, no caminho, por mais edificações do período medieval. Entre elas, a Igreja de São Pedro e São Paulo Apóstolo.

Por ela chegamos ao Paseo de los Tristes – assim chamado por ter sido, no passado, o caminho para o cemitério – de onde se vislumbra, de um lado, no alto de uma montanha, a fortaleza de Alhambra (sobre a qual escreverei numa próxima postagem). De outro, as ruelas medievais do bairro Albaicín, de origem cigana, que também conduzem montanha acima.

Andar pelas ruelas estreitas e sinuosas do bairro dá a deliciosa sensação de imersão em tempos antigos, com seu casario modesto conservado, a despeito das lojinhas de artigos atuais que encontramos pelo caminho.

No ponto mais alto do bairro está o Mirador de San Nicolás, de onde turistas podem tirar fotos panorâmicas maravilhosas da cidade e, particularmente, da fortaleza de Alhambra, que nos observa agora do mesmo nível, do outro lado do vale do Darro.

Vista do Mirante de San Nicolás

Ao longe, a silhueta da Sierra Nevada, que nos espreita de qualquer canto da cidade.

Descobri que mirantes, talvez por nos colocarem mais próximos do céu, são bons lugares para nos sentirmos gratos pela vida!

 

Galeria
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