Artigo,  Crônica,  Silvia Pereira

Escuridéo

E quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima…’: Renato Russo em ‘A Via Láctea’

“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz”
‘A Via Láctea’, Renato Russo

 

Na rua pobre onde cresci, as crianças não tinham muitos brinquedos, mas os adultos não precisavam se preocupar em prover nosso lazer. Éramos livres para brincar na rua ou em casas de vizinhos. Quando cansávamos das brincadeiras tradicionais, inventávamos novas contando só com nossa imaginação.

Se não me engano, foi a Elaine Reche, vizinha de infância, quem inventou uma a que demos o nome de “Escuridéo” – espécie de “Cabra Cega” adaptada para dentro de casa. Consistia em entrarmos todas (eu, Silvana Thomas e Jenifer Rodrigues) em um quarto escuríssimo pra nos esconder da escolhida para procurar pelas outras no escuro, de olhos vendados. Quem era procurado ficava livre para ir se esquivando da “cegueta”.

Para não sermos pegas, era importante fazer silêncio, pois todos os outros sentidos da vendada se aguçavam com a ausência de visão – audição principalmente.

Marcou-me a dificuldade que tínhamos para vedar a entrada de qualquer luz em um cômodo na preparação para a brincadeira. Não adiantava apenas fecharmos portas e janelas. Era preciso vedar frestas, cobrir luzinhas de rádios-relógios, espelhos…

Ainda assim, logo nossos olhos se adaptavam ao escuro, com a dilatação das pupilas ativada pela ausência de luz, e passávamos a divisar vultos de móveis e companheiras cada vez com mais detalhes.

Chegamos à conclusão de que a escuridão total é praticamente impossível durante o dia.

Os raios de Sol atravessam milhões de quilômetros para nos iluminar e possibilitar a vida na Terra. Mesmo quando estamos abrigados dentro de casa, não conseguimos impedir que sua luz se insinue por qualquer frestinha. Quem só consegue dormir no escuro total sabe como é difícil driblá-la quando amanhece.

No espaço, as luzes de astros e estrelas viajam milhões de anos-luz, fazendo-se ver em nosso céu noturno mesmo estando a muitas vidas humanas de distância.

A luz sempre vence o breu.

Um anjo deve ter me soprado hoje esta lembrança de “Escuridéo” enquanto eu refletia, desesperançosa e amedrontada, sobre nosso momento atual, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Pessoas se agarram à raiva, ao ressentimento, ao ódio, fechando os olhos à luz dos ensinamentos deixados por Jesus, Buda, Maomé (sim!), Ghandi…

Fecham os olhos também à luz do conhecimento registrado pelos que viveram momentos políticos semelhantes antes de nós. Saber é luz por desvendar o desconhecido, que tememos por impulso e odiamos por extensão, pois nos faz sentir vulneráveis.

Pergunto-me o que Jesus diria se descesse à Terra no presente, vendo usarem o nome de nosso Pai por quem defende a segregação de minorias (ele, que defendeu Maria Madalena); o revide à violência com armamento de civis (ele, que deixou-se acusar para não insuflar a guerra) e a tortura (e foi tão torturado)?

Pelo andar dos ódios, percebo que a escuridão nos engolfará por um tempo, seja qual for o resultado das eleições brasileiras, pois há muitos recusando-se a olhar para a luz de ambos os lados.

Mas o  anjo me conforta com a memória de nossa brincadeira, com certeza para lembrar-me que, por mais que vendemos nossos olhos, tapemos frestas e fechemos portas, a luz sempre vence a escuridão no devido tempo.

Que assim seja então.

Deus e nossos anjos seguirão nos iluminando na longa noite que se aproxima. Que saibamos deixar suas luzes entrarem (é uma decisão interna).

#ódionão

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