Artigo,  Crônica,  Resenha,  Silvia Pereira

Porque acho ‘Harry Potter’ universal e atemporal

Sei que corro o risco de espantar os leitores com “mais um” texto sobre os 20 Anos da Saga Harry Potter, mas tenho um bom argumento: minha experiência e ponto de vista pessoais podem acrescentar algo além de tudo o que foi escrito a respeito.

Lembro que, logo que a febre em torno da obra chegou ao Brasil, torci o nariz pensando: “se é best-seller, não deve ser bom” (nós e nossos preconceitos!). Mas minha auto-regra, de só me permitir criticar o que conheço, salvou-me.

Fui ler. E não consegui parar! Passei até a experimentar uma espécie de “síndrome de abstinência” (uma tristezinha misturada com um desejo louco de “quero mais”) cada vez que terminava um livro, tão viciada ficava na leitura.

Apesar de a obra estar catalogada como infanto-juvenil, eu já tinha uns 30 e poucos anos quando aderi a seu fã-clube. Conheci, desde então, algumas dezenas de amigos da mesma geração ou mais velhos que também a adoram. Somos a prova de que obras de qualidade dialogam com todas as faixas etárias.

Como?

Explico do meu ponto de vista, a seguir:

Universal

Além de muito bem escritos e cuidadosamente bem traduzidos (Deus sabe como isso é importante!), os livros da saga Harry Potter agregam vários gêneros sob o guarda-chuva da ficção infanto-juvenil: suspense, romance, toques de terror e doses cavalares de críticas social e política – estas últimas explicitadas no universo/cenário que a autora constrói para seus personagens atuarem.

A narrativa é cheia de camadas, que convivem sobrepostas. Cada leitor alcança um número delas, conforme o tamanho de seu repertório interno.

As crianças, por exemplo, alcançam a camada mais exposta dessa construção, que é a aventura em si. Os adolescentes avançam uma além, ao reconhecerem (e se reconhecerem) nos personagens as motivações que os movem por cada aventura. E os adultos são aptos a enxergar arquétipos contemporâneos e representações de estruturas sociais e de poder – tudo disfarçado por uma embalagem de fantasia.

Esse alcance, em minha opinião, torna a obra universal.

E a fantasia é de respeito! Criativa, inteligente, cheia de referências culturais e filosóficas que estimulam o leitor a buscar mais conhecimento. Parece que está só entretendo, mas está também enriquecendo seu repertório.

Representações

Voldemort e seus comensais

Vamos a alguns exemplos de tipos sociais  encontrados na saga Harry Potter:

  • o gênio do crime (Voldemort);

  • o aristocrata arrogante (Malfoy);

  • o ditador (ministro da Magia Cornélio Fudge);

Professor Dumbledore
  • o guia inspirador (Professor Dumbledore);

  • os heróis da resistência (os bruxos da Ordem da Fênix e, depois, da Armada de Dumbledore);

  • “O” herói (Harry), que se encaixa no conceito do pensador norte-americano Joseph Campbell (A Jornada do Herói).

O ministro Cornélio Fudge

Entre as representações está a de uma muito familiar à nossa história recente. No quinto livro (“Harry Potter e a Ordem da Fênix”), a autora descreve brilhante e didaticamente um regime de opressão, quando o Ministro da Magia, determinado a manter seu poder, envia uma inquisidora à Escola de Magia Hogwarts.

Dolores Umbridge

Instruída a controlar e censurar informações, a vigiar e identificar potenciais opositores do governo, Dolores Umbridge lança mão de medidas autoritárias, que vão de leis usurpadoras das liberdades individuais até torturas físicas (como a escrita de sangue em uma mão de Harry).

A criança pode não fazer esse tipo de paralelo logo que lê a história, mas seu inconsciente fará a ligação quando atingir a idade certa. Adolescentes e adultos o farão em seus próprios termos e conforme, repito, seus repertórios internos e, ainda, suas aberturas à reflexão – nem todos estão dispostos.

Atemporal

Considero genial a autora distribuir a saga Harry Potter por sete livros, sendo um para cada ano da vida de seu protagonista, durante um período nevrálgico da formação humana (dos 11 aos 17 anos). Sobretudo nas culturas ocidentais, é a fase em que ocorrem os ritos de passagem da infância para a adolescência, que, em si, já é uma preparação para a entrada na vida adulta. Todo ser humano, em qualquer era da história conhecida, passa por esses ritos, o que também torna a saga atemporal.

Assim é que, no primeiro livro, o bruxinho e toda sua geração assemelham-se a “telas em branco” prestes a terem iniciada a “pintura” do adulto que serão. As tintas são as experiências pelas quais passarão, e os pincéis, as escolhas que cada um fará diante de cada situação.

O padrinho Sirius Black lida com as dúvidas de Harry: ‘todos temos o bem e o mal dentro de nós’

Sabiamente, a autora bate muito na tecla das escolhas como determinantes do destino, acima da genética e da crença comum de que existe um roteiro pré-traçado para cada pessoa.

Harry, por exemplo, passa grande parte da saga atormentado pelo medo de estar condenado ao mal, como Voldemort, já que teve uma primeira infância muito similar à do vilão e carrega uma ligação interna com ele desde o episódio traumático da morte de seus pais.

É lindo ver como ele vai, aos poucos, chegando à conclusão de que pode escolher e que tudo o que viveu até ali o municia para essa tomada de decisão.

Amizade e amor: norteadores de escolhas

Seus coadjuvantes mais próximos – e em uma certa medida, co-protagonistas –, Roni e Hermione, atravessam os mesmo ritos, cada um a seu modo, a partir da própria bagagem interna, mas com um sentimento comum a uni-los que faz toda a diferença na hora das escolhas.

Não por acaso o mesmo sentimento necessário para seguirmos a premissa ética “fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem a nós mesmos” – variação racional de um ensinamento deixado por um cara famoso, há cerca de uns 2 mil anos.

Por tudo isso, não tenho dúvidas: “Harry Potter” não é só o fenômeno editorial de uma geração, mas um clássico. É para sempre!

 


P.S.: No meu blog de cinema (CINÉLIDE) também tem texto sobre a saga, escrito na ocasião de lançamento do oitavo filme da franquia do cinema: “Harry Potter: alter ego de uma geração


 

GALERIA (clique numa foto para ampliá-la e abrir a galeria)
Nos filmes, atores também passam da infância à adolescência sob os olhares do público

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