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John Hughes: o cineasta da adolescência oitentista

John Hughes LEGO cineasta John Hughes, que faleceu esta semana de ataque cardíaco, aos 59 anos, nunca foi um dos favoritos da crítica especializada, que considerava sua obra oportunista, superficial e comercial demais. É verdade que, depois de descobrir um “filão” no segmento adolescente, ele nunca mais abandonou a receita, emplacando sucessos como “Clube dos cinco”, “Gatinhas e Gatões”, “Mulher Nota 1000”, e o inesquecível, impagável e unanimemente festejado “Curtindo a vida adoidado”.

Mas também é verdade que, mesmo bobinhos e comerciais, seus filmes marcaram os jovens da década de 80, o suficiente para que pelo menos um deles se transformasse em cult de geração – ainda não conheci ninguém na minha faixa etária que não vibre ao lembrar “Curtindo a vida adoidado”, principalmente a clássica cena em que Matthew Broderick dança e dubla John Lennon em “Twist and Shout” , de cima de um carro alegórico.

Na pele de Ferris Bueller, Broderick personificava as aspirações do adolescente oitentista (que sequer sonhava remotamente com o advento da internet). Como não invejar um jovem carismático e bonito, com ousadia para cabular aula e passar o dia se divertindo pela cidade, com o melhor amigo e a namorada, a bordo de uma Ferrari “emprestada”? Tudo isso após montar os mais sofisticados esquemas para convencer pais, professores e colegas de que passaria o dia de cama. E ainda era sortudo o suficiente para colocar em apuros o diretor da escola e a irmã invejosa, que passam o filme inteiro tentando desmascará-lo.

Confesso que, romântica que sou, não tinha em “Curtindo a vida adoidado” meu filme preferido de John Hughes. Sempre gostei mais de “Clube dos Cinco”, que acompanhava cinco colegiais – cada um desajustado a seu modo- cumprindo um sábado de castigo na escola. Ao longo do dia, eles não só aprendem a conviver como acabam se unindo contra um inimigo comum: o inspetor, que simboliza, no caso, a autoridade contra a qual a juventude sempre adorou se rebelar.

Clube dos cincoO filme apresentou pela primeira vez alguns dos rostos que marcariam o cinema

adolescente do período – Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez, Anthony Michael Hall e Molly Ringwald – mas que também cairiam no ostracismo a partir da década seguinte. A ruivinha Molly, por exemplo, que foi a preferida de alguns diretores à época (vide “A Garota de Rosa-Schocking”, “Ligeiramente grávida”, “O Rei da paquera”), continuou filmando nas décadas seguintes, mas nunca mais emplacou sucessos tão retumbantes quanto os da adolescência. Tanto que a platéia ocidental costuma pensar que ela nunca mais fez filmes após os anos 80 (fez muitos, como você confere aqui, mas todos pouco vistos).

Judd Nelson e Ally Sheedy filmaram bissextamente ao longo das últimas décadas, a maioria fracassos de bilheteria. A carreira de Emilio Estevez também continuou como a de Molly: muitos filmes, pouquíssima visibilidade. Seu pai, o consagrado Martin Sheen, faz mais sucesso que ele e o irmão, Charlie Sheen (de “Two and a half man”), juntos.

Dos cinco do clube, apenas Anthony Michael Hall continuou sendo visto, em filmes e no seriado que protagoniza desde a década de 90, “The Dead Zone” (“A Hora da Zona Morta”, no Brasil). De Hughes ele ainda co-protagonizou “Mulher Nota 1000”, uma tremenda bobagem, na qual dois pré-adolescentes nerds criam uma mulher perfeita no computador (a então estonteante Kelly LeBrock, de “A Dama de Vermelho”).

Se deu bem

Das estrelas içadas por Hughes, Matthew Broderick foi o que mais se deu bem. Não virou astro de primeira grandeza, mas continuou “aparecendo” em produções de médio porte e fez trabalhos no teatro. Ultimamente, a grande mídia o vê mais como o marido de Sarah Jessica Parker (a Carrie de “Sex and the City”).

Hughes dirigiu muito pouco após sua fértil década de 80, mas continuou no metier como roteirista. Dá para reconhecer seu estilo nas histórias de “A Garota de Rosa-Schocking”, “Ela vai ter um bebê” e nos três “Esqueceram de mim”, só para citar os maiores sucessos de bilheteria que assinou. Todos levinhos e previsíveis… mas divertidíssimos! Para espairecer, até vale revê-los numa Sessão da Tarde regada a muita pipoca.

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