#crônicasdeacidentada,  Crônica,  Silvia Pereira

Respeito, por favor!

Entrando no 16º mês de recuperação de um acidente de moto, ainda não tenho autonomia para fazer compras. Já ando pequenas distâncias sem muletas, mas chega um momento em que minha musculatura ainda fraca pede apoio. Andar por supermercados e shoppings sem uso de scooters (motinhos), então, nem pensar!

Eu e meu marido temos o maior pudor em estacionar em vagas de portadores de deficiência nos mercados, pois não temos o selo que autoriza e também porque minha deficiência é provisória.

Mas parece que somos os únicos a ter este pudor. Cansamos de ver pessoas com todos os seus membros em ordem colocarem seus carros sem selos de deficiente ou idoso em vagas especiais.

No primeiro fim-de-semana de novembro, sofri consequências físicas desse tipo de descaso.

Precisava muito comprar um cabo de energia para meu laptop, que “morreu”. Como é inviável para mim fazê-lo durante a semana, por conta do trabalho, fui ao RibeirãoShopping em pleno domingo, logo após o almoço.

Ao chegar, não havia nenhuma scooter ou cadeira de rodas que pudessem ajudar em minha locomoção. Como precisava muito fazer a compra naquele dia, arrisquei-me de muleta mesmo pelos corredores daquele shopping imenso. Demorei 2h para fazer uma única compra, por causa de meu andar vagaroso e minhas pausas para sentar em bancos espalhados pelo shopping.

Na volta para o estacionamento, sentindo muitas dores no tornozelo direito e no fêmur esquerdo – ainda em recuperação -, peguei o elevador ao lado de uma mocinha que dirigia uma scooter. Ao chegarmos no andar de entrega da scooter, mesmo onde eu havia estacionado meu carro, ela levantou desenvolta da motinho, demonstrando não ter nenhum problema físico e foi direto para seu carro estacionado – pasmem! – numa vaga de idoso.

A dor que eu sentia em minhas pernas fez minha indignação dobrar de intensidade. Dirigi à moça um olhar acusador, que ela não entendeu – ou fingiu que não -, pois endereçou-me um sorrisinho desses de cumprimento. Deu partida em seu carro do ano e foi-se embora sem nenhum peso na consciência.

Não foi a primeira vez que testemunhei a indiferença alheia para com pessoas com alguma necessidade especial. Em outras incursões minhas por shoppings nos quais consegui usar uma scooter, pessoas corriam para ocupar o elevador antes de mim sem nenhum constrangimento. Sequer olhavam para a placa de aviso de que os elevadores devem ser usados, PREFERENCIALMENTE, por portadores de deficiência, grávidas e idosos.

Algumas pessoas cometem essa indelicadeza (pra dizer o mínimo) por egoísmo consciente – tipo “minha pressa é mais importante que a sua!” -, mas a maioria, percebi, o faz por genuína desatenção… ignorância mesmo de quaisquer coisas às suas voltas que não tenham relação com elas mesmas ou seus interesses.

Para pessoas assim, portadores de necessidades especiais são invisíveis.  É como se não existissem e as vagas destinadas a elas nos estacionamentos estivessem ali apenas por exigência da lei e não para serem cumpridas “de verdade”.

Bem, eu sei que existo e não vou parar de pedir aos portadores de “déficit de atenção social” (sempre educadamente, claro): respeito, por favor!

2 Comentários

  • Márcio Pelegrina

    Egoísmo, o verdadeiro mal do século!!! O mundo está do jeito que está, justamente pela incapacidade, cada vez maior, de olhar para o próximo, infelizmente.

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