Colaboração,  Palavreiros

Memórias do Cárcere I

CORDEIRO DE SÁ *

Nessa onda de apocalipse zumbi dos caminhoneiros (a quem eu apoiei até apoiarem a Ditadura Militar), ando preocupado com a batata da papinha da minha filha e com as batatas que a mãe dela precisa para se transformar em leite. Ponto. No mais, me viro. Se precisar ir a pé, tô de boa. Se precisar fazer dieta, tô precisando. Mas, claro, também aproveito para cuidar da vida dos outros…

Estava no Pão de Açúcar abastecendo o carrinho, pensando na logística do que estraga antes, do que estraga depois, para comprar tudo numa certa ordem de consumo e cuidando para não levar demais, pois o espaço em casa é pequeno. Enquanto pensava, via tudo esvaziar –  aqui na zona Sul a coisa foi rápida, já que o pessoal tem tutano e dispensa grande.

(Nesse ponto, preciso informar que eu moro na zona Sul, ok, mas não nasci em berço de ouro e trabalhei na perifa muito tempo, com o pé no barro mesmo. Por isso, eu sei bem o que é comer milho até o sabugo para não ficar com fome depois.)

Voltando ao Pão de Açúcar, estava eu lá tentando dar uma de herói de filme do Romero, quando me senti numa comédia italiana. Uma senhora bem cheirosa passou por mim, pegou uma peça de uns dois quilos de filé mignon daqueles maturados, selados com grife, duns 70 mangos o quilo, e entregou a carne para o açougueiro mandando moer… e remoer!!!

O rapaz ficou sem graça: “Moça, se eu remoer, a carne vai ficar toda na máquina. É muito molinha!”. Ela fez que tudo bem e explicou: “Sabe, rapaz, é que eu preciso muito fazer um molho. Será que dá?”

Fui para casa triste. Triste com a situação do país, triste com a ignorância das pessoas, com os caminhoneiros dominando o mundo e depois achando que os militares é que são a solução e ainda mais triste em pensar naquele filezaço virando molho à Bolognesa.

Dois dias depois, fui salvar a Dona Maura da fila do busão e acabei num mercado da Zona Oeste. Tinha tudo por lá, até as batatas! É que sem bufunfa, penso que o povo não pode sair descontrolado enchendo as dispensas. Parecia um oásis. Juntei as coisas que me faltavam e saí de lá com uma iguaria sem igual: dois gomos de meio metro de linguiça Cabo-de-reio! Dona Maura já estrilou: “Não me faz isso na frigideira, que vai sujar a casa toda!”. Ela tinha razão, mas eu acalmei sua fúria ao suborná-la com metade da linguiça.

A iguaria está aqui na geladeira, aguardando a fila logística para ser degustada. Será feita inteira, sem moer, claro!

 

* Cordeiro de Sá é ilustrador, professor universitário, marido da fofíssima Ana, pai da
linda Lúcia e geek com muito orgulho


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!’

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.