Série 'Pé Dá Letra'

Histórias de peregrinas pedem passagem

Sempre ouvimos dizer que pescadores exageram as histórias que contam, mas eles perderão o posto em breve. O motivo: somos um grupo de peregrinas que começará a publicar aqui no Palavreira a série de histórias “Pé Dá Letra“, sobre o bate-perna que fizemos na Itália em 2017. Zanzamos cerca de 750 km basicamente por áreas rurais de lá e, convenhamos, nem sempre acontecem coisas tão incríveis em um trajeto assim… O jeito vai ser dar aquela exageradinha, juntando umas pitadas de invencionices… uma certa licença poética para enfeitar a história real.

Para fazer o “esquenta” da série, o caso abaixo é um testemunho “ponta firme”:

Quando saí da Caixa Econômica Federal – onde trabalhei por 27 anos – no fim de março passado, meu único plano era me ocupar com minha própria reinvenção. Isso não é sinônimo de plástica na cara, não. Comecei a fazer uma mistura de redescoberta, revelação e reconstrução, que ainda seguem. Estas são palavras que começam com “re”, assim como recomeço e Renata. Quem é ela?

Renata, vocês verão, foi a capitã do “Exército de Brancaleoni”. Nem bem me viu soltinha, ela refez o convite para que eu integrasse o pelotão que partiria em junho para andar em uma parte da Via Francígena, que tem cerca de 1.900 km no total. Topei apenas porque não ia aguentar ficar em Ribeirão Preto vendo as fotos delas no Facebook. Para fugir do sofrimento da inveja,  passei os dois meses seguintes entretida em treinar e comprar tudo o que era preciso para a empreitada.

A mochila tinha que ter um camel back; a bota precisava ser uma Salomon duas numerações acima da minha; as roupas – segunda pele, fleece, legging, anorak para muita chuva, um vestido, roupa para dormir, camisetas e calça de trilha – tinham que ser levíssimas, como a mochila e o saco de dormir.  Lanterna, carregador de celular, toalha de banho, chapéu de peregrina, óculos de sol, uma Havaianas, primeiros socorros… todos estes itens não podiam pesar mais do que 6 quilos, pois na trilha ainda entrariam a água e os lanches de cada dia.

A Regiane, a Renata, a Sheila e a Vera começaram a peregrinar na Suíça três dias antes de mim e da Kele. Elas já entendiam do riscado, ao contrário de nós, estreantes, que começamos em Aosta, na Itália, onde nos encontramos.

Foi aí que foi escrita a primeira crônica desta série, “Nosso Incrível Exército de Brancaleoni”, que sairá na próxima quarta-feira. A Adriana chegou na Francígena alguns dias depois, quase ao mesmo tempo em que a Vera nos deixou. Entre nós havia um homem eletrônico chamado GPS, ou Marcelo, e uma mulher eletrônica, a danadinha da GoPro (se vocês ainda não leram as peripécias da GoPro na crônica Take a Photo, my Love, fica a dica).

Assim, éramos seis mulheres brasileiras que todas as madrugadas partiam com suas mochilas nas costas, andavam o dia todo sem saber como seria a paisagem depois da próxima curva, como seria a próxima cidade em que chegariam, se o alojamento daria certo, o que comeriam, se o banho seria quente, se acertariam o caminho, se o dinheiro ia dar…

O que vivemos foi divertido e quase daria um livro. Talvez esse dia ainda chegue encadernado. Por ora, transformou-se em crônicas sobre histórias vividas de verdade ou apenas em nossas cabeças. 

Esperamos que aproveitem. São nossos pés que vão dar as letras pra vocês.

Passo a passo, os pés das peregrinas pedem passagem.

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora

 

 

 

 

 

 

NOTA DA BLOGUEIRA
A série “Pé Dá Letra” será composta por ao menos dez crônicas de viagem (pelo menos nesta primeira temporada), publicadas semanalmente, sempre às quartas-feiras, a partir de 6 de maio de 2018.

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e aprendiz de escritora

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