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‘Retorno a Cranford’: adorável

retorno a cranford!

Fico encantada com a forma como as produções de época da BBC reproduzem apenas com as montagens de cenas o clima e as mensagens do texto literário que as inspiram. As séries “Cranford” (2007) e “Retorno a Cranford” (2009) – a primeira dividida em cinco episódios de 1h cada e a segunda em 2 de 1h30 – são exemplos deliciosos da sutileza com que seus diretores transformam um amontoado de descrições literárias em imagens narrativas.

No início de uma das mais tocantes sequências de “Retorno a Cranford” (2009), por exemplo, a idosa Miss Mathis aguarda pacientemente, ao lado da afilhada Mary e do empreiteiro Mr. Brown, a chegada de alguns dos mais antigos moradores do vilarejo para uma pequena excursão de locomotiva. Todos são refratários à ideia da ferrovia, que promete mudar o traçado da localidade e – pecado dos pecados! – trazer mudanças àquela sociedade de costumes seculares e inflexíveis.

A própria miss Mathis pensava assim antes que seus protegidos deixassem o vilarejo em busca de terras mais promissoras. A excursão faz parte de um plano dela para convencer os vizinhos a permitirem-se a mesma reflexão despertada nela própria pelo seguinte questionamento (não sei se reproduzo fielmente): “se não aceitarmos o novo, os mais jovens vão embora em busca dele e, então, a quem legaremos a tradição que tão ferrenhamente protegemos?”.

As cenas da excursão são um primor de simbolismo do que significou para aquela bondosa senhora – e para toda a época e sociedade que ela representa na história – abrir-se para o novo, para a mudança.

A locomotiva chega à pequena estação improvisada bafejando vapor, como um monstro ameaçador farejando a presa. Podemos ver no olhar de miss Mathis (adorável e talentosamente interpretada por Judi Dench) o pavor lutando contra sua determinação.

A viagem é curta, mas intensa. O sacolejo, a visão dos campos “correndo” pela janela, o desequilíbrio, o som do vapor zunindo… tudo é novo para o grupo, que divide-se entre a excitação e a vertigem. Assistimos nas expressões da bondosa senhora o quanto de coragem lhe é exigida para suportar o medo, o enjoo, a dúvida – “será que estou correta nisso?”, pergunta-se.

Por toda a série os moradores do vilarejo são confrontados com questões que opõem tradição e bom senso, convenções e sentimentos, emoção e razão, cada episódio mostrando o quanto a boa vontade e o cuidado para com o outro é capaz de contornar o mais espinhoso problema ou questão social.

Adorável!

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