Colaboração,  Palavreiros

Sobre rolimãs e meganhas

RENATO ANDRADE *

Era preta e branca e depois ganhou esse laranjão vivo. Moderno.

No começo dos anos 1970 era possivelmente um dos símbolos mais aterrorizantes da repressão. UCom os meganhas de rayban e braços à mostra na janela, a chegada da viatura quase sempre impunha o sentimento de medo e obediência. Polícia era polícia. Ponto.

A construção do bólido partia quase do nada, ou melhor dizendo: não existia loja especializada, manual e muito menos um site ou tutorial de apoio. As várias construções em andamento no bairro ainda nascituro fornecia madeiras, tábuas, ripas, vigas, caibros, chapas e mais uma infinidade de materiais a serem “emprestados”.

As rolimãs já exigiam conexões mais específicas. Uma oficina do tio daquele carinha novo na rua. Aquele desmanche quase em outro estado onde uma excursão de belina seria organizada.

Comprar novas só em caso extremo, e engolindo o certificado de incapacidade.

A ajuda do pai, irmão mais velho, amigos, tio, primo ou outro elemento com mais destreza e segurança no manusear do ferramentário, claro, era sempre muito bem vinda.

Quem vê hoje um desses prontos sendo vendidos em loja acha que a empreitada não exigia muitos segredos. Procurem um projetista automobilístico, “assuntem” sobre todas as variantes mecânicas, aerodinâmicas, de design, materiais… e depois tentem transferir todas as informações prum moleque de 10 anos há 45 anos atrás. Era tudo na unha (muitas vezes martelada) e na raça.

Depois de pronto, o teste na rua.

O som das rolimãs deslizando pelo asfalto (impressão ou não existiam tantos buracos?) fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado. Pinturas customizadas não eram muito comuns, mas um colante STP sempre fazia bonito.


O som das rolimãs deslizando pelo asfalto fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado


As corridas. 10, 15, 25, 35… acho que ninguém contabilizava os participantes. Essa mania de precisão numérica deve ter vindo depois. O importante era a vibração na rua e o som…

Aaaaah o som!

Vivo, encorpado, selvagemente metálico e assustador!

Daqueles que quem sentiu – pois era um som pra ser absorvido por todos os poros e sentidos do corpo humano – nunca mais esqueceu.

Mas sempre tinha um morador que se incomodava com essa rascante sinfonia. E aí chegava o camburão lá de cima.

Falei em medo e obediência?

A molecada jogava os carrinhos dentro dos altos matos do entorno, quase florestas. E se divertia vendo os homens da lei adentrando na busca e apreensão. Invariavelmente lotavam o chiqueirinho com o comboio tão arduamente construído. 

Uma vez um dos pilotos sorrateiramente tentou tirar o adesivo grudado em seu carrinho já acomodado na caçamba. Bastou um olhar do oficial.

Sabe que eu acho que no fundo os milicos se divertiam com a coisa toda?

Eram tempos de chumbo – torturas, terrorismo, desaparecimentos, bombas e sequestros.

Ali, naquelas ruas de um bairro sendo colonizado, numa cidade do interior que poderia até ser chamada de pacata na época, uma molecada reproduzindo Interlagos com direito a derrapagens e sentidas escoriações… agora tenho quase certeza… se divertiam sim.

Por trás dos raybans e fardas acontecia de vez em quando um comentário jocoso sobre a operação em andamento. Todos ríamos: PMs e pilotos. Naqueles distantes dias, até o medo, de vez em quando, tinha motivos para brincar.

 

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