Colaboração,  Palavreiros

solidão

THIAGO ROQUE *

os vizinhos não sabem dizer quando começou.
gostam da solidão. velhinha quieta, na dela, faz mal pra ninguém.
anda pra cima e pra baixo com uma dessas ecobags.
o que encontra, coloca na sacola. e leva pra casa.
garrafa pet, lata de alumínio, cafuné na cabeça.
sapato velho, risada vencida, papelão.
alegria rasgada, bola furada, pente quebrado.
cabe na sacola? entra sem pedir licença – na sacola, na casa, na vida da solidão.
não demorou para o sobradinho virar um amontoado de objetos.
objetos que você olha. que você sente.
tudo sujo, sem brilho, com validade vencida.
tudo dado por vencido.
no começo, solidão até tinha um espacinho pra cada item.
na caixa vermelha, por exemplo, guarda os cumprimentos.
muitos deles gritados, sinceros, motivo de orgulho.
abria aquela caixa todos os dias, num ritual quase cristão – com direito a sinal-da-cruz.
vieram mais objetos. mais caixas.
mais.
ah, as caixas da solidão…
cores, tamanhos, conteúdos. guardam tudo – até um pouco de vida.
afinal, o que ia pra caixa era o que se perdia na cabeça e já não cabia mais no coração.
com o tempo, tudo foi desbotando.
caixa, cumprimentos, sinal-da-cruz.
ganharam aquele tom borrado da paleta esquecimento.
tão fora de moda…
quando solidão se dá conta, está tudo junto, dividindo caixas e angústias.
parece tudo um desespero organizado.
um desespero só.
de cartão de visita a memórias.
de disco antigo a desprezo.
de bem-querer a revistinha de horóscopo.
aliás, solidão é de libra.
do signo a velhinha corpulenta lembra.
quer dizer, lembra, esquece, lembra, torna a esquecer.
por isso, guardava tudo.
para lembrar. para tentar lembrar.
para que fossem lembrados.
o primeiro beijo, a primeira camiseta dos stones, o primeiro amor, o primeiro filho.
muitos primeiros. vagas lembranças.
ora, devem estar pela casa. onde? nas caixas – onde mais?
não podem morrer. não podem subir na boleia do tempo e partir sem olhar pra trás.
não podem. não.
mas, com frequência, acontece.
então, solidão vai para as ruas encontrá-los de novos.
de sentimentos a sachê de mostarda.
amarelos feito as caixas dos documentos.
ou ficam na caixa marrom?
lembra, esquece, lembra, torna a esquecer.
mas não reconhece nada. ninguém.
tudo parece estranho. tudo parece diferente. tudo parece frio demais.
mas sabe que tem algo ali. é questão de lembrar. é questão de viver.
e, assim, a sacola se enche.
muitas vezes, solidão precisa das duas mãos para dar conta do peso de seu destino.
sim, o fardo é pesado. ela não liga.
evita pedir ajuda. as pessoas não entendem porque precisa de tudo aquilo.
não entendem o que é segurar nas mãos algo que perdeu lá atrás – e continuar incompleta.
procurar, em cada lápis, cada latinha, cada fagulha de sofrer, uma peça do quebra-cabeça.
em casa, parte da sacola vai para as caixas da solidão.
parte se esconde pelo chão, aos olhos de quem prefere não ver.
parte se recusa a deixar a sacola.
sabe que será outro no dia seguinte.
sabe que será essencial. que solidão vai precisar.
e ela sempre precisa.
e sempre sorri quando enconta algo.
revira lixo. pega algo. sorri. põe na sacola.
ajoelha. limpa algo. sorri. põe na sacola.
folheia o jornal. vê algo. sorri. põe na sacola.
solidão também acumula sorrisos.
por isso que todo mundo gosta da solidão.
velhinha sorridente…
parece sempre estar de bom humor.
talvez esteja.

 

(*) Thiago Roque
Jornalista e palavreiro sofisticado, tenta escrever um livro há mais de 15
anos – quem sabe agora…


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!’

 

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