Colaboração,  Série Vozes que Pariram

Ter filhos segura o casamento (?)

Ter filhos segura o casamento. Ouvi essa célebre frase, em alto e bom som, na fila da padaria perto de casa.

Pensei. Certamente esta pessoa não deve ter filhos e não sabe o que é passar a madrugada em claro, depois de uma tentativa de dia normal ao lado de um recém-nascido.

Certamente esta pessoa não sabe da dificuldade de mudar a rotina de um casal, da noite para o dia.

Certamente esta pessoa não vivenciou efetivamente as palavras: renúncia e doação.

Certamente esta pessoa não conhece o verdadeiro sentido do cuidar, do nutrir, do se jogar no chão.

Certamente esta pessoa não sabe das divergências de opinião na arte de educar um filho.

Certamente esta pessoa não imagina quantas conversas interrompidas e nem tampouco concebidas acontecem quando um filho clama por atenção.

Certamente esta pessoa não entende o porquê de muitos maridos sentirem solidão.

Certamente esta pessoa não sabe do malabarismo que uma mãe faz para conciliar tantas vidas com a sua própria vida.

Certamente esta pessoa não sabe e nem poderia saber que para ter um bom casamento com filhos, o casal precisa se reinventar e ressignificar o amor e a admiração.

Certamente você não sabe, meu amor, mas jamais pensei em encontrar alegria no meio do caos, no olho do furacão.

Certamente você não sabe, meu amor, mas eu somente passei a me conhecer agora, ao perceber que para amar vocês eu preciso me amar também, é que vocês têm me ensinado a olhar mais para o meu coração.

Certamente você não sabe, meu amor, mas o meu sentimento por você se tornou ainda mais intenso depois do nascimento do nosso filho, é que a gente se fortalece quando retiramos juntos as pedras do caminho.

Certamente você não sabe, meu amor, mas o ângulo de que eu enxergava o mundo mudou. Hoje fico excitada com um simples apoio nos afazeres da casa, louca de alegria quando você leva o nosso filho às gargalhadas e leve como uma pluma quando você me faz um carinho inesperado.

Certamente você não sabe, meu amor, mas te querer bem é muito mais que um bem querer. É saber encontrar motivo para sorrir, é aceitar ficar nua ao seu lado, sem ter medo de frio sentir, é que em teu corpo encontro abrigo para seguir viagem e assim hei de fazer a cada inverno que surgir.

Certamente hoje nós sabemos, meu amor, que ter filhos não segura o casamento não, é que nada, nem ninguém consegue segurar aquilo que está somente em nossas mãos.

Com toda força da palavra: TE AMO.

 

Lígia Ignacio de Freitas
Escritora

Esta crônica integra a série “Vozes que pariram“, deste blog de crônicas, que tira da invisibilidade histórias de lutas de mães com o objetivo de provocar debate, reflexão e, quiçá, mudanças de mentalidade que melhorem as relações. Envie sua contribuição para silviapereira@palavreira.com.br se conhecer uma história que promova o objetivo do projeto.

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