Colaboração

Um Novo Caso de Amor

CAROL OLIVEIRA *

Quando o ponteiro chegou no 7, o Google enviou um aviso: trânsito intenso na sua área.

Antes que eu levantasse desesperada com a notificação, lembrei que não usava mais o carro e suspirei aliviada.

Olhei pela varanda e vi o Corsinha coberto de folhas de ipê-roxo. Parecia estar num velório, um bonito velório em sua homenagem, que sempre foi muito útil, mas precisava descansar.

Peguei minha bicicleta e segui em direção ao estúdio onde faço aulas de dança. Dei de cara com um dos cenários mais lindos de Brasília: ipês-amarelos contrastando com um grande tapete de folhas secas.

Olhei para o céu, nenhuma nuvem, tudo azul.

Mais algumas pedaladas e pude perceber algumas árvores, as quais nunca havia notado. Suas folhas eram laranjadas e se destacavam em meio a outras totalmente peladas, expondo apenas seus galhos retorcidos.

A sensação foi de felicidade extrema. Daquelas que a gente conquista sem perceber. Depois de anos correndo loucamente para cima e para baixo para chegar a tempo no trabalho, deixar menino na escola, enfrentando engarrafamentos homéricos, finalmente estava me sentindo realizada.

A decisão de estacioná-lo para sempre não foi de repente. Eu estava ensaiando há algum tempo. Fui algumas vezes para o trabalho de bicicleta, mas acabava usando o carro para todo o resto. Ele precisou dar os últimos suspiros para me alertar que não aguentava mais e que uma nova vida nos esperava. Eu ainda insisti. Uma, duas, três vezes, mas ele não resistiu. Morreu ali, em minhas mãos.

Fiquei por alguns segundos segurando o volante, olhos umedecidos tentando organizar os sentimentos. No início senti raiva, logo depois tristeza, gratidão e por fim a aceitação.

Fiz um carinho nele, uma lágrima caiu, sai de dentro, tranquei a porta e parti.

É. Ainda olhei para trás. Mas era mesmo o fim.

Mas veja só! Com a sua despedida pude perceber um mundo novo.

Não vou negar que ainda sinto a sua falta. Sinto! Mas tudo mudou em minha vida.

Gastos com mecânicos nunca mais, gasolina nem pensar, engarrafamentos, não, não.

Claro que para isso ser possível fiz alguns ajustes. Mudei-me para um local mais perto de onde faço minhas atividades, faço meus trabalhos de casa e moro ao lado da escola do meu filho. Assim, conto com caronas, Uber para locais mais distantes e bicicleta na maioria dos casos.

Ah minha bicicleta… Temos tido um lindo caso de amor.

Estou naquele momento de tentar encontrar um apelidinho carinhoso para ela. Tudo muito recente, sabe? Mas o amor tem crescido a cada dia que passa.

Ela me inspira a manter a saúde em dia, promete deixar minhas pernas mais firmes, me carrega para onde eu quiser, me dá tempo para perceber a vida ao redor, me dá uma sensação de liberdade…

Meu ex-carrinho que me perdoe, mas ele me sufocava. Era tanta tensão no trânsito que eu não respirava. Sou grata a tudo o que ele me proporcionou, mas agora a vida é outra.

Hoje sou mais feliz. Eu e minha bicicleta.

A Branquinha ou Bykinha, quem sabe Tchutchuquinha? Acho que Parceirinha é legal. Não… Brisa. Talvez Nuvem, Leve, Maneirinha, Retrôzinha…

 

* Carol Oliveira
Jornalista, artista e mãe do Miguel


 

 

 

Toda semana, às quartas, uma nova crônica de um(a) palavreiro(a) convidado. O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

 

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