Crônica,  Resenha,  Silvia Pereira

‘Vá, coloque um vigia’…

“Porque assim me diz o Senhor: ‘Vá, coloque um vigia de prontidão para que anuncie tudo o que vier’.”
Isaías, 21:16

Saiu deste trecho da Bíblia o título do livro “Vá, Coloque Um Vigia” (2015), sequência do clássico “O Sol É Para Todos” (1960), vencedor do Pulitzer de 1961 – entre outros prêmios literários. Acompanhou seu lançamento a aura de “livro perdido de Harper Lee”, já que, apesar de escrito, provavelmente, na mesma década do primeiro, seu rascunho foi encontrado só há pouco mais de quatro anos, entre o espólio da autora (não se sabe por que ela não o deu a publicar antes). Seus herdeiros autorizaram a publicação nos Estados Unidos em 2014. Harper estava, então, senil perto dos 90 anos, sem condições de opinar a respeito – veio a falecer em 2016.

No livro, o versículo de Isaías é interpretado como uma metáfora da consciência (“Vá, coloque um vigia” para sua consciência…), fonte dos tormentos da protagonista durante seu processo de amadurecimento, descrito na obra.

Gregory Peck é Atticus Finch, Mary Badham é Jean Louise ‘Scout’ Finch e Phillip Alford Jeremy ‘Jem’ Finch no filme “O Sol É Para Todos” (1962)

E a protagonista é ninguém menos do que a querida Scout, apelido pelo qual Jean Louise Finch é tratada por todo o primeiro livro.

Narrado em primeira pessoa por ela, dos 6 aos 10 anos, “O Sol É Para Todos” descreve, pelos olhos da menina e de seu irmão mais velho, Jem (de Jeremy), o processo em que o pai de ambos, o advogado Atticus Finch, defende um negro injustamente acusado de estupro por uma branca. Isso na pequena comunidade sulista – entenda-se extremamente racista – de Maycomb, no Alabama (EUA).

Vá, Coloque Um Vigia” encontra Scout adulta, aos 26 anos, com consciência e valores praticamente indissociados dos de seu pai. Entre flashbacks de sua adolescência e de sua ida para Nova York, acompanhamos a jovem descobrir-se um “peixe fora d’água” na cidade natal, até sofrer o “choque de realidade” que a fará rever o altar moral no qual colocava Atticus.

Neste ponto, a narrativa, que vinha morna e saudosista, comparando a velha e a atual Maycomb, mergulha em diálogos filosóficos: entre Jean Louise e sua própria consciência; entre ela e seu velho tio Jack (o médico intelectual-pensador da família), dela com o namorado e… o derradeiro… entre a protagonista e seu pai. No cerne de todos eles, a sociedade e seu comportamento de “manada”, seus preconceitos de raça e credo, temas atuais ainda hoje (infelizmente!), passados quase 60 anos.

Jean Louise precisa emergir de todos esses embates morais com identidade e valores próprios e, para isso, terá que decretar algumas “mortes” (de ao menos um ídolo, da própria inocência, entre outras personas).

Harper Lee em uma de suas últimas fotos, por volta dos 80 anos

Para quem aprecia leitura para além do simples entretenimento, é um prazer deixar-se enredar por esses diálogos, embalados por um humor irônico, que, em minha opinião, são a maior prova do grande intelecto da autora.

Por tudo isso, “Vá, Coloque Um Vigia”, como seu antecessor, é um daqueles livros para se ter e reler sempre que precisarmos nos reconectar com nossas noções de humanidade.

Super recomendo!

 


O Sol É Para Todos” foi adaptado para o cinema em 1963. Dirigida por Robert Mulligan (de “Houve Uma Vez Um Verão”), sua versão cinematográfica rendeu o Oscar de Melhor Ator para Gregory Peck (na foto com a autora, Harper Lee, em 1962, durante as filmagens), e de Melhor Roteiro Adaptado para Horton Foote. Também virou clássico! (Na torcida para algum diretor decidir filmar sua sequência em 3, 2, 1…)

 

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