A semiótica delicada de Jane Campion

A cineasta Jane Campion em locação de ‘O Ataque dos Cães’, que ela roteiriza e dirige.

 

Com imenso prazer celebro, com esta postagem, o retorno da neozelandesa Jane Campion ao cenário do cinema mundial, com “O Ataque dos Cães” (The Power of the Dog), faroeste intimista em cartaz na NETFLIX.

Campion não assinava um longa-metragem desde 2009, quando narrou o caso de amor entre o poeta John Keats e Fanny Brawne em “Brilho de Uma Paixão” (Bright Star) – o menos brilhante de seus longas. Para a televisão, seu último trabalho foi a criação dos roteiros para a série de suspense “Top of the Lake”, protagonizado por Elisabeth Moss (a Jane de “O Conto da Aia”), que teve a primeira temporada exibida em 2013, e a segunda só em 2017 (ambas atualmente disponíveis no streaming da HBO Max).

Campion costuma descansar de dois a quatro anos entre uma produção e outra, mas sempre faz valer a pena a espera e o nosso tempo em frente à tela para conferir seu cinema autoral, seminalmente feminino e de semiótica sutil – significando que as principais explicações de suas obras residem nos detalhes e no que não é dito.

Foi assim em seu primeiro longa, “O Piano” (The Piano, 1993), aplaudido e premiado por público e crítica – inclusive com os Oscar de Melhor atriz, para Holly Hunter, e de Atriz Coadjuvante para Anna Paquin, então a mais jovem a receber uma estatueta (4 aninhos) – e continua sendo em “O Ataque dos Cães”.

Jesse Plemons e Kirsten Dunst

Neste faroeste, Benedict Cumberbatch e Jesse Plemons interpretam os irmãos Phil e George, vaqueiros à frente de uma fazenda de gado herdada dos pais. Quando percebe George se enamorando de Rose (Kirsten Dunst), cozinheira de um restaurante de estrada, Phil imediatamente antipatiza com a viúva e seu filho adolescente, Peter (Kodi Smit-McPhee).

Componentes caros ao gênero – como cenários rurais característicos do início da colonização do oeste selvagem dos Estados Unidos e vaqueiros montados e armados – estão presentes. Exceção feita à violência explícita de lutas e tiroteios regados a muito sangue.

Mas não se engane, a violência se fará presente e não só no sentido figurado. Porém, você terá que prestar atenção para percebê-la. As pistas estão todas lá, nos detalhes, como sói acontecer no cinema de Campion.

Kodi Smit-McPhee e Benedict Cumberbatch

Nada é o que parece e isso é tudo o que consigo dizer sobre “O Ataque dos Cães” sem cometer spoilers. Mas, se ajudar, posso pinçar, na obra pregressa da cineasta, exemplos de como ela consegue exprimir muito (principalmente sentimentos e emoções) com pouco. Uma cena emblemática de “O Piano”, por exemplo, pode até servir de teste para saber se você está pronto para o cinema da diretora e roteirista: se não conseguir captar toda a sensualidade contida na cena em que George (Harvey Keitel) descobre um furo na luva de Ada (Holly Hunter), não vai alcançar a semiótica delicada de sua narrativa.

Mas não se preocupe se o seu olhar ainda não estiver pronto para ela. Ainda vai poder aproveitar as brilhantes atuações do elenco de “Ataque dos Cães – o que no caso de Cumberbatch e Dunst não é surpresa nenhuma.

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3 comentários

    • Antônio Gilson Brigagão em 10 de janeiro de 2022 às 13:06

    Obrigado pelo texto.

    • 11306002893 em 12 de dezembro de 2021 às 18:47

    Sucinto e maravilhoso! Eu não assisti Brilho de Uma Paixão, mas verei, adorei O Ataque dos Cães.
    Quem são os cães? Hahaha, achei que era literal. Bjs, parabéns!

    • Matilde em 12 de dezembro de 2021 às 18:29

    Filme valioso e perturbador
    Amei seu texto

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