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Obituário

Carmen Cagno*

Abaixou o volume do rádio pra aguçar o ouvido. Eriçou-se – era mesmo. O ruído que vinha do quarto vizinho era sexo. Escandaloso, público, como se 10 da manhã fosse hora praquilo.

Tentou não escutar. Voltou ao rádio e à velha máquina de escrever que não aposentava de teimoso. Os obituários daquele dia… com prazo do jornal até às seis.

Fingiu que não escutava. Encompridou o olhar pra fora da janela, em direção ao minúsculo terraço que dava para o largo. O gradil enferrujado, torto pelo tempo, já emoldurara um dia a fachada art-noveau delicadamente encimada por pequenas e elegantes cornijas. Há muito tempo. Quando o bairro era elegante; quando ele acreditava e a noite acolhia Cadillacs “rabo de peixe” embalando casais encantados pelo cenário trazido lá de Hollywood nas telas do cinema da esquina.

Ele acompanhara aquela paisagem, anos a fio, com o nariz de menino sozinho grudado na janela de vidro embaçado. Homens de chapéu e mulheres bonitas entravam e saiam dos restaurantes e do grande teatro iluminado. Ele imaginando histórias, sonhando, triturando um frio na barriga cheia de adivinhações.

A rua agora era só um arremedo, uma lembrança noturna, derramando a luz amarelada sobre traficantes e prostitutas. Calçadas de silêncio decadente, interrompido às vezes pela sirene da polícia ou os rugidos de uma gangue qualquer.

As samambaias que a mãe insistia, tentavam sobreviver ressequidas naquele território estéril. As samambaias mortas, obstinadas; a mãe obstinada, imortal nos reumatismos, na tossinha irritante, na gororoba que ainda mexia no fogão encarquilhado, todo santo dia, depois de pendurar aqueles panos encardidos no varalzinho improvisado do banheiro.

Da infância, “só-sobrara” o apartamento fincado nesta rua torta e insalubre; sobrara a mãe de nariz cada vez mais adunco. Uma vida impossível, fora do script, amarelada pelo tempo, insistindo naquele cubículo.

Ainda assim olhava pela janela. E fumava, suando no peito sem camisa.

Os mortos. Publicá-los toda manhã, pra alguém ler e comentar “ah, ele era tão bom”, “puxa, ela ainda estava viva?”. Os mortos nas duas colunas que lhe cabiam diariamente no jornalzinho sem-vergonha, emporcalhado de reclames de elixires milagrosos e garotos de programa. Passava no IML, pegava BOs na delegacia, conhecia os informantes do tráfico – o suficiente pra encher as duas colunas e ganhar aquela merda de salário.

Tratou, como já havia aprendido, de se desencantar das lembranças. Fincou os pés no chão ladrilhado e ouviu outra vez. Os dois ali do lado continuavam naquela indecência fora de hora, cheios de espasmos e fluidos. O barulho seco da cama, nhéc, nhéc, nhéc.

Os mortos assombrados com aquela energia tão descabida. Desrespeito, meu Deus; sem-vergonhice das grandes. A vizinha bunduda que cantava boleros feito um rouxinol e se balançava toda no tanque da área de serviço. Ele via, volta e meia. Era ela, a gostosa, só podia ser. Dando pra algum desocupado e ainda gemendo alto.

Depois, a gaveta da cômoda, o revólver do pai, carregado para as eventualidades. Saiu de chinelo mesmo, calção. Abriu a porta do lado e descarregou: uma, duas, três vezes.

Agora podia trabalhar.


Carmen Cagno é jornalista

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O verão da nossa desesperança

Dizem os franceses que é preciso exagerar para ser compreendido. Eu gosto de exagerar e de ser prolixa. Sempre acreditei que essa é uma estratégia poderosa para entreter e despertar o interesse das pessoas à sua volta, emprestando mais cor e sabor aos detalhes quando você precisa comunicar com precisão emoções extremas, boas ou más.

Se você descreve um assalto sofrido com palavras neutras e num tom de voz monocórdio, ninguém chegará nem perto de compreender os momentos de pavor que você enfrentou nem sua persistente sensação de desamparo. Se, da mesma forma, você relata um encontro inesperado com um antigo ‘crush’ que resultou em uma tórrida noite de amor, sem se dar ao luxo de fazer pausas dramáticas para incrementar o suspense, intercalar suspiros e abusar de expressões onomatopaicas, seus amigos acharão que você sofre de anorgasmia.

Por isso, para falar do verão 2021, quero me derramar sem censura no relato da minha absoluta incompatibilidade com o clima tropical em geral e do meu profundo desconforto com as temperaturas abrasadoras típicas do verão brasileiro, qualquer que seja a região do país em que você more.

Sei que praticamente todo mundo aguarda com ansiedade o período que vai de dezembro a março. É como se disparasse um alarme em todas as consciências de que é chegada a hora de sair de casa e demonstrar alegria – falsa ou verdadeira. Praia, boteco, roda de samba, parques lotados de gente se exercitando e confraternizando sob o sol. Tem início também a temporada de campanhas publicitárias que exploram ad nauseam imagens de jovens festejando a vida ao ar livre e se encharcando de cerveja, refrigerante, água de coco e sorvete. Inútil perguntar para onde vão nessa época os padres e freiras tradicionalistas, além dos velhinhos, principalmente os asmáticos e os cardíacos: provavelmente estarão fazendo uma excursão para regiões de mata fria ou encarando um retiro espiritual dos brabos.

A mim, mais do que convite para a auto exposição, essas associações só trazem desejo de distanciamento e reclusão. Não quero me misturar com nada nem ninguém, por mais arrogante que isso possa parecer. Sinto minha pele arrepiar só de pensar na sensação angustiante de estar sentada em uma praia, com o corpo todo lambuzado de filtro solar, misturado com sal, suor e areia – sabe aquela terrível impressão de estar sendo empanada viva para ser inapelavelmente morta esturricada logo depois?

Na cidade, não é diferente, ao contrário. À testa porejando sem parar, gotas de suor escorrendo para dentro dos olhos, ao excesso de luminosidade que obriga a franzir a testa e enrugar os olhos, à necessidade de enxugar constantemente as laterais do nariz e da boca e à transpiração empapando suas roupas formais de trabalho vem somar-se o vapor que vai subindo do asfalto e deixa um cheiro de borracha queimada no ar, o barulho enlouquecedor do trânsito, o ar poluído que não circula em função dos prédios altos.

No verão brasileiro você entende visualmente a crueldade da desigualdade social, sem precisar recorrer à leitura das teses mais densas de algum sociólogo ou filósofo político. Por mais que esteja envolto em trajes etéreos e confortáveis da linha Dolce & Gabbana, se você está caminhando há algum tempo pelas ruas em meio ao calor escaldante, inevitavelmente vai parecer pobre, desalinhado, vulgar, uma pessoa fora de forma e de maneiras rudes. Nada pode distingui-lo nessa situação: sua maquiagem caríssima vai derreter do mesmo jeito e sua gravata vai parecer aquilo que é de fato, uma forca. Só quando você está a bordo de seu carro importado blindado com as janelas escurecidas fechadas, helicóptero, avião, lancha ou iate particular ou ainda dentro de um hotel cinco estrelas, contando com o auxílio de um potente aparelho de ar-condicionado ligado na intensidade máxima, tendo à mão uma taça de champanhe Veuve Clicquot gelada, pode sonhar em recuperar seu status e seu ar de distinção.

Não há civilização possível no calor tropical, amazônico. Daí você compreende também a pecha de preguiçoso aplicada a todo nordestino ou nortista. Não há determinação, força de vontade ou empenho consciente que se sustente quando seu corpo se exaure com o menor dos gestos. Basta levantar um braço para que uma nova onda de suor inunde seu corpo e entorpeça sua mente. Não há concentração disponível para a realização de um trabalho intelectual, para a leitura ou para uma reflexão filosófica a respeito da dimensão trágica da existência. Você está preso à materialidade, às sensações corporais, ao momento presente.

Não dá para esquecer ainda do caudal de desgraças de que o verão se faz habitualmente acompanhar. Chuvas torrenciais, alagamentos, deslizamentos de terra, soterramentos, queda de árvores, raios e falta de energia elétrica, represas secando e racionamento de água, irritação permanente, cansaço incapacitante, inflamação dos espíritos e consequente aumento da violência.

Se esse mal-estar todo acontece em anos normais, sem a interferência de fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, imagine então o que representa para uma pessoa avessa ao calor como eu estar confinada em casa, sem muito o que fazer para me distrair, e sendo forçada a usar uma focinheira como máscara até mesmo se eu estiver abrindo a porta apenas para jogar o lixo fora.

Graças a Deus, este ano não haverá Carnaval, a perfeita visão do inferno para mim. Ninguém merece ficar horas sentado diante da televisão assistindo às já desgastadas imagens de corpos nus ou fantasiados de baiana, índio – ou pior ainda, de figuras dos tempos do império com roupas de veludo e arminho em volta do pescoço.

Mas, devo admitir, nenhum mal se compara aos terríveis transtornos físicos e psicológicos causados pelo calor do verão brasileiro, pelo desemprego, pela fome, pela violência e pelo coronavírus somados: é somente  quando sua atenção é desviada para o festival tupiniquim de obscurantismo, negacionismo científico, conservadorismo nos costumes, fundamentalismo religioso, inação governamental e nauseantes negociatas políticas a céu aberto que você sente que lhe falta ar por outras razões mais insondáveis e sub-reptícias do que a mera ausência de vento. No outono ou na primavera, no inverno ou no verão, você habita uma surreal Pasárgada, onde não é amigo do rei e não lhe é dado o direito a escolher nem a mulher nem a cama onde vai se deitar.

Bem-vindo à desesperança do verão do não consigo respirar.

 

 

 

 

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Qual é o pente que te penteia?

Phillip Roth, de longe meu autor preferido em língua inglesa, escreveu um livro ao mesmo tempo delicado e altamente provocador, chamado “The Human Stain” [A Mancha Humana], que funciona como uma espécie de bíblia antirracista para mim. Conta a estória de um homem oriundo de uma família negra humilde, mas que nasceu com a pele clara. Ao longo de sua infância, ele se dá conta do forte preconceito da vizinhança e dos colegas de escola contra sua família de origem e aos poucos vai se afastando dela, envergonhado.

No início da adolescência, começa a praticar boxe no colégio e se envolve cada vez mais com seu treinador judeu. Em função da proximidade afetiva entre os dois, que se estende para fora da escola, e do tom azeitonado de sua pele, que é comum entre alguns grupos judeus, muitas pessoas começam a imaginar ser ele também de origem judaica. A crença logo se consolida na cidade e o rapaz se aproveita dela para se afastar ainda mais da família e ocultar sua verdadeira identidade racial.

Amparado pela comunidade judaica, ele consegue ascender socialmente, torna-se professor e, mais tarde,  é eleito reitor de uma universidade local. A partir da perspectiva racial, Phillip  Roth vai então tecendo toda uma sutil trama abordando outras “manchas” humanas que orbitam a história de vida do personagem: conflitos psicológicos, disfarce de sentimentos, invejas, disputas de poder, conflitos identitários, preconceitos raciais e de classe social, etc.

Cena do filme norte-americano inspirado no livro de Phillip Roth

Apesar de sua habilidade para se esquivar dos golpes do destino, esse ex-pugilista vai enfrentando uma série de acusações na convivência com seus pares e alunos na faculdade, com os moradores da cidade e também com as mulheres. Certo dia, por exemplo, ele é acusado de racismo por duas de suas alunas afro-americanas por tê-las chamado de “spooks” [fantasmas], um termo fortemente pejorativo. Ele se defende argumentando que se referia apenas à baixa frequência das duas nas suas aulas, mas o conflito se instala, é levado ao conselho diretor da instituição e ele termina sendo demitido.

Em meio à disputa para limpar seu nome, ele sofre ainda com a doença e morte da esposa, uma mulher branca a quem nunca revelou sua origem racial, e acaba atribuindo o AVC sofrido por ela à tensão intrafamiliar decorrente da acusação. Ao mesmo tempo, ele conhece e se apaixona por uma faxineira branca, semialfabetizada e muito mais nova que ele, encarregada de limpar sua sala na faculdade. O encontro amoroso dos dois acaba sendo outra fonte de conflito e de pesadas acusações vindas de um grupo de professoras feministas que o denunciam por assédio sexual e machismo.

O leitor é sutilmente forçado a confrontar, ao longo de todo o roteiro, as nuances do universo psíquico desse afro-americano/judeu e as pretensas motivações atribuídas a ele pela hipócrita sociedade local. Não vou contar outras passagens dramáticas porque sei que os mais apressados perderiam a chance de pinçar por conta própria outras agudas provocações do livro.

O que quero ressaltar aqui é como é difícil se equilibrar num mundo que valoriza as aparências e que nos convida a cada instante a nos envolvermos em um intrincado jogo de espelhos. O convite à luta antirracista proposta nesse livro veio somar-se à minha intensa admiração pela obra de uma professora americana, ativista da causa da diversidade, Jane Elliott. Em uma série de vídeos contundentes, ela promove sessões de conscientização para crianças e adultos quanto às aparentemente inocentes mas perigosas armadilhas do cotidiano que levam à discriminação de pessoas a partir da cor de suas peles.

A série, chamada de “Blue Eyes” [Olhos Azuis], baseada num experimento de sensibilização para o racismo, propõe uma total inversão dos privilégios concedidos às pessoas brancas em nossa sociedade valendo-se de um recurso simples, mas engenhoso: o deslocamento da discriminação por cor de pele para a de cor dos olhos. Ela desenvolve e apresenta aos participantes a pseudo tese “científica” de que os portadores de olhos azuis ou verdes seriam pessoas menos inteligentes (porque lhes falta a melanina da maior adaptabilidade a um ambiente hostil), com mais dificuldades de aprendizagem, mais preguiçosas e mais ”mimizentas” (isto é, eternas reivindicadoras de direitos) do que as pessoas de olhos castanhos.

É simplesmente imperdível acompanhar o profundo choque causado à autoestima dos brancos por essa tese e a enorme comoção que toma conta dos participantes negros ao se verem retratados como pessoas “superiores”. É importante destacar que a participação de todos no experimento era totalmente voluntária – e, mesmo assim, praticamente ninguém opta por sair da sala antes do fim da sessão.

Desde a chegada, os participantes são divididos em dois grupos: os de olhos azuis/verdes e os de olhos castanhos. Os primeiros são obrigados a colocar um colar da mesma cor de seus olhos no pescoço para que seja possível reconhecê-los à distância. São atendidos de forma antipática ou indiferente, precisam esperar o início dos trabalhos sentados no chão de uma sala apertada e sem ar-condicionado. Enquanto isso, os de olhos castanhos recebem uma série de regalias: sucos, lanches, cadeiras confortáveis e tratamento preferencial. Uma vez iniciados os trabalhos, os participantes de olhos claros são então informados de que não poderão interagir com os membros do outro grupo nos intervalos e podem ser penalizados caso protestem contra o tratamento diferencial.

Em um trecho de um dos vídeos, Jane Elliott confronta os participantes com aquela que me parece a proposta mais reveladora do racismo estrutural: “Qualquer pessoa nesta sala que aceitaria passar um dia sendo tratado como nós tratamos os negros neste país, por favor se levante”. Frente ao silêncio constrangido que se sucede, ela replica: “Acho que vocês não entenderam o que eu disse. Vou explicar de novo” – e repete a proposta, com as mesmas palavras. Mais uma vez, ninguém se voluntaria. Ela então conclui: “É pior do que eu imaginava. Vocês sabem exatamente o que acontece… e são coniventes com esse estado de coisas”.

Adotei esse raciocínio como uma espécie de mantra para minha vida e no meu trabalho. Adoraria poder replicar esse treinamento em terras tupiniquins. Se isso fosse possível, no entanto, eu certamente teria de substituir a cor dos olhos por tipo de cabelo, uma vez que é essa característica a que mais concentra a atenção raivosa  dos racistas brasileiros.

Fora o velho xingamento de macaco, repetido à exaustão, o que mais se ouve em todos os casos nacionais de injúria racial é que o “cabelo duro/de Bombril” e os penteados afro não se adequam ao exercício de cargos de recepção ou contato com clientes e até mesmo podem interferir na capacidade e credibilidade dos ocupantes de cargos de liderança. Domar o cabelo rebelde tornou-se então o esporte preferido dos preconceituosos de plantão.  Intimidadas, as vítimas até que tentaram adequar-se, prendendo ou alisando os cabelos, mas o “atrevimento” dos fios em voltar às condições originais continua sendo sinônimo daquilo que mais se rejeita no trato diário com a comunidade negra: a insubmissão, a indisciplina, a ousadia de manter a cabeça ereta e de encarar os frequentadores da casa grande sem pestanejar, direto no fundo dos olhos.

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Baile de máscaras planetário

Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’

Évanes Pache*

Antes do convite para o baile de máscaras planetário eu pensava que o bem mais precioso que o ser humano podia ter se chamava Tempo. A vida se dava em aceleração constante.

Fiquei maravilhada com as reflexões que um filme de ficção científica, estrelado por Justin Timberlake, me provocou. Num futuro próximo, as personagens trabalham em fábricas e, todos os dias, ao final do expediente, passam num guichê para receber seu pagamento. O seu salário é pago em tempo. Sim, tempo. Naquela fatia de realidade, as pessoas trabalham por tempo de vida. Essa é a moeda de troca em “O Preço do Amanhã” (In Time, 2011). É com o tempo que se paga comida, transporte público e todo o necessário para viver.

O filme é muito interessante e não quero dar (mais) spoiler, mas dá pra imaginar o que acontece se a pessoa para de trabalhar, não?

“O Preço do Amanhã” é, pra mim, uma releitura do mundo pré-baile de máscaras. Até fevereiro de 2020, vivíamos e trabalhávamos numa velocidade cada vez maior e, por outro lado, no subtexto, estava a angústia de atingir o tempo livre, sonhando com o final de semana, com o próximo feriado, com as próximas férias.

Hoje, com a COVID-Fest a pleno vapor e mascarados disputando pela versão mais mask fashion no baile planetário (um comportamento resquício do mundo pré COVID), o tal do tempo deu um cavalo de pau e se atravessou na avenida. Tudo virou de cabeça pra baixo no LP “Terra Plana”. Podia apenas ser a maravilhosa “Terra”, de Caetano (já que estão querendo voltar no tempo), mas não. Agora, estamos ouvindo o Lado B do mundo e de cada um de nós também. No Brasil, o Lado B roda em 78 rotações e em algumas bocas canta “todo mundo, vamos, pra frente Brasil…” (né Regina?).

Tenho pensado nas projeções de cientistas e informações de profissionais da saúde, nas notícias que chegam diariamente e no comportamento inexplicável de tantas pessoas que tenho visto – estupefata – todos os dias. Olhando em perspectiva, o quadro pintado não é bonito. ‘#EleNão’ tem 50 tons de cinza. “#Elenão” e seus seguidores gozam com a pulsão de morte descrita por Freud.

Ahhhhh, mas eu vou colorir com o Azul que é a cor mais quente. Pra começar, vou jogar aquele azul bem Frida misturado a um rosa bem Liniker. Depois eu penso no resto.

Nos primeiros dias ficamos meio perdidos com tanto tempo, à deriva. Pensei muito em Clarice ao refletir sobre tempo e liberdade. Apliquei Clarice em minhas inquietações. Antes das máscaras era um tal de “liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome”. Eu tinha fome (tenho) de mundo e queria (quero) tempo pra explorar inúmeros lugares. Agora, COVID-isolada, com todo o tempo do mundo liberado, escuto em mim um eco fundo, ‘Clariciano’, que diz: “eu e minha liberdade que não sei usar“.

Das reflexões, um pensamento urgente incomoda/mente. “É preciso amar como se não houvesse amanhã”. Tô pensando aqui que, sem poder frequentar a academia que cuida do físico, talvez seja interessante inventar em nós a academia da alma e exercitar todos os dias os músculos da compaixão, solidariedade e empatia. Na minha perspectiva, esses são os nossos maiores ativos.

Quem sabe, ao desfilar essas atitudes nas redes, nas videochamadas, lives, textos, mais gente perceba que o discurso bélico/presidente da Ustra direita, está mais que demodé. Está ultrapassado, brega, oldfashion nas velhas prateleiras ditatoriais do Brasil do século passado.

Então, meu caro amigo, me perdoe, por favor”, se agora eu deixo essa pergunta:

“O que você faria se só te restasse esse dia?”

 

P.S.: hoje, eu apenas gostaria de fazer poesia e declarações de amor. Enquanto isso, no meu baile pessoal, me prometo fazer tudo o que mais gosto. #Ficaremcasa, falar, me declarar a amigos queridos, cozinhar coisas que me dão prazer ouvindo jazz e tomando um bom vinho. Vou continuar a sonhar, amar, me renovar, revelar. Quero dizer do meu amor e me despir do que ainda pode restar em mim de ustra-passado. Sim, porque todos nós temos sombras de estimação a dar conta. Eu tenho esse figurino mas escolho deixá-lo no armário enquanto vivo livre.

Em tempo…all we need is love” and respect for all sort of life.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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O meu amor…

por Dani Ramos   

Meu amor chegou na minha vida assim como uma brincadeira, um acorde, uma música. Mal sabia eu que era Deus brincando comigo e deixando minha vida mais feliz.

Um encontro casual, uma sexta-feira 13 de agosto, uma afinidade imediata, uma banda cover. E o desejo de um reencontro.

Meu amor despertou em mim o desejo de ficar colada pele com pele e trouxe a ternura pelo seu toque suave.

Nos despedimos várias vezes ao longo da nossa jornada.

A primeira foi doída, sentida a cada dia como se fosse uma eternidade.

O reencontro nos deu a certeza de um amor pra vida toda.

Vieram outras separações e todas nos fizeram crescer e afirmaram o quanto nos queríamos.

Sua última partida, essa sem possibilidade de retorno, me deixou perdida no espaço, fazendo força para acreditar que poderemos nos ver novamente.

E Deus, o cara que brincou comigo e me deu a felicidade em forma de luz?

Será que conseguirá me trazer de volta a paz?

Quando meu amor adoeceu senti raiva. Raiva da sua falta de cuidado, da mensagem incompreendida e da condenação divina.

Basta! Era tudo o que eu queria gritar.

Ofereci meu colo e seguramos nossas mãos unidas, como uma rede que pudesse nos proteger daquele feitiço sem volta.

Meu amor não entendeu minha ira, mas aceitou meu colo e juntos fomos em busca de socorro.

A viagem foi longa, entrei e saí do barco, o enjoo veio, mas ele se manteve no comando, sem deixar que a água invadisse e transformasse terra fértil em lama.

Meu amor tinha uma estranha mania de se calar e deixar que sua voz riscasse o papel. Eu gostava de admirá-lo enquanto deslizava o lápis sobre a folha branca ou enchia uma tela de cores.

Brincávamos de ser gente grande, de viajar, de ganhar o mundo com a arte, com nossos sonhos.

Sonhamos juntos e sonhamos separados.

Nos falamos com palavras e com olhares.

Meu amor me acordava com cheiro de café coado, pão na chapa quentinho e frutas picadas. Ganhava um beijo, um abraço desajeitado enquanto escovava os dentes.

Me enchia de cuidados, vigiava minha postura, fazia questão de me ver sorrindo, insistia para que eu me alimentasse bem.

As vezes saía e me deixava dormindo só para eu poder acordar com sua mensagem, um desenho e o pedido de contato.

Outras tantas me acordou com muita insistência, quase me arrastando para a vida.

A noite era plena para ele, seu corpo era embalado pelo próprio ronco. A minha era de luta com o meu próprio corpo, com os sons internos e externos.

Não se queixava do meu peso em seus braços. Mal se movia para não me acordar. Repousava sua mão no meu seio, colava seu corpo ao meu e me fazia sua.

Seu olhar sempre pedia mais de mim.

Gostava do riso fácil e da minha vontade de viver, detestava brigas e cobranças.

Meu amor me olhava com admiração enquanto eu contava histórias ou defendia pontos de vista.

Seu silêncio era minha calma e meu desespero.

Quando meu amor morreu, achei que tudo seria mais leve, que meu coração estaria aliviado por ver seu sofrimento acabar.

Pouco antes de partir, meu amor chamou pelo meu nome. Não disse o que queria, mas nós dois sabíamos o que era.

Então, disse em seu ouvido o que gostaria que ele sentisse em seu coração.

Soprei de leve as palavras de amor que costumávamos trocar.

Depois disso, ficou apenas um rasgo em meu peito, uma cicatriz eterna na alma.

Nosso tempo unidos eternizou o laço que construímos.

Vivo hoje uma viuvez sem papel, sem título, sem documentos.

Marcou tanto minha existência que todo o resto se fez pequeno.

Carrego comigo o mesmo anel que ele mantinha no bolso.

Arrumei suas coisas, me preocupei em embalar tudo como ele mesmo faria.

Guardei comigo sua camiseta mais amada, uma roupa íntima, seus desenhos e livros, um pouco do que marcou a nossa bela história.

Preocupei-me em dar asas e voz ao que ele sempre amou.

Procurei seus amigos e pedi colo, compreensão, troca. Encontrei mais que isso… me deram amizade. Na dor compreendi sua escolha por pessoas que o alimentaram tanto.

Mais que isso, aceitei o presente que meu amor me deixou.

Suas mãos sempre foram quentes, me encheram de amor e aqueceram meu coração. Repousava sua mão na minha coxa como se nos mantivéssemos de mãos dadas enquanto eu dirigia.

Quando nos despedimos, suas mãos estavam perdendo a quentura e levemente fomos nos desconectando.

Meu amor era assim, se preocupava tanto comigo que me deu tempo para que me acostumasse a andar com as mãos vazias.

 

Dani Ramos é jornalista e a pessoa mais afetuosa e sensível que conheço.

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Poesia do cotidiano

por Thiago Roque     

“Roma” é o que os grandes críticos costumam chamar de “cinema em seu estado mais puro”. Bom, eu não sou um grande crítico, por isso, me arrisco a escrever que o longa de Alfonso Cuarón é uma obra corajosa para os dias de hoje.

É só observar as escolhas do diretor: o filme, todo em preto e branco, traz as personagens falando espanhol e mixteco – língua de um dos povos nativos mexicanos. No elenco, saem as grandes estrelas de Hollywood (em “Gravidade”, por exemplo, Cuáron trabalhou com George Clooney e Sandra Bullock) e ocupam a tela descendentes indígenas. Você também não encontrará milionários efeitos especiais ou grandes recursos de edição – “Roma” apresenta cenas simples, quase cruas, mas sensivelmente carregadas de metáforas e simbolismos. Além de tudo isso, o diretor mexicano quis levar sua obra direto para a casa das pessoas, via Netflix – para ser relevante e discutir temas como diversidade, desigualdades sociais e solidão, era necessário ser visto por todos.

‘Roma’ apresenta cenas simples, quase cruas, mas
sensivelmente carregadas de metáforas e simbolismos

Coragem premiada: são dez indicações para o Oscar – Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (a inexperiente e arrebatadora Yalitza Aparicio), Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz Coadjuvante (Marina De Tavira), Melhor Fotografia, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som. De quebra, um grande favoritismo para a premiação.

Cuarón dirigindo Yalitzia: ele indicado ao Oscar de Melhor Diretor e ela, a atriz

“Roma” também espalha beleza e poesia em suas pouco mais de duas horas de duração. Cuáron (que escreveu, produziu, dirigiu e cuidou da fotografia e da montagem do filme) nos tira de um mundo  moderno, facebookiano, apressado, e nos desacelera – levando a câmera da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. É assim, como se estivesse registrando panorâmicas, que o diretor conta sua história por meio da história de Cleo (Yalitza Aparicio), uma jovem que trabalha como babá e doméstica de uma família de classe média do México nos anos 1970 – “Roma”, aqui, é referência ao bairro Colonia Roma no nome e inspiração no cinema neorrealista italiano.

Nesta posição de observador privilegiado, você poderá se aborrecer um pouco com o cotidiano sem grandes aventuras da protagonista – faz café, lava roupa, limpa a casa, segura o cachorro… Mas também se encantará com o amor dela pelas crianças, se preocupará com a ingenuidade na companhia do namorado e com o medo e a vergonha quase adolescentes da gravidez, irá compartilhar a dor do abandono, talvez até derrube uma lágrima ou outra com o desespero da perda ou a coragem de lutar pelo que ama – aqui, olhos bem abertos para a cena da praia.

Cada cena um lindo quadro em preto-e-branco

Ao redor de Cleo, o olhar do diretor sobre a própria vida: o retrato das desigualdades (da casa cheia de quartos dos patrões de Cleo ao bairro sem estrutura no qual mora o namorado), a paixão pelos aviões, a pressão imposta sobre as mulheres (da esposa que não quer acreditar no fim do casamento à filha que não pode comer doce para engordar), as revoltas populares do país (destaque para a cena que reproduz o Massacre de Corpus Christi, página triste e sangrenta da história mexicana), a homenagem ao cinema, o barulho ensurdecedor das ruas solitárias do bairro.

Vale destacar também a relação de Cleo com a patroa Sofía (a excelente Marina de Tavira). As duas saem do estabelecido padrão empregada-empregadora para uma posição de iguais – com seus sofrimentos e esperanças. E se a doméstica mal fala durante o longa, a patroa não joga palavras ao vento. “Estamos sozinhas. Não importa o que digam, nós, mulheres, estamos sempre sozinhas”, diz Sofía a Cleo, derrubando muros (fica a dica aí, Trump!) de qualquer diferença socioeconômica, política, educacional, sexual.

E é assim, a cada frase dita e, principalmente, não dita, a cada horizonte ampliado, que “Roma” vai conquistando você. Talvez demore um pouco, talvez um pouco mais do que você gostaria. Mas alerto: será difícil, depois do filme, não procurar um pouco mais de poesia no seu cotidiano.

Que não falte coragem a você para encontrá-la.

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‘Um Lugar Silencioso’: menos é mais

por Régis Martins     

Filmes de gênero são sempre tratados com certo desdém pela turma do Oscar em Hollywood. Que o diga Stanley Kubrick que investiu em filmes de guerra, terror e ficção científica com a sua genialidade peculiar, mas foi esnobado pela academia a vida inteira.

‘Um Lugar Silencioso’ sofre desse mal. Trata-se de um terror/suspense que vai além dos clichês do estilo, mas vai concorrer apenas a categoria técnica de Melhor Edição de Som na cerimônia desse domingo.

Melhor sorte teve “Corra”, filme de Jordan Peele, que no ano passado faturou Melhor Roteiro Original e foi indicado a outras três categorias. Mas não se deixem enganar, o filme dirigido por John Krasinski, que também atua ao lado da mulher, Emily Blunt, merecia mais. É um daqueles produtos baratos – para os padrões de Hollywood, claro – que consegue tirar leite de pedra.

Na trama, uma família vive num mundo pós-apocalíptico assombrada por criaturas cegas que atacam tudo que faz algum tipo de barulho. Por isso, os humanos precisam viver em absoluto silencio para sobreviver. Depois de uma tragédia inicial, a trama discorre num clima de tensão, culpa e medo.

John Krasinski em cena no primeiro filme que dirige: boa surpresa

Podem-se fazer diversas leituras filosóficas/político/sociais da trama: porém enxerguei ali um drama familiar e, principalmente, a aflição da paternidade/maternidade nos dias atuais. Como proteger nossos filhos de um mundo apavorante, barulhento e caótico?

Ao optar  por estilo minimalista, sem excessos, Krasinski mostra que, quando o assunto é terror ou suspense, menos é mais. Com poucos diálogos e poucas explicações, o longa dá espaço à imaginação do espectador, sem truques baratos e baboseiras sentimentalóides.

Outro detalhe que chama a atenção é que uma das crianças, a atriz Millicent Simmonds, realmente é deficiente auditiva. Sua personagem é um dos pontos altos da trama, porque carrega consigo toda a dor de existir num ambiente inóspito.

Ela e Emily Blunt estão muito bem e mereciam pelo menos serem indicadas para o Oscar. Mas, vocês sabem, o mundo é injusto.

 

Régis Martins é jornalista, músico/compositor e cinéfilo

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Sonhei que eu era Buster Scruggs

por Raul Otuzi

Com o meu indefectível figurino branco e um chapéu exibicionista que mais parecia um sombreiro, eu estava cavalgando solitário, dedilhando com destreza meu violão e cantando: “Cool Water”.

Um dos irmãos Coen falou que estava muito à vontade, cheio de empáfia.

O outro completou:

  • Hey, Buster, cuidado. Toda esta confiança pode acabar. Assim como a vida, a sorte não é eterna.

Dei de ombros, troquei algumas palavras com o público, cheguei à cidade, matei uns cowboys mal encarados e puxei outra canção. Agora um misto de show e catarse, em cima do balcão: “Surly Joe. Surly Joe”.

Um dos Coen:

  • Não se empolgue tanto, Você não é a Lady Gaga, não está em um musical, isso aqui é um faroeste. Sangrento, tenso. Para de ser cínico.

O outro Coen:

  • Verdade. Baixa a bola. Nenhuma de suas músicas vai para o Oscar. A indicada será “When a cowboy trades his spur of wings”. E mais: apesar do seu nome batizar o filme, temos mais cinco contos. Um melhor que o outro.

  • Cala a boca! – gritei – puxei meu revólver e…

Uma página gigante de livro encerrou minha história. Voei para longe.

 ….

Cena de “A Balada de Buster Scruggs”

O sonho continuou. Do alto, vi um ladrão de bancos em apuros. Ele se parecia muito com o ator James Franco. Mas não tenho certeza. Será que era ele?

Tudo foi muito rápido. A porta de banco se abrindo, o close nas botas e esporas, a conversa pouco amistosa, a reação quase instantânea, o tiroteio desvairado, o assalto frustrado. A captura, a sentença, o pescoço, a corda. Cavalos, índios, gritos, flechas.

No meio de tudo, antes, o velho funcionário do banco vestido com uma roupa/couraça feita de panelas. Comecei a rir. Santo Batman, quanta criatividade para se defender. Esses irmãos Coen são hilários, pensei.

….

Então apareceu uma charrete. O tom ficou sombrio. Uma farpa melancólica beliscou meu coração. Senti pena do viajante Liam Nesson e a sua atração de circo, um cara sem braços e pernas. Ah, impossível não lembrar de “Encaixotando Helena”, o filme de Jennifer Lynch.

Desci dos céus e comecei a escutar as histórias do garoto circense.

É incrível coma a vida pode ser miserável e valer menos que uma galinha.

Confesso que senti um nó na garganta.

Senti os Coen bafejando ao meu lado. Uma cortina de escárnio.

Os irmãos Joel e Ethan Coen

Nem tive tempo de me recuperar e começou mais um conto. Um velho começou a cavar, cavar, cavar. Era Tom Waits.

  • Ei, o que você está fazendo aqui, cara? Você é cantor. E isso aqui não é um musical – eu disse para ele. – Não seja ridículo.

Tom não me ouviu, estava mais ocupado brigando com um bandido que tentava roubar o ouro que ele finalmente havia encontrado depois de fazer inúmeros buracos no solo maltratado.

Eu pensei em ajudar o Tom. Mas um dos Coen me impediu, antevendo minha interferência.

  • Buster, sua participação no filme já acabou. Fica quietinho, só assistindo.

Cerrei os dentes. Esse caras ainda vão ter o que merecem!

….

 

Caravana. Uma jovem endividada e sem ninguém no mundo encontra um protetor inesperado. Rá… já era tempo, manos Coen. Até que enfim, uma história de amor.

Peguei a pipoca, uma dose de uísque e delirei antevendo (depois de alguns percalços, é óbvio) um final feliz.

O roteiro era claro: após extremas desilusões, um romance delicado e tórrido se desenharia no meio de uma paisagem deserta, preenchida pelos latidos insistentes do Presidente Pierce, o cachorro que a jovem Alice havia herdado do irmão morto.

Não é que sempre pode haver esperança? – Refleti, sentindo o cheiro de poeira e poesia.

  • Talvez – um dos Coen me cutucou – Não esqueça que você não está em um musical. Isso aqui é um faroeste. Um faroeste!

….

Último conto. Mesmo sendo Buster Scruggs, um astro, eu não sabia o que esperar. Eu deveria saber antes, me indignei. O que seria? Outra piada ácida? Veio um suspense. Cinco personagens conversando dentro de uma carruagem. Mais uma viagem. Já reparou como estamos sempre tentando chegar a algum lugar? Por que não sossegamos o facho e ficamos quietos, aproveitando onde estamos? Por que temos que estar sempre em movimento? Começando uma nova jornada? Experimentando novos caminhos? Por quê? Tantas dúvidas.

  • Chega! Quero um duelo! – Desafiei os irmãos Coen – O mundo é pequeno demais para nós três, quer dizer, dois.

  • Um duelo, seu idiota? Apesar de indizíveis, somos duas almas distintas – Joel e Ethan mostraram os dentes.

Antes que tivesse a chance de sacar meu reluzente revólver, senti meu peito ausente, formigando quente. Levei minha mão até ele. Molhei os dedos, docilmente.

A última coisa que pensei foi: Quem é Joel? Quem é Ethan? Nunca sei quem é quem. Acho que nunca saberei.

Ouviu um sopro distante:

  • Desde que continuem nos fazendo sonhar assim, isso importa?

 

 

 

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‘Pantera Negra’ pra sempre

por Thiago Roque    

O ano era 1966, a temperatura nos Estados Unidos subia com a luta pelos Direitos Humanos por parte da população negra. As HQs, que retratavam como ninguém as mudanças da época, saíam na frente de novo e trouxeram pela primeira vez Pantera Negra, um herói negro, em suas páginas.

Lá se vão 50 anos até o mesmo Pantera Negra integrar, após aparição em “Capitão América – Guerra Civil” os 10 anos do Universo Cinematográfico Marvel com filme próprio. E, mais uma vez, para fazer história – apesar de “Blade” ainda levar o crédito de primeira obra cinematográfica com protagonista negro.

Mas faz história porque “Pantera Negra” não é apenas mais um filme de herói do estúdio preferido da moçada. É, também e principalmente, um necessário manifesto sobre a diversidade.

Tão necessário que a Academia não conseguiu ignorá-lo. Assim, pela primeira vez em 91 anos, um filme de herói rompe a barreira das indicações técnicas – “Pantera Negra” foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, além de Melhor Figurino, Melhor Mixagem e Edição de Som, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Canção Original.

 “a Academia não conseguiu ignorá-lo. Assim, pela primeira vez em 91 anos, um filme de herói rompe a barreira das indicações técnicas”

O retorno de T’Challa (Chadwick Boseman) a Wakanda para ser coroado rei dá início a uma jornada por um universo sem igual nos filmes da Marvel. O diretor Ryan Coogler nos apresenta uma nação que se equilibra entre o futurismo e o orgulho de suas tradições, que fala a língua da ciência moderna e os inúmeros dialetos dos ancestrais. Cores, figurinos, olhares, sonoridades, tudo é meticulosamente pensado e detalhado para apresentar ao espectador o que ele deve ter ignorado (propositadamente ou mesmo sem querer) por anos e anos: a cultura negra – e de uma forma tão provocativa que, daqui pra frente, você deve sentir falta de uma estampa geométrica colorida ou mesmo de um batuque em outros filmes…

Photo: Matt Kennedy..©Marvel Studios 2018

Michael B. Jordan é Erik Killmonger e Chadwick Boseman T’Challa em ‘Pantera Negra’

“Pantera Negra” também nos presenteia com um dos melhores vilões da saga Marvel até aqui: Killmonger (ponto para Michael B. Jordan) vem carregado de idealismo e de sede por justiça – não se assuste se, em determinado momento, você até torcer um pouquinho por ele. O personagem carrega as frustrações de um povo excluído, sofrido, maltratado – e faz de tudo isso combustível para seus atos. É dele a melhor frase do filme: “Jogue-me no oceano com meus antepassados, que pularam dos navios porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão”.

“às mulheres foram reservados relevância, bons diálogos e incríveis takes de ação”

Mas se engana você se acha que apenas os homens brilham neste filme: às mulheres foram reservados relevância, bons diálogos e incríveis takes de ação (as cenas na Coreia do Sul, meus amigos!), seja com Okoye (Danai Gurira), general do exército das Dora Milaje, seja com a espiã Nakia (a sempre competente Lupita Nyong’o), seja com Shuri (Letitia Wright), uma cientista brilhante, jovem e descolada – ah, ela também é irmã do rei T’Challa, quase esqueci.

Além do protagonismo feminino, vale destacar também a convivência entre a antiga e a nova geração de atores negros – se Michael B. Jordan e Letitia Wright brilham pelo time dos jovens, Forest Whitaker (Zuri) e Angela Bassett (a rainha-mãe Ramonda) fazem a trama toda passar por seus diálogos para ganhar história, equilíbrio e uma dose de drama. E, claro, não decepcionam.

Como também não decepciona a trilha sonora que corre durante todo o filme – que tem consultoria de Kendrick Lamar. Vale dar o play depois.

Se os filmes de heróis surgem para inspirar o melhor nas pessoas, “Pantera Negra” surge não só para corrigir uma falha histórica com a população negra, mas também para mostrar que o mundo perde demais quando comete o erro de negar sua tão rica pluralidade.

O Pantera Negra sabia disso lá em 1966. Mas ó: ao menos, essa (injusta) espera de 50 anos valeu a pena.

 

Thiago Roque é jornalista, cinéfilo e descalvadense orgulhoso.

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“Infiltrado na Klan”: inteligente, instigante, inspirador

por Luís Fernando Laranjeira     

Além da direção leve e sensível, ótimos diálogos, belíssima fotografia, tomadas que enaltecem cenários e personagens, uma trilha sonora que dá vontade de dançar, “Infiltrado na Klan” (BlackkKlanman, no original em inglês), do genial, polêmico, provocador Spike Lee, leva a algumas reflexões necessárias nestes tempos sombrios de recrudescimento de preconceitos, violência, intolerância, fanatismo, fundamentalismo cego, de proliferação de fake news.

Negro, Lee nos mostra que o racismo não se limita à questão da cor da pele, uma vez que os fascistas militantes da Ku Klux Klan também odeiam homossexuais, judeus e brancos que não pensam como eles.

O racismo sempre foi explícito nos EUA e vem sendo revelado claramente em nossas terras tropicais povoadas por seres miscigenados, onde já não se consegue mais disfarçar, sob uma hipócrita imagem de cordialidade, sua existência histórica. Sempre me perguntei como um país assumidamente racista pode querer se colocar na vanguarda da civilização, como os EUA, de modo arrogante, se colocam. O que há de desenvolvido ou vanguardista no racismo senão a vilania, a ignorância, o sentimento e a sensação de uma falsa superioridade, a incapacidade de aceitar as diferenças? Que sociedade desenvolvida é essa que mal consegue admitir a diversidade? Nesse ponto, Lee põe o dedo na ferida.

“Sempre me perguntei como um país assumidamente racista pode querer se colocar na vanguarda da civilização”

Inteligente, instigante, inspirador, “Infiltrado na Klan” retrata bem os “caipiras” e “jecas” do sul estadunidense que espelham o resto, ou grande parte, do país. Nova Iorque, por exemplo, tida por muitos como a capital do mundo civilizado, é uma cidade dividida em guetos de negros, latinos, judeus, italianos… O que é o Harlem se não o gueto negro da big apple?

Fundada em 1866, no Tennessee, a Ku Klux Klan tem como marca os roupões e capuzes brancos que escondem a identidade de seus membros. No final da década de 1880, chegou a perder força para voltar revigorada em meados do século XX, na Geórgia. A nova doutrina, de cunho nacionalista, pregava o ódio e tinha como alvos os negros, os imigrantes, os católicos, os judeus.

John David Washington é o policial Ron Stallworth no filme

Infiltrado na Klan” é a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs, que propõe investigar a KKK infiltrando-se no grupo após receber como primeira missão no setor de inteligência da polícia: “arapongar” um discurso do ex-pantera negra e líder do movimento negro Stokely Carmichael, que adotou o nome de Kuame Ture em homenagem a líderes negros africanos, na Universidade local. Ture é tido pelo chefe da polícia não como um ativista pelos direitos dos negros, mas como um terrorista, assim como os integrantes do MST, MTST e outros movimentos sociais no nosso Brasil varonil dos tempos atuais. Na Universidade, Ron conhece Patrice (Laura Harrier), a presidenta do grêmio estudantil, por quem acaba se apaixonando. Autorizado a conduzir a investigação, Ron tem como parceiro o policial judeu Flip Zimmerman (Adam Driver), que o encarna quando ele é aceito na organização e passa a ser necessário o contato pessoal com os demais integrantes.

O filme começa fazendo referência ao clássico “E o Vento Levou”, de 1939, mostrando a sequência em que Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), caminhando entre os corpos destroçados dos soldados sulistas derrotados pelos ianques na guerra civil americana (1861 a 1865), procura desesperadamente pelo Dr. Meade. Corte para o discurso do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin), tendo como pano de fundo cenas de “O Nascimento de uma Nação” (1915),dirigido por D. W. Griffith, que retrata negros (interpretados por atores brancos com os rostos pintados) sem inteligência e agressivos sexualmente com as mulheres brancas. A cena mostra Beauregard praguejando contra negros e judeus e defendendo a supremacia branca representada pelos protestantes. A fala dá a tônica do perfil ideológico da Ku Klux Klan, denominação que eles evitam, preferindo referir-se à milícia, (opa, ato falho) como a “organização”.

O discurso de ódio mal ensaiado, os diálogos perversos entre os “klansmen” e o gozo histérico dos que assistem ao já citado “O Nascimento de uma Nação”, após uma cerimônia da KKK, bem demonstram a pequenez e a pobreza de espírito, a carência de humanidade, a fraqueza e até mesmo o temor de, eventualmente, eles próprios se sentirem inferiores aos negros. Nesse sentido, a expressão aparvalhada de David Duke (Topher Grace), após ouvir em ligação telefônica a troça de Ron a respeito das diferenças de pronúncia entre negros e brancos, sobretudo quando fala que, além de ignorante e pedante, o líder da KKK tem pau pequeno, é bem ilustrativa.

Spike Lee dirige Topher Grace e Adam Drive

A caracterização do “fake Ron” é especialmente bem construída. Uma mistura da voz do Ron original negro com o corpo do judeu branco. Um mantém conversas telefônicas com a milícia (opa, de novo), quer dizer, com a organização, e o outro se apresenta pessoalmente nos encontros. O “fake Ron” é uma tremenda contradição, pois reúne um negro que tem consciência da opressão contra os negros, mas tem um espírito conciliador e acredita que pode fazer algo para mudar a situação; e um judeu branco que, como ele mesmo diz, não foi criado para ser judeu. “Jamais fui a um bar mitzvah, não tive um bar mitzvah”, afirma, para depois concluir que nunca deu importância aos rituais e à tradição. Isso depois de ter um revólver apontado para seu rosto por um dos mais violentos membros da KKK, que queria obrigá-lo a enfrentar um detector de mentiras e ver se ele era cincuncidado. No diálogo, Felix nega veementemente o holocausto (peço licença e perdão pelo parêntesis, mas não resisto a lembrar que no Brasil de hoje há quem, em postos chave no governo, negam com a mesma veemência e atribuem o aquecimento global a uma trama do marxismo cultural), e Flip diz que os massacres na Segunda Guerra Mundial foram necessários para a limpeza étnica e eliminação dos judeus. Uma cena tensa. Assim como tenso é o próprio argumento do filme. Mas Lee, com sensibilidade e leveza, conduziu a trama pouco explicitando essa tensão. São poucas as sequências explícitas de ação e violência, praticamente restritas aos diálogos. Esses, sim, carregados de violenta tensão. E de ironias também.

“São poucas as sequências explícitas de ação e violência, praticamente restritas aos diálogos. Esses, sim, carregados de violenta tensão. E de ironias também”

Por outro lado, iluminação delicada e a elaborada fotografia, assim como planos e enquadramentos de câmera, dão um tom poético à película. É o caso da cena em que Ron e Patrice caminham por uma trilha margeando um riacho. O cuidado com a iluminação, os ângulos para as tomadas realçam o brilho do sol e criam pontos de luz ao longo do trecho percorrido pelo casal. Linda cena.

Um primor também a música e a coreografia na sequência em que Ron e Patrice dançam em uma casa noturna após a palestra na Universidade, logo no início do filme. Spike Lee consegue com cenas como essas, a da caminhada, em alguns diálogos e situações, amenizar a tensão e a violência que norteiam a trama, provocando até risos.

Interessante destacar também que, paradoxalmente, o chefe de polícia branco fornece as condições para a investigação e até alerta um ingênuo detetive negro que a tática da milícia (ai, meu Deus, de novo), a tática da KKK é infiltrar sua gente na política, ocupar espaços e buscar o poder por meios institucionais (David Duke é hoje um congressista que apoia Donald Trump, por exemplo). Porém, sempre há um porém… Bem, assista ao filme para entender porque o espírito conciliador de Ron Stallworth não encontra tanto eco na realidade.

Enfim, Spike Lee consegue com “Infiltrado na Klan” nos brindar com um filme, ao mesmo tempo, questionador, que denuncia uma triste e cruel realidade, poético, chocante, contundente, que contribui para compreendermos um pouco mais o que se passa neste início de século XXI no Brasil e no mundo. O diretor, inclusive, inclui imagens reais de manifestações violentas que provocaram mortes nos EUA nos últimos anos. Uma obra que merece a estatueta.

 

 Luís Fernando Laranjeira é Jornalista, Mestre em Comunicação e Estudos de Linguagens, fotógrafo, editor e um curtidor da Sétima Arte.

 

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