Márcia Intrabartollo

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e aprendiz de escritora

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Fio Maravilha

Não falo do fio dental odontológico que usamos diariamente, do fio da navalha e nem da música do Jorge Benjor inspirada em um jogador de futebol. Mas já que toquei neste assunto, vou aproveitar a deixa e revelar em primeira mão que o doutor Sócrates participou de nossa aventura na Itália.

Sim, ele estava lá. Segura esse lance!

Muitas vezes nos perguntavam de onde éramos: Do Brasil, de Ribeirão Preto. “Não conheço”. De São Paulo. “Oh, é uma cidade muito violenta!”, diziam.

Até que um dia veio o insight de falar na linguagem do futebol. Quando questionada de onde éramos, devolvi perguntando se meu interlocutor conhecia o jogador Sócrates. “Sim, claro, ele jogou na Fiorentina!”, respondeu o homem com o olhar brilhando. “Somos da cidade dele, Ribeirão Preto”. Funcionou tanto que depois de um tempo já respondíamos direto: “Somos de Ribeirão Preto, cidade do Sócrates”.

Esse “fio maravilha” da nossa cidade nos aproximava dos italianos.

Feito o desvio, volto ao fio desta crônica, que foi visto em nosso alojamento de Point Saint Martin, o único que oferece lavatórios para os pés, uma espécie de pia de chão cuja ducha suaviza as dores. Depois deste banho é que se cuida das bolhas e faz-se os curativos.

Se já está pensando que passamos fio dental nas bolhas, engana-se. O caso é outro, e para contá-lo, apresento seu protagonista, um dos italianos que adoraram saber que éramos conterrâneas do Sócrates. O nome dele é Jácomo.

Vista de fora do Castelo de Bardi

Ele era um avô de uns 65 anos, que dividia a vida com a mulher, Pepina, com quem percorria a pé parte de seu país, sempre que podia. Nos conhecemos no trajeto cheio de apiários entre Vèrres e Point Saint Martin, que incluiu nossa visita ao maravilhoso castelo de Barbi, locação do filme “Vingadores: A Era de Ultron” (2015). Andamos juntos mais à frente outras vezes.

Enquanto redijo essa grande explicação, as outras peregrinas estão relaxando em suas camas no fim da tarde, à espera da Regiane voltar do vestiário feminino plenamente embelezada, para depois irem jantar. É quando a própria abre a porta, com a pressa de quem foge de um fantasma zombeteiro. Com cara de criança, o corpo dobrado para frente, ofegante, sussura atropeladamente coisas do tipo “vocês não vão acreditar”.

“O que houve?”

“É que eu vi o marido da Pepina de cueca.”

“De cueca? Uia, que folgado de andar por aí assim!”

“Ele estava indo do vestiário para o quarto deles…”

“Também não é para tanto estardalhaço, Regiane, menos…”

“Eu nem consigo falar de tão surpresa!” – ela ria como se fosse proibido rir, sabe?

“Mas surpresa com o quê, nunca viu homem de sunga no clube?”

“É que a cueca dele era fio dental! Cuequinha preta e fio dental!”

Ohhhh!

“Ao vivo eu também nunca vi homem de fio dental”.

“Nem eu…”

Ela conta que passava pela área de convivência quando percebeu alguém andando do outro lado, já pertinho do quarto do casal. Olhou para ver quem era e cumprimentar… e foi aí que  viu. Ele nem fez menção de se cobrir, disse “ciao” e entrou no quarto tranquilamente.

“Não esquenta, Regiane, aqui eles não tem esses pudores como a gente lá no Brasil”, explica Renata, a viajante internacional.

Apiários por todo o caminho

Nós ficamos como abelhas zunindo.

É público e notório que os italianos são sedutores (apesar de que não cruzamos com nenhum daqueles homens dos filmes por lá. Só um, lembrando bem, ou dois, transitando pelas cidades). Nos grandes centros, eles se vestem de calças justas, barras dobradas deixando aparecer os sapatos – um pula brejo cool. Falam com as mulheres olhando muito diretamente nos olhos, e tascam seus “piu bela” a três por quatro, quando não estão de cara amarrada, o que é bem comum.

Mas para nossa cultura pseudo libertária e tecnicamente conservadora, nosso brasilianismo machista em que só as mulheres podem e devem ser sedutoras, nossa cultura de apego à juventude e à beleza, em que a feiura e velhice excluem outros méritos – sensualidade entre eles – ver o sessentão de fio dental pretinho soou inusitadíssimo.

No jantar, livres da possibilidade de sermos ouvidas, rimos ainda mais da situação, da surpresa, da novidade, como crianças quando vêem algo que é proibido. “Não pode falar palavrão, menino”. E ele fala. Faz chacota, ri, se rebela. Se as mulheres lutaram tanto pelo direito de usarem calças, por que criticariam o homem que usa saias ou fio dental?

É esse o fio maravilha dessa história, sobre o qual equilibraram-se nossos preconceitos e curiosidades naquele dia, na pacata cidade que nem deve ter jogador de futebol de peso. Ainda mais um jogador mundialmente famoso e que promoveu a democracia no futebol.

Pensando bem, ver com naturalidade o fio dental masculino é um ato de democracia.

Nos dias seguintes, ainda cruzamos algumas vezes com o Jácomo e a Pepina, sempre simpaticíssimos, de bom papo, ambos prestativos, vestidos com suas calças de trilhas.

Viraram musos.

Olhávamos para ela e imaginávamos (sonhávamos, seria mais justo dizer) que talvez ela estivesse de corselet e calcinha de renda vermelha por baixo da roupa de viagem, subvertendo a ordem estabelecida de mochila exígua. E pensávamos no quanto a vida sexual deles devia ser divertida. Eu, especificamente, refleti muito sobre minha calçarola da vovó.

Para você ver que nesse mundo a gente sempre pode pensar no contrário do que é, sempre pode fugir das ditaduras sem sentido.

Isso não pode. Não mesmo?

Sou inteligente. Sou mesmo?

Vivo presa. Vivo mesmo?

Para você ver que nem tudo é tão reto quanto pensamos.

E ver que perder, e depois ganhar, para de novo perder, e mais uma vez ganhar, é um dos melhores regalos que essa viagem nos dá.

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora

 

 

 

 

 

 

Galeria (clique em qualquer foto para ampliar)


Este fato real é a terceira crônica da série Pé dá Letra, publicada no Palavreira toda quarta-feira, com histórias inspiradas na peregrinação de sete brasileiras pela Via Francígena, em 2017. Para ver fotos e saber mais sobre o trecho Vèrres-Point St Martin, onde aconteceu a história de hoje, visite o Peregrinas Mundo Afora.

Para ler a crônica anterior, Sobre Coisas que Dão na Barriga, clique aqui

 

 

 

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Sobre coisas que dão na barriga

Dentro de 4 horas começaríamos nossa peregrinação pela Itália e meu abdômen fazia barulhos estranhos.

O medo.

Fui para o banheiro da pousada de Aosta no meio da noite, enquanto a Kele dormia. Não tínhamos tido entreveros desde que saímos do Brasil, mas eu sabia – só eu sabia! – o quanto tudo aquilo me punha em estado de alerta, como uma personagem de filme de terror em um corredor escuro, ouvindo portas rangerem, passos lentos, vendo os pingos da tempestade escorrerem na janela… e ainda aquele frio… o arrepio gelado escalava minhas costas.

Eu era um bicho acuado, o filhote que não sabe descer da árvore. Não se tratava só de vencer os 750 km a pé, mas de tudo… do suspense, da timidez, de pousar os olhos em um fantasma horroroso e conseguir rir dele: “você não é de nada, cara!”

O banheiro charmoso não me dava chances reais de fazer dele um cenário de terror, nem chovia lá fora como minha mente insinuava. As acomodações eram ótimas e eu podia considerar que tinha acertado na minha primeira reserva pelo Booking!

A pousada ficava em um prédio antigo e bem localizado, de paredes grossas, portas baixas, corredores estreitos, escadas acentuadas e iluminação amarela. Não tinha recepção. Entramos nela, saímos e não vimos ninguém por lá. Um jeito muito quieto de fazer as coisas.

Isso eu recapitulava no banheiro, tentando domar o piriri  e me acalmar.

Se a Kele acordasse, acharia uma companheira serena como uma montanha. Eu diria: “não estou conseguindo dormir” e abriria um sorriso terno, como se tudo estivesse ótimo. Mas a montanha tinha coração de vulcão e esperava, com a viagem, mudar seu padrão de comportamento para algo mais leve, transformar-se em duna.

Minha barriga dava nós.

Se conseguisse encarar aquilo, tentaria me livrar de alguma de minhas amarras. Seria o dia de me permitir errar sem culpas. Pensava em ir mentalizando “você pode errar, você pode errar”, como se dissesse um mantra.

Até tinha feito um roteiro de coisas que eu queria conseguir naqueles 30 dias, do mesmo jeito que se faz roteiro de pontos turísticos. Talvez por isso mesmo tenha surgido aquele medo medonho.

Eu queria seguir o mapa do tesouro, sendo o tesouro eu mesma.

Não queria ganhar coisas, mas perder, me esvaziar.

Esperava respirar o novo, prender o ar e deixá-lo depurando minhas células.

Observar os lugares feios e os bonitos sem paixão. Não tomar o melhor vinho, mas um qualquer. Não queria mais me encolher, nem controlar.

Não queria me amedrontar mais e, não obstante, indiferente a meu querer, o bicho estava bem ali comigo no banheiro, de madrugada, grudado.

Dentro de poucas horas, nos juntaríamos ao grupo e iríamos a pé para Châtillon, a 34 quilômetros daquele banheiro de Aosta. A Regiane seguiria de trem com a Vera, que estava machucada, e levariam parte de nossas bagagens, o que aliviava em meio quilo o peso programado para minhas costas e faria enorme diferença no maior trecho de montanha de todo o trajeto.

Mesmo tudo parecendo certo, eu só pensava em pular esse dia e  começar a trilha no próximo.

Vista de Aosta do caminho para Chatillon

Mas fui, levada pelo rio da vida e só parei de seguir adiante um mês depois, quando chegamos a Siena.

Uma fresta sempre me impele a ir em frente.

Aliás, continuo na trilha da Francígena, como um fantasma andarilho. Parte de mim fica vagando por lá, medindo as perdas, colhendo os ganhos, me alimentando com os flashs do que vivi.

Essa foi uma daquelas viagens feitas de estradas mágicas, que vão se colocando sob nossos pés. Pensamos já estar andando por outra, ou em um shopping, mas de repente a vemos, a cruzamos, andamos nela mais um pouco. É uma leveza que impregna e que me ajudou, sim, a dar uns passos novos.

No trajeto, eu me espantava com as reações corajosas das outras peregrinas.  Às vezes eu passava horas andando e refletindo sobre o quanto o medo me atrasava a vida, e também no quanto aquele pulsar de auto-preservação me fazia bem.

Descobri que o medo me levava para longe do confronto, amornando-me, esfriando-me, e que há menos liberdade para quem teme. Ele ocupa muito espaço.

E eu queria fazer minha re-ocupação. Queria muito ter feito, só que desta vez não deu.

Talvez eu consiga um pouco mais na próxima. Para ela, e para bater pernas por aí, tenho planos de estampar em uma camiseta a frase do Confessio Fraternitatis com a qual me emocionei ao voltar para casa: “Ir ao encontro do sol nascente, com a cabeça descoberta, o coração aberto e os pés nus”. Vou dar um nozinho nela e deixar a barriga aparecendo.

Será meu troféu,  não por ter ganho a batalha, mas pela bravura da luta em terras tão adversas.

 

GALERIA (clique nas fotos para ampliá-las)

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora


Esta é a primeira crônica da série Pé dá Letra, publicada no Palavreira toda quarta-feira, com histórias inspiradas na peregrinação de sete brasileiras pela Via Francígena, em 2017. Para ver fotos e saber mais sobre o trecho Aosta-Chatillon, onde se passa a história abaixo, visite o Peregrinas Mundo Afora.

 

 

 

Leia o texto de apresentação desta série: Histórias de peregrinas pedem passagem

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Nosso incrível exército de Brancaleoni (com ‘i’ mesmo)

Bastou caminhar um dia na Itália, de Aosta a Châtillon, para aprendermos que fazer trekking é entrar para o exército. Servimos na via Francígena precisamente de 22 de junho a 19 de julho de 2017,  onde aprendemos a ter coragem diante dos coelhinhos brancos, disciplina para lavar diariamente as roupas sujas, tenacidade para comprar comida no supermercado, estratégia para programar o dia seguinte e resiliência para madrugar.

A rotina espartana era cumprida sob o comando de uma provável descendente do líder do Incrível Exército de Brancaleone (já disse que o sobrenome da Renata é Brancaleoni?). Passados quase 20 dias de quando pusemos nossos pés na Itália, cruzamos o trecho de Costamezzana a Fornovo. Já estávamos bastante acostumadas umas às outras, noves fora as brigas.

Nossa Brancaleoni – com i – não era trapalhona como o famoso personagem do cinema, nem seu batalhão era  maltrapilho como foi o exército das telonas. Tínhamos tudo de boas marcas, mas ainda assim não passávamos de mulheres sem glamour e grana, sem sapatinhos de princesas e muitas vezes com uma fome incontornável.

Vocês terão fortes emoções se refizerem conosco o caminho por onde marchamos com bravura quase dez dias antes do fim de nossa missão na Itália.

Estamos a caminho de Fornovo, conhece? Foi a cidade onde a Força Expedicionária Brasileira rendeu a Divisão Alemã e a Resistência Fascista na 2ª Guerra Mundial. Brevemente pisaremos o chão onde os pracinhas brasileiros foram heróis e provavelmente seremos carregadas no colo ao chegar, dada a glória da histórica batalha vencida por eles! Nossa expectativa é grande: como seremos recebidas lá tantos anos depois do memorável confronto, nós, as brasileiras do incrível exército de Brancaleoni?

Família da Stefania, que recebeu tão bem essas estranhas peregrinas

Alguns quilômetros antes de chegarmos à cidade, tivemos uma clara demonstração do que nos aguardava. Ao nos identificarmos a uma família local, fomos convidadas a descansar em um haras. A Stefania cercou-nos de cuidados e serviu-nos o verdadeiro parmesão de Parma, água com gás, café, pães caseiros e uns frios bem finos, além de chocolates. Saímos de lá para nossa marcha mandando beijinhos e abraços para nossos anfitriões. Pura fama, como não convém a graves soldadas.

Seguindo nosso caminho, ladeamos por um bom tempo um rio poluído e seco e passamos por uma grande cervejaria desativada, até que um espinho furou o pé de uma de nós.

Como o espinho conseguiu atravessar o forte solado da bota? Suspeitamos, refletimos com nossos altos QI e entendemos que aquele caminho ainda estava cheio de truques e perigos desde a 2ª Guerra! Macacos nos mordam! Por sermos o máximo, provavelmente desviamos instintivamente das armadilhas e bombas armadas naquele bosque para nos capturar, restando só o ataque do espinho.

Não desanime com isso porque nós, destemidas, bravas, brasileiras, misses daquelas estradas de terra, vencemos tudo, tiramos o espinho do pé, seguimos em frente, tomamos suco e agora estamos nos aproximamos de Fornovo! Cruzamos a bela ponte sob um enorme rio seco e adentramos na praça de Fornovo como se fossemos heroínas. Mas…

Cadê as trombetas?

Os habitantes não deram as caras. “Uai”, diriam os mineiros.

Obviamente estavam entrincheirados em suas próprias casas e comércios fechados, espionando e temendo a corajosa divisão feminina brasileira do incrível e famigerado exército de Brancaleoni! Era dia 8 de julho de 2017 e o termômetro marcava 42ºC, com sensação térmica de 50ºC.

Não nos intimidamos pela cidade fantasma e atravessamos com vigor sentido Respicio, especificamente onde décadas antes ficava a divisão alemã.

Castigadas pela sede, sob um sol que não remete em nada ao frio congelante sofrido pelos pracinhas, fomos arrastando nossas mochilas com frutas compradas na promoção. Seguimos pela estrada deixando para trás e para nunca mais a cidade de Fornovo, a única do trajeto que não conhecemos por dentro.

Muitos, muitos passinhos sob o sol

O asfalto mole grudava nas nossas solas e soltava grandes ondas de calor. Do acostamento víamos os motoristas de carros que passavam em alta velocidade, com cara de quem se pergunta onde guardávamos nossos canhões… Na mochila, claro, onde mais?

A paisagem já se convertia na da Toscana, mas a beleza não estava amenizando a fome, a sede, o cansaço e a moleza do calor desértico. O caminho não tinha sombra e não dava trégua. A água do reservatório estava entrando em ebulição. Comandante, o que fazer?

“Vamos parar todas, tirar nossas meias e pôr nossos pés para cima”, disse a certeira Renata… e obedecemos.

É isso que se faz na guerra: põe-se os pés para cima, não sabem?

Achávamos que o alvo Respicio era mais perto… ou será que nossos mapas estavam errados? Se fosse isso, não chegaríamos nunca! Que roubada, o que fazer? Pensamos um pouquinho com nossos miolos moles e, de tão sensacionais que somos, logo montamos a estratégia de deixar Respicio de lado e seguir direto para o alojamento de dois andares reservado pelo Booking, que tinha sinalização na estrada. Vamos deixar essa história de guerra pra lá.

Resolvido!

No entanto, o cansaço permanecia, por isso, de novo consultamos nossa suprema capitã Brancaleoni sobre o que fazer. Solene, de blusa justinha amarelo Brasil, ela virou-se para a cabo Adriana com aquele charme das protagonistas:

“O que você decidiria, cabo Adriana, se estivesse liderando esse exército?”

“Pararia a tropa na gelateria, senhora”.

Só inteligência pura para ter tamanha sacada naquele momento. Obedecemos, mas, se por um lado lá tinha gelato, banheiro e água fresca, por outro tivemos de falar grosso e mostrar nossa excelência moral, estratégica, física e espiritual para aquele soldado raso que nos atendia fazendo cara feia.

O haras

Vencida mais essa batalha, passamos nossos protetores solares, gloss – não sem antes tirarmos uma selfie – e marchamos para a pousada… ops… acampamento.

Quando já tínhamos espertamente tomado nossos banhos, atualizado o Facebook, lavado nossos uniformes na máquina e contado carneirinhos, fomos servidas de um jantar regado a vinho vinagrado, torta com pimentas fortes e inteiras, salada mal temperada e um macarrão “vá lá”. Após a sobremesa frugal, bradamos de mãos dadas nosso grito de guerra (Por hoje chega!!!) e caímos nas camas fofas.

“Amanhã vai ser outro dia. Essa batalha foi vencida!”, decretou a cabo Adriana.

Pensando no risco que corremos de termos sido envenenadas no jantar, uma de nós trocou mensagens com o primo Douglas, confessando em tempo real as agruras da guerra e sobre estarmos coogitando desistir de tudo, pois para o dia seguinte estava prevista a perigosíssima subida dos Apeninos. Ele não se conformou e decretou:

“Prima, diga a todas que subam os Apeninos. Vocês são integrantes do incrível exército de Brancaleoni e não desistem nunca. O Brasil torce por vocês.”

Dá arrepios só de lembrar. Com essa injeção de ânimo, na madrugada seguinte lá estávamos nós na estrada de novo, gatas de botas, subindo a ladeira.

A coisa mais linda de se ver!

 

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora

 

 

 

 

 

 

 

Este delírio é a primeira crônica da série Pé dá Letra, publicada no Palavreira toda quarta-feira, com histórias inspiradas na peregrinação de sete brasileiras pela via Francígena, em 2017. Para ver fotos e saber mais sobre o trecho Costamezzana-Fornovo, onde se passa a história abaixo, visite o Peregrinas Mundo Afora

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Histórias de peregrinas pedem passagem

Sempre ouvimos dizer que pescadores exageram as histórias que contam, mas eles perderão o posto em breve. O motivo: somos um grupo de peregrinas que começará a publicar aqui no Palavreira a série de histórias “Pé Dá Letra“, sobre o bate-perna que fizemos na Itália em 2017. Zanzamos cerca de 750 km basicamente por áreas rurais de lá e, convenhamos, nem sempre acontecem coisas tão incríveis em um trajeto assim… O jeito vai ser dar aquela exageradinha, juntando umas pitadas de invencionices… uma certa licença poética para enfeitar a história real.

Para fazer o “esquenta” da série, o caso abaixo é um testemunho “ponta firme”:

Quando saí da Caixa Econômica Federal – onde trabalhei por 27 anos – no fim de março passado, meu único plano era me ocupar com minha própria reinvenção. Isso não é sinônimo de plástica na cara, não. Comecei a fazer uma mistura de redescoberta, revelação e reconstrução, que ainda seguem. Estas são palavras que começam com “re”, assim como recomeço e Renata. Quem é ela?

Renata, vocês verão, foi a capitã do “Exército de Brancaleoni”. Nem bem me viu soltinha, ela refez o convite para que eu integrasse o pelotão que partiria em junho para andar em uma parte da Via Francígena, que tem cerca de 1.900 km no total. Topei apenas porque não ia aguentar ficar em Ribeirão Preto vendo as fotos delas no Facebook. Para fugir do sofrimento da inveja,  passei os dois meses seguintes entretida em treinar e comprar tudo o que era preciso para a empreitada.

A mochila tinha que ter um camel back; a bota precisava ser uma Salomon duas numerações acima da minha; as roupas – segunda pele, fleece, legging, anorak para muita chuva, um vestido, roupa para dormir, camisetas e calça de trilha – tinham que ser levíssimas, como a mochila e o saco de dormir.  Lanterna, carregador de celular, toalha de banho, chapéu de peregrina, óculos de sol, uma Havaianas, primeiros socorros… todos estes itens não podiam pesar mais do que 6 quilos, pois na trilha ainda entrariam a água e os lanches de cada dia.

A Regiane, a Renata, a Sheila e a Vera começaram a peregrinar na Suíça três dias antes de mim e da Kele. Elas já entendiam do riscado, ao contrário de nós, estreantes, que começamos em Aosta, na Itália, onde nos encontramos.

Foi aí que foi escrita a primeira crônica desta série, “Nosso Incrível Exército de Brancaleoni”, que sairá na próxima quarta-feira. A Adriana chegou na Francígena alguns dias depois, quase ao mesmo tempo em que a Vera nos deixou. Entre nós havia um homem eletrônico chamado GPS, ou Marcelo, e uma mulher eletrônica, a danadinha da GoPro (se vocês ainda não leram as peripécias da GoPro na crônica Take a Photo, my Love, fica a dica).

Assim, éramos seis mulheres brasileiras que todas as madrugadas partiam com suas mochilas nas costas, andavam o dia todo sem saber como seria a paisagem depois da próxima curva, como seria a próxima cidade em que chegariam, se o alojamento daria certo, o que comeriam, se o banho seria quente, se acertariam o caminho, se o dinheiro ia dar…

O que vivemos foi divertido e quase daria um livro. Talvez esse dia ainda chegue encadernado. Por ora, transformou-se em crônicas sobre histórias vividas de verdade ou apenas em nossas cabeças. 

Esperamos que aproveitem. São nossos pés que vão dar as letras pra vocês.

Passo a passo, os pés das peregrinas pedem passagem.

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora

 

 

 

 

 

 

NOTA DA BLOGUEIRA
A série “Pé Dá Letra” será composta por ao menos dez crônicas de viagem (pelo menos nesta primeira temporada), publicadas semanalmente, sempre às quartas-feiras, a partir de 6 de maio de 2018.

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João e o Anjo

MÁRCIA INTRABARTOLLO *

O próprio João falou-me sobre seu anjo quando tomei coragem de abordar aqueles olhos nítidos que me acompanharam desde que eu pisara ali. Olhos sem qualquer pavor pela doença.

Esquelético, exibia cabelos brancos rareados pela ação do tratamento e tinha um aspecto geral frio. Vinha de uma cidade pequena, sua cidade natal, e agora dormia com cinco estranhos em beliches, com a privacidade preservada por cortinas de lençóis. Antes de ser abrigado ali, sua rotina resumia-se a sentar-se no mesmo banco da praça quase sempre no mesmo horário, e esperar quem sabe os antigos amigos da lavoura para fazerem nada juntos.

Sua vida não prometia nenhuma aventura que não fosse a morte, até a manhã fatídica em que escutou uma música vinda de longe, a música de que ainda não se esquece, melodia de sua vida e de seu fim.

Como já não confiava em sua audição, fez concha no ouvido para certificar-se de que não escutava coisas, mas não. O som que vinha era animado, pondo-o em alerta. Endireitou-se no banco da praça e esticou o pescoço pela possibilidade do que veria, com lembranças empoeiradas saltando na memória… mas as crianças, rápidas, adivinharam a surpresa e estavam alvoroçadas com o caminhão colorido e barulhento que dobrava a esquina cheio daquela gente de circo. Gargalhavam. João sorriu, contaminado.

Mas surpresa digna de uma parada cardíaca ele teve mesmo quando viu descer do caminhão um anjo. Esfregou suas cataratas. Nem em seus maiores devaneios pensava ser possível um anjo integrar um circo, ainda mais um como aquele, o mais bonito. Iluminado e exótico, o anjo desceu com destreza da carroceria, olhou fixamente para João e seguiu decidido em sua direção.

Não devia ser com ele… provavelmente o anjo se dirigia a outra pessoa… mas observou ao seu redor e viu que todos já tinham corrido para o caminhão e ele estava só. O anjo continuava a olhá-lo fixamente e a seguir em sua direção. Menos de meio quarteirão os separava.


‘Mas surpresa digna de uma parada cardíaca ele teve mesmo
quando viu descer do caminhão um anjo. Esfregou suas cataratas’


Seu entorno escureceu. Via apenas o anjo andando com um foco de luz acompanhando seus passos cadenciados. Como por milagre, a vida ficou completamente silenciosa e desfocada, não havia depois nem houvera antes. João gelou: era chegada sua hora.

Enquanto os cabelos longos e ondulados se desmanchavam com o vento, o anjo balançava os quadris. Usava sandálias prateadas de salto alto, e suas longas pernas eram cobertas apenas pela meia quadriculada bege e a saia curta brilhante. João adorou sua boca vermelha como não convém. O anjo andava como quem flutua e sorria para João. Ele sorria de volta, olhos fechadinhos de tanto.

Havia vivido sua vida acostumado a ser menos em tudo, suando com o trabalho árduo, o estudo nulo, a comida medida, a mulher, a penca de filhos e uma feiúra doída. Viveu como quem pedia desculpas, sem direito de sonhar. Até de si mesmo escondia seu mais íntimo desejo, porque era pecado impossível, mas no fundo dos lençóis imaginava uma loira, ah, tão bonita, uma loira como aquele anjo. Ele tinha o rosto da mulher desejada, e como poderia estar tão ao alcance de suas mãos enrugadas? Que última ironia da vida aquele rosto tão sonhado ser o do anjo que vinha buscá-lo! Morrer agora, isso sim, seria um pecado.

O anjo ajoelhou-se. Pôs as mãos nas pernas de João e aproximou seu rosto perfumado. Sussurrou. O velho coração tremia, e o corpo, ah…

Não teve conflito algum, assentiu com a cabeça. Obedeceu. Então o anjo beijou seu rosto e lhe estendeu a mão, que João tocou suavemente. De olhos molhados e sem uma única palavra, foi conduzido até o hotel de viajantes em frente à praça. Ali, o anjo se despiu e amou João em troca de sua aposentadoria.

Quando contava sua história, os olhos convalescentes do velho se emocionavam. Havia dois anos que fora expulso de casa, restando-lhe as lembranças, o abrigo na cidade grande, a doença fatal e a falta dela.

João não sentia tristeza pelo abandono ou por viver seus últimos dias entre estranhos. Não importava a doença, dores ou a morte que espreitava… grande coisa! O HIV tinha o sabor permanente da realização de seu sonho. Sentia uma falta sufocante da sensação que o anjo lhe trouxera naquela cama de hotel, e que queria de novo ainda que o preço fosse viver suas dores dobradas e penitências torturantes.

O que importava a João era que em uma manhã de sol de sua vida neutra, um lindo anjo loiro esteve em seus braços não merecedores. Para reviver aqueles medidos minutos, viveria outra vez seus secos setenta anos.

A vida inteira cabe em instantes.

 

* Márcia Intrabartolo
Jornalista, escritora nata, amiga do coração e recordista de audiência entre os ‘palavreiros’ convidados do blog com sua crônica
Take a Photo, My Love


 

 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!

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‘Take a photo, my love’

MÁRCIA INTRABARTOLLO *

Máquinas têm sentimentos e, ouso dizer, paixões. Não falo por falar, mas porque vi, e tenho testemunhas, a sedução de uma filmadora e fotógrafa americana em cima de um indefeso alemão.

Pobrezinho, caiu na rede dela e fazia cara de gostosão. O moço nem era bonito, até sem graça para meu gosto, com roupas quadradinhas e reações óbvias. Tinha aquela frieza europeia que incomoda bastante minha verve tropical. Mas convenhamos, essas características devem ser sensacionais para máquinas, mesmo para ela que teve certa vivência norte-americana (corre à boca pequena que ela tinha sido fabricada na China e ido de navio para os Estados Unidos, e depois fora exibida em vitrines de eletroeletrônicos com todas as suas partes à mostra, o que presumo deve ter subido à sua cabeça. Ela, vou falar sério, se achava!).

O nome da maquininha miúda e de tecnologia requintada era Gopro. Cá entre nós, a tecnologia podia ser chique mas a própria era escancarada nas sem-vergonhices. Vocês me darão razão.

Para constar, pronuncia-se goupró, e esse é um detalhe importante porque era ensinada a atender comandos de voz. Para que ela tirasse uma foto, por exemplo, devia ser-lhe dito: Gopro, take a photo. E ela agia.

Apesar de minhas restrições, nos coloquemos um pouco do lado dela. Tirada da China novinha, levada para um país estranho e depois para o Brasil de seus compradores, e mais uma vez embarcada com seus donos e amigos para ser praticamente escravizada… Enquanto todos passeavam de bonés, óculos, protetores, ficava ela sob o sol escaldante sem um chapéu sequer trabalhando sem parar, filmando, gravando, fotografando, inclusive à noite. Não tinha vínculos afetivos, não tinha amigos e vida social zero. Carentona. De modo que, ao ver o alemão com aquele sotaque diferente e frio como uma geladeira deve ter achado sexy e se apaixonado. Arrumou então um jeitinho de declarar seu amor.


‘Para constar, pronuncia-se goupró, e esse é um detalhe
importante porque era ensinada a atender comandos de voz’


Convenhamos que havia outras possibilidades: poderia ter caprichado nas imagens dele, poderia ter se jogado no seu colo várias vezes, engripado e feito de tudo para ele vir acariciá-la. Mas nada disso seria tão explícito quanto o que aquela inteligência artificial maquinou.

A paixão acha brechas, cria ocasiões.

Contrariando o profissionalismo que dela era esperado, a Gopro fechou seus ouvidos para todas as outras vozes e só atendia aos comandos do seu amo e senhor, o frívolo alemão.

Espertinha.

O dono da Gopro queria tirar uma foto, dava o comando, ela nada. Duas, três vezes e nada. Chamavam o germânico e ele dizia todo vaidosinho “Gopro, take a photo” e ela, pi pi pi clique.

Assanhada.

Com o tempo ele até brincava: “Gopro, take a photo”, dava um tempo e completava “my love”.

Foi tentado de tudo. Até chamaram um autêntico inglês britânico, que armou sua melhor pronuncia e entonação para dizer várias vezes “Gopro, take a photo”… sem sucesso. A professora de inglês disse “Gopro, take a photo” inutilmente. Só rolava com o alemão.

Faltava pouco para ele assumi-la, carregá-la a viagem toda com ele, quando alguém resolveu atrapalhar a relação. Sempre tem alguma intrigueira, e essa foi realmente perversa. Arquitetou um plano para tirar os holofotes da sedutora filmadora fotógrafa e ainda baixar a bola do alemãozito. A falsa pediu displicentemente para ele falar com a Gopro, e ele atendeu, deu o comando como quem beija. Ela rapidamente deu seus gritinhos delirantes: “pi pi pi” e clique, fotografou-o.

Mas a vilã destruidora de lares gravou a voz do alemão em seu celular. Bruxa, mas tiremos o chapéu para ela.

A Gopro não percebeu nada, coitadinha.


‘a Gopro fechou seus ouvidos para todas as outras vozes e só
atendia aos comandos do seu amo e senhor, o frívolo alemão’


Passo seguinte: perante todos, a vilã anunciou ao grupo. Pessoal, achei uma forma de não precisarmos mais do amigo aqui para dar comandos.

Corta-me o coração lembrar. Ela soltou o som de seu celular e a pobre apaixonada fez “pi pi pi” e clique. Caiu feito uma patinha.

É preciso registrar o despeito do objeto da paixão. Riu sem graça, como se tivesse sido traído. Como se o amor que ele julgava verdadeiro fosse de fato um amor que não sobe a serra. Desiludiu-se. Disse que não falava mais com ela.

Ela encolheu suas asas de sonho e reduziu seu coração de ching-ling a fracas batidinhas. Perdeu o brilho. Viu-se nada mais do que um objeto, abandonada em seu puro amor que não via limites nem pedia muito. Prometeu que para sempre as imagens dele ficariam gravadas nela. Sabe-se que artifícios usará para não ser descarregada.

Assim chegou ao fim o caso de sedução explícito informatizado, robótico, testemunhado, que valeu para provar que o amor é coisa esquisita mesmo, que paira, dá choques e, estando no mundo desde que o mundo é mundo, ainda rende histórias para contar.

 

(*) Márcia Intrabartolo é jornalista,
escritora nata e amiga do coração


 

 

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