Silvia Pereira Pelegrina

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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Certas dores invisíveis

Dia desses li duas postagens em uma rede social homenageando um ex-chefe meu que faleceu. Foi, no mínimo, curioso notar como a visão carinhosa desses amigos sobre o falecido destoa diametralmente da que guardo dele. É que sofri, sob sua chefia, humilhações públicas no microcosmo de uma redação jornalística do interior de São Paulo – situações que hoje, à luz de novos aprendizados sobre os diferentes tipos de violência existentes, seriam caracterizadas como abusos ou assédios morais.

Eu os suportava sem contar muito com a solidariedade dos colegas de trabalho, nem mesmo das mulheres. É que naquele início dos anos 2000 não tínhamos acesso, como hoje, a informações que nos ensinassem a entender que aqueles abusos – que esse chefe só praticava contra subordinadas do sexo feminino – decorriam de misoginia e machismo. Portanto, deveríamos combatê-lo unidas, com sororidade.

Mas ficava cada uma por si, sobrevivendo ou tentando desviar dessas situações como podiam/sabiam: umas “puxando o saco” do chefe para não se tornarem alvos; outras tentando ficar invisíveis. Algumas me julgavam tacitamente por eu aguentar tudo sem revidar, como se as envergonhasse. Em poucas eu sentia uma compaixão silenciosa, feita de pequenos mas gratificantes gestos.

Com essas experiências aprendi que, quando se sofre abusos morais de alguém numa posição de poder, teme-se que qualquer movimento de defesa ou fuga gere um contra-ataque mais impiedoso ainda. No meu caso, não temia a demissão (aliás, rezava por ela), mas o dano que tal chefe pudesse fazer à minha carreira, sujando minha reputação como profissional, no metiê. Era um medo legítimo, já que, à época, a grande maioria dos empregadores nas redações do interior de São Paulo eram homens – muitos amigos pessoais desse chefe – para os quais seu “estilo de trabalho” não era nada demais. Ou, ao menos, não desabonava em nada seu caráter na visão de seus “brous” (pelo jeito ainda acham isso). Ou seja, minha dor era (é?) invisível!

A gente também sente como se não houvesse saída, porque o abusador parece intocável graças à omissão alheia e consequente impunidade garantida por seu meio, quase sempre contaminado pelo machismo estrutural. Por isso aprendi a não julgar nenhuma mulher por demorar ou nunca pedir ajuda ou denunciar seu abusador. Ela se sente aprisionada e isolada.

Quando, finalmente, tal chefe se cansou de mim e me demitiu (sob forte estresse, passei a cometer erros) chorei de alívio, mas também de medo do que ele pudesse dar como referências sobre meu trabalho. Quis desistir da profissão, mas não sabia fazer mais nada e aceitei um cargo para o qual uma amiga do peito (esta sim, solidária!) me indicou.

Soube, dias depois, que ele havia eleito uma nova vítima de suas perseguições. E seguiram-se outras. Soube também que uma delas o denunciou ao dono do jornal e foi solenemente ignorada – foi considerada despeitada por ter sido demitida. Prova disso é que o denunciado foi mantido na chefia por muito tempo ainda, sem ter sido alvo sequer de uma investigação interna. Como eu disse… intocável!

Não foi a primeira e nem última vez que sofri sob o jugo de chefes abusadores e não saí ilesa de nenhuma dessas experiências. Tive crises depressivas e desenvolvi Síndrome de Pânico que trato até hoje, passados 20 anos.

Mas não narro tudo isso para que tenham pena de mim. Tampouco para atacar a memória de um falecido (por isso oculto nomes). Minha intenção é mostrar o quanto a misoginia pode causar danos profundos e duradouros quando permanece impune nos ambientes de trabalho.

Por minha conta e risco, torno minha dor visível neste texto na esperança de que minha voz fale por todas as outras ainda na invisibilidade. E desejo, do fundo do coração, que não se sintam sozinhas hoje em dia.

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Empatia tem poder!

Olha, não ignoro que dou minha cara a tapa com este texto até pra quem me conhece e ama, pois certamente já me ouviu criticar mais de uma vez realities como o Big Brother Brasil (por glamourizar a banalidade e faturar com o que o ser humano mostra de mais mesquinho em seus momentos de vulnerabilidade, etc, etc). Mesmo assim, confesso: EU ASSISTI ao BBB21 até o mais “amado” fim! #prontofalei.

Até hoje, acreditava que havia sido uma das milhões de vítimas do “efeitopandemia”, que fez a gente se viciar em entretenimento barato no desespero de fugir à triste e crua realidade do país. Mas agora há pouco, desidratando de chorar com o documentário “Você Nunca Esteve Sozinha – o doc de Juliette” (Globoplay), entendi um pouco mais sobre minha “virada de casaca”: não foi exatamente ao BBB que me rendi (by the way, mantenho aquela primeira opinião sobre alguns aspectos do programa), mas ao fenômeno que atende pelo nome de Juliette Freire. Com sua empatia e fortaleza, ela ficou maior que o reality.

Comecei a acompanhar sua trajetória lá dentro atraída pela polêmica “Lucas Penteado x Carol Konká”, que ocupou a mídia em massa e mereceu crônicas sobre “cancelamento e assédio moral” até de nomes respeitáveis do jornalismo. Achei que seria coisa de um episódio só, apenas pra eu poder entender do que, afinal, todo mundo estava falando. Então, testemunhei Juliette sendo hostilizada gratuitamente e me condoí (empatia tem poder!). Aí quis assistir outro pra ver se ela conseguia “dar a volta por cima”… Depois outro, pra ver se ela voltava do “paredão”… quando vi, já estava procurando diariamente, nos meus sites de notícias preferidos, as seções “Famosos/Realities/BBB” pra ler como a imprensa estava tratando a participante.

Fui conquistada pela personalidade forte e ao mesmo tempo generosa da paraibana, capaz de se defender “muito bem, obrigada”, mas também de acolher e perdoar quem lhe agride. Admirei cada vez em que ela conseguiu sustentar, com didatismo e leveza, narrativas de sororidade, empatia e orgulho – não aquele orgulho ruim, nascido de egos inflados  ou feridos, mas de pertencimento, de quem abraça a própria identidade com firmeza, sem precisar, para isso, ofender a do outro – em meio à adversidade.

Virei “cacto” (como se intitulam os até então torcedores e hoje fãs de Juliette). E olhe que eu nem havia assistido a seus piores momentos dentro da casa mais vigiada do Brasil, ocorridos lá pelas primeiras semanas. Fui vê-los só hoje, no terceiro episódio do seu doc: ela sendo covardemente criticada e/ou ridicularizada, a maior parte dos ataques “em bando”, ela sozinha pra se defender. Ainda tentava o diálogo. Ainda forçava-se a entender que cicatriz ou dor fez tal pessoa agredi-la de determinada forma. E sempre conseguindo se impor sem vitimização – algumas vezes até de uma forma autoritária, porque… você sabe… é um fio tênue a separar a firmeza do autoritarismo e ninguém é perfeito o tempo todo, ou não viveria neste mundo.

Eu pensava: caramba, como ela consegue se manter em pé? Porque eu, com um décimo do que ela passou ali, teria me liquefeito em choros convulsivos, ido embora pra casa e me fechado em um quarto escuro por uns dez anos, cheia de vergonha por ter me mostrado tão vulnerável em público.

Daí que eu quis ser ela. O Brasil inteiro quis e este foi o verdadeiro fenômeno!

Em um período tão cheio de discursos de ódio e intolerância, a gente (finalmente!!!) quis se espelhar em alguém que sabe pregar a paz mesmo ferida, que exerce a amorosidade sem se deixar diminuir ou subjugar.

Não é pouco, senhoras e senhores. Na verdade, é muito! Principalmente no Brasil de hoje.

Além disso, o carisma de Juliette, aliado a seu jeito simples e espontâneo, faz a gente festejar suas conquistas como se fossem nossas – ou de um familiar muito querido. Por isso nem rola inveja: parece a gente lá (já disse que empatia tem poder?!).

Acho que eu e os mais de 31,5 milhões de cactos que a seguem no Instagram estávamos precisando lembrar (e/ou descobrir e/ou acreditar) que existe no mundo gente forte e generosa como Juliette e que não é tão diferente assim de nós. Isso é um alívio! Dá esperança.

Então, ‘bora lá passar da torcida pra reforma interior necessária pra gente também ser mais assim? Eu ‘tô na lida!

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Prece pra meus ídolos viverem pra sempre

A cada aniversário de Bethânia, Caetano, Gil, Chico Buarque ou qualquer um de meus “ídolos supremos” (tenho que rankeá-los por adjetivos, porque tenho muitos e em todas as artes) me vem sempre o mesmo desejo-pensamento-mega-egoísta: “tem gente que devia aniversariar pra sempre!”. Nunca morrer nem parar de fazer arte.

Porque, do contrário (aiaiai… não gosto nem, de pensar)… Imagine nunca mais ouvir uma nova música ou um  álbum inteiro, novinho em folha, na voz da Maria Bethânia!!! Sobe um frio pela minha espinha imaginar nunca mais assistir a um novo show ao vivo (mesmo que gravado) com sua interpretação magnética e arrebatadora! (Caetano, Gil e Chico idem, mas não foram eles a aniversariarem neste 18 de junho).

Descobri da pior forma o quanto dói isso de perder alguém com o poder de “salvar seu dia” (por vezes sua vida)” só com a sua arte: tinha 21 anos quando morreu Fred Mercury – pra mim a voz mais linda do rock de todos os tempos! (entre os vivos é a do Eddie Vedder). Fiquei muito triste na hora, mas não me descabelei. Só fui sentir luto pesado mesmo cerca de um ano depois, quando fazia mais uma maratona auditiva do Queen e caiu minha ficha de que nunca mais ouviria nada novo na voz dele. Cara… nem sei descrever o abismo que encarei com aquela ausência!

Quando se foram Renato Russo e Cassia Eller, eu já tinha a dimensão real do impacto de uma perda dessas pra quem tem música como religião – lembro exatamente onde estava quando recebi a notícia sobre a morte de ambos… a da Cássia até que cheiros senti na hora e de como, de repente, aquele início de noite agradável com meu amor numa mesa de pizzaria perdeu todo o sentido.

Até hoje, quando ouço alguma gravação da Cassia cantando, me vem esse luto reincidente: “aaaaai… nunca mais novas interpretações viscerais nessa voz passional, que rasga o ouvido e apura os sentidos…”. E aqueles agudos arrepiantes de barítono do Renato cantando poemas que falam tão pra dentro de mim… como não ter saudades doloridas?!?!

Scott Weiland (Stone Temple Pilots) e Chris Cornell (Soundgarten, etc) não estão em minha categoria de “supremos”, mas também sinto falta.

É tão sério pra mim isso de saudades artísticas que, a cada vez que um de meus ídolos aniversaria, faço uma prece de gratidão. Fiz uma hoje por Bethânia, logo que fui lembrada de seu aniversário no primeiro telejornal da manhã. Depois, pus no rádio do carro sua playlist pra tocar, começando por “Onde Estará o Meu Amor” e cantarolei junto com uma alegria de festa! Percorri o trânsito caótico entre minha casa e a de meus pais no clima que toda obra de arte arrebatadora causa em mim: uma sensação de plenitude e perfeição, como se tudo no mundo estivesse exatamente onde deveria estar.

E agora mesmo, vendo outra matéria sobre o aniversário de Bethânia no telejornal da noite,  atrevi-me a rezar outra prece – esta bem mais egoísta: “por favor, Deus, faça ela aniversariar pra sempre! (E também Caetano… e Gil… e Chico… e Marisa… e Nana… Zélia… Eddie… Zizi… McCartney… Herbert… e o parêntese não fecha, nem o texto acaba porque a lista não tem fim…

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No grupo ‘dasamiga’

Em um grupo de WhatsApp do qual participo com cinco amigas (todas vacinadas), uma delas convida (vamos chamá-la de AMIGA A) para um café ao ar livre, com o devido distanciamento social, para matar as saudades de um ano e meio sem nos vermos presencialmente. Segue-se, ao convite, o seguinte diálogo:

AMIGA B: Bom dia, meninas. Eu adoraria tomar café com vocês, mas, por segurança, não vou. O teste da covid em minha mãe deu positivo e eu estive perto dela. Ela passa bem, sem sintomas. Ainda bem que tomou a vacina. A nossa quarentena termina domingo. Obrigada pelo convite. Acho prudente não ir para a segurança de vocês. Saudades!

AMIGA C: Aqui em casa também estamos isolados até dia 16, porque o chefe do meu marido, com o qual ele se reuniu recentemente [após mais de um ano em home office], positivou covid.

AMIGA D: Bom dia. Também estou isolada porque tive contatos no atendimento 24 horas. Prefiro não arriscar. Um beijo.

AMIGA B: Um dia a gente se encontra sem medo. Até lá, meninas.

AMIGA E: Tá bom meninas. Um dia ainda seremos felizes.

Saliento que:

  • Aquelas entre nós que ainda têm trabalho (emprego nenhuma tem mais) mantêm-se em home office;

  • Antes e após termos sido vacinadas, mantivemos sempre o máximo de distanciamento social que conseguimos (sempre chega a hora em que temos de levar um dos pais idosos ao médico, ou comparecer ao Serviço de Saúde por conta de algum problema que a telemedicina não resolve, ou ter um contato profissional que não tem como fazer remotamente, etc, etc, etc…) e nos impomos auto isolamento sempre que suspeitamos de contaminação, em respeito às outras pessoas;

  • Mesmo com todos os cuidados, uma de nós já contraiu covid, junto com toda a sua família.

  • Perdemos a conta de quantos conhecidos de nossas relações tiveram covid, alguns dos quais faleceram;

Conclusão: mesmo pessoas que respeitam a ciência e observam ao máximo todos os cuidados de prevenção acabam “cercadas” pelo vírus, graças àqueles que continuam vivendo como se não existisse pandemia no Brasil.

GENOCÍDIO NUNCA É PRATICADO POR UMA PESSOA SÓ!

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Mãe de pais

Nunca fui mãe.
Não cheguei sequer a engravidar, portanto não conheço a sensação de receber um teste positivo, de ter meu corpo se transformando pra formar um novo ser e confesso que não invejo conhecer a famosa “mãe de todas as dores” (com o perdão do trocadilho) de parir uma criança de parto normal sem anestesia – Deus sabe que conheço muitas dores físicas incapacitantes e não sei se aguentaria uma pior!

No entanto, sempre tive o maior respeito por pais e mães. Respeito tanto que, apesar de sempre ter desejado filhos, não tive coragem de tentar engravidar quando finalmente pude escolher – antes faltava um pai, depois estabilidade financeira e depois tempo, mas o que realmente me impediu foi a covardia. É que cresci filha caçula em uma família de poucos recursos, com um pai que passava a semana fora para atender clientes em outras regiões num tempo em que telefones fixos eram luxo e celulares uma ficção. Então assisti muito de perto aos sacrifícios e dificuldades enfrentados por minha mãe para conciliar a criação das três filhas com o dinheirinho extra que precisava fazer olhando filhos de vizinhos e prestando serviços de manicure. Depois testemunhei a loucura que foi para minhas irmãs mais velhas conciliarem trabalho e maternidade.

Faltou coragem da minha parte, mas Deus achou um jeito de me fazer experimentar um simulacro de maternidade: mexeu seus pauzinhos para garantir que eu, entre as três irmãs, tivesse como cuidar mais de perto de meus pais quando minha mãe perdeu toda a mobilidade. Foi quando finalmente entendi a utilidade de ter sofrido um acidente grave de moto que me deixou quase um ano sem andar entre 2016 e 17 – recebi todo o amor e suporte de minha família na ocasião, mas mesmo assim senti na pele como é difícil depender fisicamente de outro ser humano.

Depender do outro implica muito além de vulnerabilidade física, mas também (e muito mais) vulnerabilidade emocional e psicológica; implica muita vergonha por se ter sempre companhia ao fazer necessidades fisiológicas; culpas – como, por exemplo, de sua bexiga funcionar tão bem que o cuidador fica com o sono picotado por ter de posicionar a comadre pra você mais de uma vez na madrugada; enfim, de precisar que outra pessoa refaça toda a sua rotina para conseguir estar presente na hora de lhe dar café da manhã, almoço, jantar e banho.

Qualquer semelhança com os tão alardeados clichês da maternidade  (“nunca mais dormi depois de virar mãe”) não é mera coincidência. A era de longevidade em que vivemos tem nos imposto uma parentalidade intensa de nossos pais, já que o progresso da ciência anda mais rápido do que a competência de nossos governantes em garantir suporte institucional para uma qualidade de vida na maturidade. Nossa família ainda teve sorte, pois pude abrir mão (não sem prejuízos) de trabalhos para cuidar de meus pais, mas e os filhos que não podem parar de trabalhar?

Mesmo os que podem nem sempre estão preparados física e psicologicamente para isso. E é preciso estar, pois pode apostar que há muita diferença entre trocar fraldas e dar banhos em um bebê e fazê-los em um adulto de 80 quilos, de quem você já dependeu e a quem deveu obediência a vida toda. Isso sem falar na pesada carga mental que é administrar agendas de consultas médicas, exames, remédios, contas de farmácia que só aumentam (aposentadoria que não) e ter sempre que ligar antes pra saber como é a acessibilidade daquele laboratório ou consultório onde é preciso levar sua mãe cadeirante – PASMEM! Alguns não têm sequer estacionamento pra desembarcar deficiente e outros nem elevador como alternativa à escada (aprendi da pior forma!), etc, etc, etc…

O que também aprendi com as experiências de cuidada e cuidadora é que, quando se está no papel de quem cuida, nada pode ser sobre você! Não interessa se você tem todo o seu tempo disponível ou se precisa “equilibrar pratos” para conciliar os cuidados a seu idoso com os de sua família nuclear, seu trabalho ou o que for: não pode deixá-los sentir que atrapalham um pouquinho que seja seus planos, pois já estão se sentindo um estorvo e incapazes o suficiente sem você reclamar. E se você acha que é difícil estar no papel de cuidador, não tem noção do quanto mais difícil é estar na posição do cuidado, posso garantir!

Ter estado neste lugar me fez entender que não se trata de teimosia, por exemplo, quando um idoso leva tombo teimando em tentar fazer coisas que seu corpo não suporta mais: é vergonha de depender! E os choros fáceis não são manha ou chantagem emocional, mas vulnerabilidade psicológica decorrente de não se reconhecer em seu próprio corpo. As irritações e os maus humores não são rabugices, mas pura manifestação de impotência. Sem falar do medo de que nada nunca mais volte a ser como antes – e no caso deles o mais provável é que não volte mesmo.

Confesso que precisei do acidente para aprender esta empatia, pois meu déficit de atenção sempre me fez muito voltada para dentro de mim, portanto desligada do outro (o que me rendeu uma vida inteira de problemas de sociabilidade, mas essa é outra história). Posso dizer que, atualmente, sou uma “egoísta em reconstrução”, porque ainda não me tornei a melhor “mãe” do mundo para meus pais. Uma mãe virginiana, hiper organizada e responsável, sim, mas que ainda perde a paciência às vezes (me desculpo cada vez mais rápido!). Ainda preciso me lembrar de não reclamar perto deles e, ao menos por enquanto, não sei como disfarçar o cansaço e as dores físicas. 

Mas outra coisa que também acabei de aprender na prática (e aí vem outro clichezão) é que “nenhuma mãe é perfeita”… e está tudo bem! O importante é ter pra nós mesmas a consciência de que demos o nosso melhor. Tenho sido “a melhor mãe que posso” pra meus pais e peço todos os dias a Deus: por favor, Senhor, que esteja sendo suficiente!

 

P. S. Toda a minha gratidão ao meu amado marido, Márcio, que foi o melhor cuidador que uma acidentada poderia ter e nunca deixou transparecer o quão difícil era!

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‘Bela Vingança’ não poupa ninguém

Já disse neste espaço que minha torcida para o Oscar 2021 de Melhores Filme e Diretor estava com a chinesa Chloe Zhao, que assina roteiro e direção do sensível “Nomadland” (EUA, 2020). Pois, aos 45 segundos do segundo tempo, minha torcida mudou para Emerald Fennell, de “Bela Vingança” (Young Promising Woman, EUA, 2020), e por motivos justificadíssimos.

Estreante nos papeis de roteirista e diretora, a também atriz Emerald fez um filme absolutamente necessário nestes tempos em que movimentos como o #MeeToo jogam no ventilador a impunidade dos crimes sexuais praticados contra a mulher.

Carey Mulligan está excepcional no papel da protagonista, Cassie

“Bela Vingança” vai além ao narrar a história de Cassie (Carey Mulligan excepcional!), a jovem promissora do título original – uma alusão ao fato dela já ter sido uma brilhante estudante de Medicina. Mostra que esse tipo de abuso ocorre muito mais do que nós, como sociedade, conseguimos enxergar – ou admitir – e não é cometido só pelo sociopata violento, que age em becos escuros ou domicílios invadidos.

Ao passar suas noites em bares a fingir-se de bêbada para flagrar homens prestes a se aproveitarem sexualmente de sua vulnerabilidade, Cassie demonstra que o abuso pode ser praticado pelo “cara legal” ao lado. Ou seja, basta a oportunidade se apresentar que, de dentro do vizinho respeitador, do crush de faculdade ou do “date” sedutor, pode emergir o estuprador em potencial, construído dentro deles por séculos de machismo estrutural.

Quando Cassie reencontra um colega de faculdade, agarra a chance de vingar-se do que a fez abandonar a promissora carreira universitária: o abuso cometido contra a amiga de infância, Nina, que acaba morrendo (supostamente por suicídio) após não conseguir acolhimento nem dos amigos, nem da faculdade e ainda ser culpabilizada pelo ocorrido – como se embriaguez constituísse uma licença para o estupro.

A genialidade de Fennell revela-se na forma didática e inacreditavelmente leve e bem-humorada com que narra essa história de vingança. Ela consegue construir uma justiceira que foge ao estereótipo da psicopata, que acaba sendo moralmente reprovada mesmo tendo se tornado uma devido a um trauma sofrido. Sua Cassie é uma vingadora “do bem”, pois não usa de violência, e se faz algum mal é só a si mesma.

Uma amostra genial de seu didatismo (e aqui entra um alerta de semi-spoiler) é a cena em que Cassie prepara o cenário de sua vingança final. Repare em algumas respostas que ela dá à presa da vez ante seus protestos contra avanços aparentemente sexuais… Há frases que as mulheres estão cansadas de ouvir em rituais de assédio, como a clássica “não farei nada que você não queira”.

Porque, SIM, TODAS NÓS já sofremos assédio alguma vez (ou muitas) na vida, em diferentes níveis, ambientes e condições de vulnerabilidade. Ou seja, é sistêmico mesmo, e tão naturalmente praticado que chegamos a legitimá-lo, como faz a reitora de faculdade (mais um alerta de spoiler) ao dizer que não podia estragar a vida de um jovem promissor porque uma garota decidiu se colocar numa posição “vulnerável”. Em outras palavras, entre a palavra do menino e da menina, e entre estragar a vida do jovem agressor e da jovem vítima, a mulher que lute!

Assim, “Bela Vingança” não poupa ninguém – nem as próprias mulheres – ao retratar como todos contribuímos para a cultura do estupro, não só quem o pratica, mas  também quem se omite em denunciá-lo ou puni-lo e até quem nem consegue enxergá-lo, tão entranhado ele está em nossos usos e costumes.

Por fim, destaco a ótima interpretação entregue pela jovem Carey Mulligan: econômica, mas exata, calcada mais na modulação de voz e no olhar. Mesmo concorrendo ao Oscar com veteranas já laureadas, como Viola Davis e  Frances MdDomand, não será nenhuma injustiça se ela vencer. Torcendo por ela!

 

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Inconsciente, mas ainda racismo

Sobre a repercussão do episódio de racismo estrutural ocorrido no reality show Big Brother Brasil (BBB), acho que, em vez de jogar pedras, devíamos ajudar as pessoas a enxergarem o próprio preconceito, pois só a partir disso elas vão se conscientizar de que devem mudar. Dito isso, segue minha contribuição neste caso específico:

Quando o participante Rodolfo disse que o cabelo de sua fantasia de “Homem das cavernas” parecia o do colega de confinamento João, foi como este se sentiu – e como entendeu que pessoas como o sertanejo o veem devido a seu cabelo crespo.

Como beleza é um conceito socialmente construído, o episódio mostra que o de Rodolfo está contaminado pela crença (racista sim!) de que cabelo de negro é sinônimo de feiura.

Até acredito que Rodolfo não tenha tido intenção de ofender, mas é esta (a inconsciência) a principal característica do racismo estrutural: está tão arraigado em nosso comportamento e em nossas crenças que não o enxergamos.

Pra enxergar, é preciso, como a outra BBB Camila muito propriamente pontuou, APRENDER, e só se faz isso colocando-se no lugar das vítimas. No caso do Rodolfo, significaria sair do ponto de vista do próprio umbigo (de onde ele só enxerga que não houve intenção de ofender) pra perguntar por que o João se sentiu ofendido.

O João já deu uma pista quando disse que não é porque tem esse cabelo que é um homem das cavernas (uma figura pejorativamente associada à feiura e à brutalidade).

Quando  Rodolfo finalmente enxergar que a comparação fez João sentir-se feio e brutal, deve ir mais fundo na reflexão e SE PERGUNTAR por que uma fantasia de monstro o fez, impulsivamente, compará-la ao João. A resposta sincera a este auto questionamento é que levará ao aprendizado de Rodolfo sobre seu racismo inconsciente.

Espero ter contribuído.

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‘Nomadland’ é sobre liberdade e desapego

Eu nunca havia ouvido falar de Chloé Zhao até ela faturar o Globo de Ouro 2021 de Melhor Direção, mas esta chinesa de 38 anos acaba de se tornar minha mais nova diretora de cinema favorita. É que acabo de assistir a “Nomadland”, que Zhao roteirizou, dirigiu e editou, inspirada no livro homônimo da jornalista norte-americana Jessica Bruder, e ainda estou sob o enlevo de sua atmosfera cool e delicada.

Frances McDormand com a diretora Chloé Zhao no set de ‘Nomadland’

Não é um filme para todos, porém, já aviso. Muito menos para o espectador desacostumado a um andamento mais lento (não confundir com arrastado) da narrativa, que neste filme resulta mais visual do que textual – sim, os diálogos são econômicos e só aparentemente banais.

Porque banal é tudo o que “Nomadland” não é, com sua forma muito feminina e emblemática de contar a história de Fern, viúva que após perder emprego e casa devido à falência da maior empregadora de sua cidade, passa a morar numa Van e a viver de empregos temporários. Instigada por uma amiga, Fern experimenta a vida nômade a que muitos norte-americanos são levados pela crise econômica.

A sinopse pode soar algo depressiva para nós, comuns mortais a levarem vidas quadradinhas, mas este seria outro engano. Apesar de ter a crise financeira de 2008 nos EUA como pano de fundo, “Nomadland” não é sobre pobreza; seus personagens estão sempre se despedindo, mas não é sobre perdas; e sua protagonista vive sozinha, mas não é solitária.

“Nomadland” é, sobretudo, sobre liberdade, desapego e estar desperto no momento presente, enxergando as belezas do mundo que nos passam despercebidas quando estamos ocupados demais com nossas ansiedades cotidianas.

Pra provar isso, destaco dois emocionantes mini-monólogos em que as personagens Swankie (idosa que decide passar o tempo que lhe resta de vida viajando em meio à natureza) e Bob (militante que cria uma rede de apoio para os trabalhadores nômades) dão a Fern verdadeiros testemunhos desse olhar livre e desperto. – vocês vão ter que assistir ao filme para conferi-los.

No mais, tenho a dizer que a veterana Frances McDormand segue uma atriz espetacular, que prescinde de caras e bocas para entregar uma interpretação brilhante. Sua Fern equilibra firmeza e doçura, altivez e vulnerabilidade. O resultado é adorável e muito humano.

Grande atriz! Belo filme! Puta diretora!

I’ll see you down the road, Zhao”.

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‘Bridgerton’: siga direto para a série da TV!

Bridgerton”, série de época que estreou em dezembro na plataforma de streaming Netflix, é um caso raro de adaptação dramatúrgica que resulta melhor que a obra literária na qual foi inspirada. Tão raro que em minha experiência como cinéfila só conheci outro similar: o da trilogia cinematográfica “O Senhor dos Anéis”, assinada pelo diretor Peter Jackson – não me entendam mal: a obra literária de J. R. R. Tolkien é um clássico de valor, mas seu texto não conquista muito além de seu público-alvo (o infantil), ao contrário, por exemplo, da série “Harry Potter”, que alveja o infanto-juvenil, mas acerta em todas as faixas etárias, graças à escrita espirituosa e à trama engenhosa e repleta de referências filosóficas da autora J. K. Rowling.

A família Bridgerton, que dá nome à série

Mas, voltando à produção original da Netflix, “Bridgerton” empresta dos melhores clássicos da autora inglesa Jane Austen os cenários (Inglaterra do século 19) e os argumentos (intrigas na alta sociedade) para narrar um romance entre uma jovem aristocrata em idade de casar e um solteirão convicto. Ele nasce de uma farsa que a virginal Daphne e o amargo duque de Hastings combinam de interpretar – consiste em fingirem-se apaixonados um pelo outro, ele para livrar-se do assédio de mães casamenteiras, ela para atrair o interesse de melhores partidos como potenciais maridos.

Obra literária

Ter maratonado a série durante os feriados do final de ano me deu coragem para finalmente ler Julia Quinn, autora contemporânea que escreve romances de época – eu vinha evitando a experiência com receio de macular minha já antiga devoção à literatura inglesa da era vitoriana, iniciada com a leitura de Jane Austen (sobre cuja obra já me derramei em mais de um texto neste blog) e alimentada com as de outras contemporâneas dela, como Elisabeth Gaskell (“Norte e Sul”, “Cranford”, “Esposas e Filhas”), Flora Thompson (“Lark Rise e Candleford”) e as irmãs Brontë – Anne (“A Inquilina de Wildfell Hall”), Emily (“O Morro dos Ventos Uivantes”) e Charlotte (“Jane Eyre”).

Capa da edição brasileira do livro ‘O Duque e Eu’

Infelizmente, meu receio resultou totalmente fundado, motivo pelo qual dou este conselho gratuito a fãs de literatura de época como eu: “sigam direto para a série da telinha”, pois foi uma tortura ler até o fim ao livro “O Duque e Eu” – primeiro da série literária – mesmo tendo pulado inúmeras partes enfadonhas e rezado o tempo todo pra trama melhorar em algum ponto.

Passei a considerar um elogio imerecido uma crítica rotular a obra de Quinn como “romances de Jane Austen com sexo”, pois seus textos teriam que melhorar muito (mas muito meeesmo!!!) para chegarem só aos pés da rica, inteligente e espirituosa prosa austeniana. São tão pobres quanto suas tramas, lembrando muito os daqueles romancinhos eróticos das séries “Júlia” e “Sabrina”, que as adolescentes da década de 1980 compravam em bancas de jornal (e foram, para minha geração, o equivalente feminino às revistas pornô dos meninos).

Talvez por isso a obra de Julia Quinn tenha se tornado best-seller (“Julia” e “Sabrina” também vendiam como água): é literatura de massa, de fácil consumo e rápido esquecimento.

Estratégia genial!

Certamente com a intenção de aproveitar o apelo popular da série literária, a Netflix confiou à produtora Shondaland – da premiada autora Shonda Rhimes (criadora de “Grey’s Anatomy” e “Scandal”, por exemplo) – a tarefa de adaptar “Bridgerton” para as telas. Para enriquecer a narrativa, porém, foi preciso misturar na mesma trama vários livros de Quinn, enxugar as “gordurinhas” dos textos e enriquecer – em muito! – a qualidade dos diálogos.

A reengenharia dramatúrgica não torna a série, assim, uma obra-prima, mas entrega um produto decente dentro da proposta a que se destina: escapismo pela via da comédia romântica (vamos combinar que todos precisamos de uma dose desse gênero de vez em quando).

Meu aplauso especial vai para a bandeira da diversidade que a produção levanta, e não só através do roteiro, que, ao contrário do original literário, mostra relação homossexual sem julgamentos e joga luzes favoráveis sobre personagens femininas que na sociedade da época seriam consideradas “párias sociais” – a modista que não se envergonha da própria liberdade sexual; a cantora de ópera que recusa a oferta do amante de ser introduzida na alta sociedade; e uma filha de família aristocrática que fuma escondido e sonha fazer muito mais de sua vida do que só se casar e ter filhos.

A estratégia mais ousada de todas, porém, está na escalação do elenco, multirracial, no qual se destacam atores negros em papeis de importância similar aos dos brancos (não só como serviçais), o que até contraria as descrições físicas feitas de alguns personagens nos livros de Quinn. Por exemplo, o personagem Simon Basset é descrito em “O Duque e Eu” como branco, de cabelos negros e olhos azuis claríssimos, mas é vivido na série pelo ator negro Regé-Jean Page, de cabelo afro e olhos castanhos escuríssimos. Ele forma, aliás, um lindo par romântico com a alvíssima atriz britânica Phoebe Dynevo, que interpreta Daphne.

Sobra diversidade até para a realeza britânica: o próprio rei George III é casado com uma rainha Carlota negra, que tem damas de companhia até asiáticas.

O melhor é que a trama não fornece explicações (nem desculpas) para esta recriação da realidade, o que considero uma estratégia genial de combate ao racismo estrutural – provavelmente elaborada por Shonda Rhimes, ela mesma uma autora negra vencendo em uma indústria cultural formada majoritariamente por brancos. Afinal, os produtos dramatúrgicos contribuem com uma significativa parcela de estereótipos na formação das crenças em uma sociedade. Então, o que pode ser mais eficiente para combater as racistas do que uma obra que retrate uma alta sociedade multirracial e equânime como algo perfeitamente natural?

De quebra, essa estratégia ainda cumpre um dos nobres objetivos de toda obra artística, que é provocar o espectador, “acordá-lo” – neste caso para seu próprio racismo inconsciente (todos temos em algum grau, com ou sem intenção). Por exemplo, se você se sentiu incomodado com a liberdade que a série se deu de colocar personagens negros em pé de igualdade com os brancos em plena sociedade inglesa vitoriana, saiba que é um sintoma inequívoco de racismo estrutural. E argumentar que o incômodo se deveu só a desconexão com a realidade ou à imprecisão histórica, não vale, porque você também teria que se sentir incomodado por assistir a atores norte-americanos interpretando, em inglês, quaisquer outras histórias de países e povos diferentes. Ou seja, se precisão histórica ou conexão com a realidade fossem tão importantes para você em uma obra dramatúrgica, lhe incomodaria na mesma proporção assistir a adaptações de histórias bíblicas faladas em quaisquer outros idiomas que não o hebraico, o aramaico e o latim, por exemplo.

Enfim, só por essa (genial) estratégia, mesmo que a série “Bridgerton” não fosse muito melhor que seu original literário, eu já a aplaudiria de pé.

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‘O Céu da Meia-Noite’: ficção científica intimista

Desde que me sentei em frente ao computador, há cerca de 20 minutos (e contando…), tento encontrar uma forma de escrever sobre o filme “O Céu da Meia-Noite” (The Midnight Sky, EUA, 2020) sem cometer spoiler. Minha escrita só destravou com a auto promessa de entregar o mínimo indispensável das surpresas do roteiro em favor de compartilhar minhas impressões sobre esta “ficção científica intimista” (já o disse a crítica especializada), dirigida e protagonizada por George Clooney.

Como o cientista Augustine Lofthouse, Clooney encara seus espelhos ao inventariar lembranças no isolamento do Ártico

Começo reafirmando minha já antiga admiração por este ator e diretor, que segue demonstrando, com suas escolhas profissionais, extrema sensibilidade, inteligência e humanidade. Exceção feita a “Caçadores de Obras Primas”, de 2014 (que considero chatíssimo!), todas as suas demais incursões pela direção de longas resultaram em filmes de roteiros bem amarrados – a maioria dos quais ele também assinou – e com mensagens de importância política, humana ou histórica.

Neste “O Céu da Meia-Noite”, ao contrário de “Suburbicon: Bem-vindos ao Paraíso” (2017), “Tudo pelo Poder” (2011) e “Boa noite e Boa Sorte” (2005) e a exemplo de “Confissões de uma Mente Perigosa” (2002), Clooney assina apenas a direção – entregou o trabalho de roteirizar a história do livro “Good Morning, Midnight”, de Lily Brooks-Dalton, a Mark L. Smith, de “O Regresso” (Oscar de atuação a Leonardo DiCaprio).

A história se passa no ano de 2049. O cenário inicial é uma estação da Nasa no polo Ártico, que está sendo evacuada. O motivo nós começamos a entender no primeiro dos escassos diálogos do filme, em que seu personagem, Augustine Lofthouse, diz a um interlocutor preocupado com sua saúde que, se quisesse morrer rapidamente, embarcaria com os evacuados. É a primeira de várias indicações não explícitas (já disse que adoro roteiros que não subestimam a atenção do espectador?) de que uma catástrofe mundial está para ocorrer, que ele está doente e decide, de livre e espontânea vontade, ficar para trás.

Felicity Jones contempla Saturno do satélite K-23 em ‘O Céu da Meia-Noite’

Augustine aproveita o isolamento para, por meio de flashbacks de memória, inventariar seu passado e suas escolhas de vida – cientista aclamado, priorizou o trabalho em detrimento dos afetos pessoais. Seu principal projeto profissional, monitorado pela estação, é a missão espacial Aether ao fictício planeta K-23, que teve como objetivo confirmar se este satélite de Saturno reúne condições de ser habitado pela raça humana, que já esgotava os últimos recursos da Terra – motivo presumido da hecatombe. Sua tripulação, formada por cinco astronautas, ignora estar voltando para uma Terra já inabitável na superfície.

Augustine decide fazer o possível para avisá-los, até deixar a segurança da estação super equipada em busca de outra meteorológica, com uma antena mais potente, capaz de estabelecer comunicação com a Aether. Antes, porém, ele descobre que não foi o único deixado para trás na estação. Esta segunda presença catalisará as lembranças que o cientista parece querer purgar em sua jornada pelo Ártico hostil. É o que confere o verdadeiro clima do filme, que resulta mais em um drama intimista do que numa ficção científica típica, embora também conte com cenas espaciais de tirar o fôlego – de susto e de enlevo.

Sobre o desfecho, para evitar spoilers, direi apenas que entendi ser sobre redenção e segundas chances, em nível individual e coletivo. No individual, para Augustine, que alcança ambas de uma forma linda! No coletivo, para a raça humana, que sempre encontra uma “terra prometida” na qual se refugiar mesmo quando provoca sua própria expulsão do “paraíso”.

Gosto de pensar que a escolha por contar mais esta história é uma forma de Clooney demonstrar sua crença no que nós, cristãos, entendemos como misericórdia divina, mas que também pode ser chamada de justiça poética.

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