Categoria: CINÉLIDE

Blog de cinema e séries da jornalista Silvia Pereira.

‘O Casamento de Rachel’: de perto nenhuma família é normal

Anne Hathaway e Rosemary DeWitt interpretam irmãs no drama ‘O Casamento de Rachel’

Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira“.
Leon Tolstói, in ‘Anna Karenina’

 

Volta e meia o cinema coloca à prova as frases acima, convidando o espectador a adentrar a intimidade de famílias exemplares na aparência, mas disfuncionais nos bastidores. Esta modalidade de enredo ganhou um representante fora da curva em “O Casamento de Rachel”, produção de um grande estúdio filmada com pegada de independente pelo diretor Jonathan Demme (“O Silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia”).

O drama rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz da carreira de Anne Hathaway (“O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”), que mereceu! Ela está de arrasar no papel de Kimmy, dependente química que recebe autorização da clínica de reabilitação na qual se trata – não pela primeira vez – para comparecer ao casamento da mais velha, Rachel. A condição é que se submeta a testes de urina antes e depois do evento e freqüente reuniões diárias do Narcóticos Anônimos pelo tempo que precisar se ausentar.

Nos poucos dias entre o jantar de ensaio do casamento e a cerimônia oficial, assistimos à família tentar dar um aspecto de normalidade às relações com a caçula problemática, que tenta fazer “remendos” aqui e ali. Mas há muitas feridas abertas em cada um por episódios traumáticos causados por seu vício. Antigos ressentimentos com os quais todos evitavam lidar vêm à tona, revelando, inclusive, que todos têm sua parcela de responsabilidade em cada drama familiar.

A câmera de Demme acompanha as ações e reações de cada personagem muito de perto, dando, às vezes, um clima de documentário à produção. Em outras de um filme caseiro de evento familiar. Em todos os casos, temos a incômoda impressão de estarmos olhando para o que não deveríamos, por um buraco da fechadura. Talvez até tenha sido esta a intenção do diretor ao filmar de uma forma tão intimista: fazer com que nos sintamos intrusos em cenas que são da conta apenas daquela família.

Ao final, nem todos os ressentimentos são resolvidos e ou todas as culpas perdoadas, mas a mensagem que fica é a de que, por mais forte  os dissabores e decepções, o amor tem o poder de manter unidos entes que nem sempre conseguem conviver juntos sem se machucarem.

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O holocausto pelos olhos de uma criança

Chamem de inconsciente coletivo do cinema ou simplesmente oportunismo a atual a onda de filmes que busca rever o nazismo de pontos de vistas de protagonistas incautos, como “Um homem bom”, por exemplo – que mostra a perspectiva de um cidadão de bem seduzido pelo regime do fuher -, e “O menino do pijama listrado”, que assisti recentemente.

Neste último, a perspectiva é a de um garoto de oito anos de idade, que curte feliz a alienação da infância em um bairro nobre de Berlim. Quando seu pai – um militar do qual ele muito se orgulha – é promovido, a família toda se muda para uma região rural. Ali está instalado nada menos que um dos campos de concentração do nazismo, que será gerenciado pelo pai.

Seu contato com uma realidade até então impensável para sua família perfeita se dará através de uma cerca, à margem da qual ele passa a encontrar, todos os dias, um menino mais ou menos de sua idade que, a exemplo dos demais habitantes daquela estranha “fazenda”, só veste pijamas.

Aos poucos ele descobre que os “fazendeiros” não estão ali por escolha, mas como punição por serem judeus, delito cuja gravidade ele jamais entenderá a extensão.

Como em “A Culpa é do Fidel”, o tempo todo o ponto de vista que prevalece é o da criança. Nós, espectadores, sabemos o que cada pista que o menino pesca da realidade à sua volta significa, mas somos forçados a acompanhar pacientemente suas descobertas, o que acaba sendo instrutivo (qualquer novo ângulo de um mesmo problema é revelador).

O desfecho é dramático, como é de se esperar em qualquer filme que toque, ainda que superficialmente, o tema do holocausto.

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Cinema ocidental e cultura indiana: paquera antiga

Já havia citado em minha postagem sobre o ótimo “Quem quer ser um milionário” que o encontro entre Bollywood (o cinema de entretenimento indiano) e o cinema ocidental não é tão novidade assim. Para provar, relaciono abaixo quatro filmes nos quais a “paquera” entre a cultura indiana e o cinema ocidental resultaram em ótimo entretenimento (em minha opinião, claro).

“Driblando o destino”, de 2003, tem produção e atores ingleses, mas o roteiro e a direção são assinados por indianos – ou descendentes deles. Sua maior curiosidade é trazer três atores à época ainda pouco festejados, mas que se tornariam, em poucos anos, verdadeiros “queridinhos da indústria”: Keyra Knightley – ainda na puberdade, aparece aqui de aparelhos nos dentes em um papel secundário; Pasminder Nagra, que viria a interpretar a médica Neela Rasgotra do seriado E.R. (“Plantão Médico” no Brasil); e Jonathan Rhys Meyers (de “Ponto Final – Match Point” e “O Som do Coração”) que à época nem sonhava em ser escalado como protagonista em um filme de Woody Allen.

No filme, a personagem principal é a adolescente Jesminder, filha de uma família indiana radicada em Londres que faz questão de seguir, em seu pequeno e fechado círculo social, os mesmos costumes tradicionais do país natal. Isso tem um custo alto para as filhas, divididas entre a obediência aos pais e a atração exercida pelos costumes mais liberais do país em que cresceram.

Jane Austen na Índia

No ano seguinte, a mesma diretora de “Driblando o destino”, Gurinder Chadha, assinaria uma adaptação “bollywoodiana” do clássico de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”. Sob o título de “A Noiva e o Preconceito”, a co-produção anglo-americana resultou em um misto DIVERTIDÍSSIMO de comédia romântica e musical.

A história, quem curte Jane Austen -o u todas as adaptações cinematográficas já feitas de seus livros – já conhece bem: dois amigos ricos chegam à cidade e viram alvo de uma mãe ávida para casar algumas das suas quatro filhas solteiras. No caso de “A Noiva e o Preconceito”, a cidade é Nova Delhi, capital da Índia, e os amigos dois advogados – um americano e o outro indiano em férias no país natal .

A atriz indiana Aishwarya Raí foi descoberta pelo cinema ocidental neste filme e voltou a protagonizar outra produção anglo-americana com um pé na Índia no ano seguinte: “O Sabor da Magia” (“The Mistress of Spieces”), em que Gurinder Chadha assina a coprodução. A direção ficou a cargo do desconhecido Paul Mayeda Berges. Neste romance Aishwarya interpreta Tilo, dona de uma loja de especiarias em São Francisco (EUA) que possui o dom mágico de transformar seus ingredientes em poções para curar as pessoas. Porém, ela só mantém o dom se mantiver-se fiel às regras sagradas de nunca provar alguma de suas receitas ou se apaixonar, o que, claro, vai acontecer!

A força das raízes

“Nome de família”, da indiana Mira Nair, é o único drama desta lista. Sensível, mostra o esforli de um casal indiano para se adaptar aos Estados Unidos sem abrir mão de sua identidade indiana. Em sua segunda parte, o filme enfoca a segunda geração pelos olhos do filho mais velho, Gogol. Sentindo-se mais americano do que indiano, o jovem tenta encontrar a própria identidade enquanto lida com as tradições de sua família e toda a influência externa da cultura americana.

O que todos esses filmes têm em comum, além de uma pequena amostra dos costumes e cultura indianos, é um modo de filmar bem diferente do modelo hollywoodiano. As histórias são leves, o ritmo mais lento, porém nem um pouco enfadonho, o que para mim foi um convite à contemplação.

Para os momentos que só precisamos sair um pouco da realidade .

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Palavras como lâminas: a dramaturgia de Tennessee Williams

Tennessee Williams em 1956

Logo nos primeiros 10 minutos do filme “Gata em Teto de Zinco Quente” (Cat on a Hot Tin Roof, EUA, 1958) o espectador  recebe, com um primor de concisão e densidade dramatúrgica, as principais informações sobre os personagens: que o principal é um alcoólatra, seu irmão um tolo, a cunhada uma interesseira, a esposa linda, mas desprezada … e todos – menos ele – estão de olho na herança do patriarca doente.

Não quis dar spoiler, mas uma amostra do grande talento com que o dramaturgo norte-americano Tennessee Williams – que assina a peça roteirizada para este filme de Richard Brooks – tece histórias fortes com muito poucos recursos cênicos, em tomadas alicerçadas principalmente em diálogos robustos, carregados de significados. São traços de sua verve de bem-sucedido autor teatral (escreveu mais de 30 peças ao longo da carreira).

A dramaturgia de Williams é tão forte que, mesmo quando suas peças viram filmes com roteiro adaptado por outras pessoas, sua assinatura pode ser percebida no estilo da narrativa e dos diálogos. Costumo dizer que ele usa as palavras como lâminas cortando os interlocutores, despindo-os de suas máscaras  de normalidade para mostrar angústias, medos, desejos, culpas e pecados. Também ajudam a revelar o contorno psicológico que o autor desenha meticulosamente para cada um.

No sentido horário, ‘Gata em Teto de Zinco Quente’, ‘De Repente no Último Verão’, ‘Esta Mulher é Proibida’ e ‘Uma Rua Chamada Pecado’

É verdade que só “feras” pegaram a direção de filmes com histórias de Williams, como os mestres John Huston (“Noite do Iguana”), Elia Kazan (“Boneca de Carne” e “Uma Rua Chamada Pecado”) e Joseph L. Mankiewicz (“De Repente, no Último Verão”), além dos ótimos Sidney Pollack (“Esta Mulher é Proibida”), George Hoy Hill (“Contramarcha Nupcial”) e Brooks (além de “Gata em teto…”, “Doce Pássaro da Juventude”), entre outros. Mesmo assim, para mim, não deixam de ser todos “filmes de Tennessee Williams”.

O dramaturgo também roteirizou muitas de suas peças para a tela grande, a maioria em parceria com outros roteiristas mais afeitos à linguagem cinematográfica. As mais famosas são a já citada “Gata em Teto de Zinco Quente” e “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar Named Desire, EUA, 1951), que imortalizou as atuações memoráveis de Vivien Leight (a Scarlett O’Hara de “E o Vento Levou”) e Marlon Brando.

Um jeito de dizer claramente sem dizer de fato

Outra característica que considero genial na obra deste escritor é sua habilidade em abordar tabus sexuais de forma subliminar, numa época em que a sociedade consumidora de dramaturgia ainda era muito pudica e a censura rígida quanto aos chamados “moral e bons costumes”. Era preciso prestar muita atenção a certas metáforas inseridas nos diálogos e também nas construções sugestivas de algumas cenas para “enxergar” as situações que envolviam sexo.

Graças a este modo de dizer claramente, sem dizer de fato, os mais ingênuos simplesmente não entendiam a totalidade do que era exposto, mas o pouco que entendiam era o bastante para não perderem o impacto da história. Por exemplo: na primeira vez que assisti a “Uma Rua Chamada Pecado”, muito jovem ainda, na cena mais forte do filme só entendi que Leigh e Brando se enfrentaram numa cena em que ela saiu subjugada. Só na segunda vez que o vi, mais velha e amadurecida, compreendi como: houve um estupro ali. Também só entendi da segunda vez que Blanche era ninfomaníaca (uns pedaços de diálogos dela aqui, uma tentativa de sedução de um jovem acolá são as evidências). O filme, aliás, é todo sobre desejo e suas implicações, como o nome original (Um bonde chamado desejo) sugere. Consideradas as minhas perspectivas em cada ocasião, a importância da cena mais forte foi assimilada por mim em ambas as vezes, e saber ou não sobre a compulsão sexual de Blanche não diminuiu a força da história em nenhuma delas.

Katherine Hepburn e Elisabeth Taylor em ‘De Repente, no Último Verão’

A leitora Carmen Cagno também lembra, muito acertadamente, a sutileza com que é dada a entender a homossexualidade do protagonista em “Gata em Teto de Zinco Quente”.

E um último exemplo: em “De Repente, no Último Verão” (Suddenly Last Summer, EUA, 1959), Katherine Hepburn (divina, como sempre) acaba de perder o filho adulto, Sebastian, e entrega a sobrinha com tendências suicidas (Elisabeth Taylor) aos cuidados do psiquiatra Montgomery Clift, confiando que ele a tratará com lobotomia. Quando o psiquiatra inicia uma terapia com a paciente, porém, médico e espectador vão descobrindo juntos que, de todos os segredos escondidos na história daquela família, os da instável sobrinha não são os mais escandalosos. Uma das cenas mais fortes do filme consegue passar ao espectador toda a selvageria de um episódio de homofobia sem mostrar a violência de fato.

Crítico do establishment

Outro traço da dramaturgia de Williams é a crítica ácida e impiedosa à ordem estabelecida na sociedade norte-americana, com sua ideologia dominante impregnada de alienação e individualismo. É verdade que o conjunto de sua obra descreve mais a cultura sulista dos EUA, já que ele era daquela região (nascido no Mississipi, viveu também no Missouri), mas Williams consegue colocar todo o pensamento estadunidense nos microscosmos de suas peças.

Sinto falta, na dramaturgia cinematográfica de hoje, desse sotaque teatral nos roteiros, de histórias que não subestimem nossa capacidade de dedução e raciocínio e de roteiristas que não tenham medo de criar diálogos robustos e cheios de camadas. Mas, infelizmente, Tennesse Williams só existiu um!

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CINÉLIDE: porque gosto de boas histórias

O CINÉLIDE nasceu como um blog de cinema, em 2008. Ficou hospedado no portal do jornal em que eu trabalhava, em Araraquara, até 2012, quando migrou junto comigo para o ACidade ON, de Ribeirão Preto. Em setembro de 2018, passa a ser uma seção no Palavreira.

As mudanças de endereço não mudaram o perfil do CINÉLIDE e nem sua razão de existir: compartilhar meus pontos de vista sobre filmes e séries.

O motivo é simples: adoro histórias bem contadas! Se vêm com suporte audiovisual, melhor ainda.

Mas não esperem textos herméticos, pois não me encaixo numa elite cinéfila que assiste à tudo com a lente do crítico de arte. Realizo-me completamente como público e é como tal que escrevo, porque minha relação com as obras dramatúrgicas é mais emocional do que racional.

É verdade que, por assistir muita coisa, o nível de exigência sobe. Passa-se a reconhecer as mesmas fórmulas em diferentes filmes, enjoa-se delas e começa-se a buscar incessantemente por uma história que nos surpreenda…

Se você pensou em um viciado eternamente à procura da sensação da primeira dose da droga, passou bem perto. A diferença é que  acabo encontrando – a cada 30, 40, 50 histórias que devoro – aquela que arrebata. Aí… a excitação é tanta que quero dividir com o mundo.

CINÉLIDE registra minhas melhores descobertas.

Mas quero companhia nesta busca. Por isso, sinta-se super à vontade para dar dicas, comentar e criticar toda e qualquer postagem.

Sem sua participação, esta jornada não tem razão de ser.

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