Categoria: COLABORAÇÕES

Textos de cronistas convidados do blog.

Pelas janelas do Zoom

De todas as estantes, a da Ana Maria até agora é a mais desejada. Claro, teve a do Caetano Veloso, mas estou falando das pessoas-pessoas, como eu, que fazem reuniões e cursos virtuais e ficam bisbilhotando as casas alheias. Mais do que as salas (ganhou a sala de frente pro mar da Betina), cozinhas (os azulejos coloridos da Aparecida, com um pinguim em cima da geladeira amarela), quartos (o da Luiza que tem o tamanho da minha sala) – e outro dia teve uma mulher-mãe-profissional-desesperada-em-pandemia (o que é praticamente um pleonasmo) que se trancou no guarda-roupas para fazer uma reunião -, eu fico de olho mesmo é nas estantes. Está certo que, devo confessar, eu estava era de olho no gato na varanda do vizinho da Laura, que sem ela perceber também aparecia no vídeo. O gato se espreguiçava sob o sol fraco em um céu azul claro, sem nem imaginar que eu parei de prestar atenção na aula para observá-lo. Até que o vizinho veio, a Laura de costas para eles, e tirou o gato da varanda. Quase abri meu microfone para pedir para a Laura gritar para o vizinho deixar o gatinho ali sossegado. “Em que maluca estou me transformando?”, pensei e voltei para a aula. Até reparar no lustre da sala da Maria Cristina, mais parecido com uma escultura de aço retorcido com luzes amarelas escapando pelas curvas. E se eu mandasse uma mensagem privada para a Maria Cristina, que eu na verdade só conheço pela tela, e perguntasse onde ela tinha encontrado aquele lustre maravilhoso? Voltei para a aula, “presta atenção!”, triste com minha luminária. Foco, foco, foco! Foi aí que a Ana Maria abriu a câmera e estragou tudo. Estantes, estantes, estantes de madeira nem tão clara nem tão escura repletas de livros, luz indireta, amarelinha, quentinha, quase um cobertor em dias de inverno, uma poltrona de couro onde eu poderia não só passar horas sentada ou deitada lendo, mas também dormir. Ana Maria, eu poderia morar na sua biblioteca! Eu queria escrever para ela, em uma mensagem privada, mas a Ana Maria não tinha ideia da minha existência. Tentei dar zoom na tela para conseguir ler os títulos nas estantes, mas esse não era um recurso possível. Tantas foram as vezes que quase plantei bananeira (se eu soubesse teria plantado) no metrô para tentar ler o título do livro que uma pessoa lia com tanta atenção. Quase segui uma mulher uma vez, de tanto que ela não tirava os olhos das páginas. Poderia perguntar que livro era? Sim, mas e a graça da investigação com a alegria da descoberta, como fica? Uma vez foi na praça. Um homem, sentado em um banco, com um livro que eu tinha acabado de ler nas mãos. “Eu amei esse livro!”, gritei para ele, que fechou o livro, sorriu de leve, bem de leve mesmo, e levantou. Antes que eu me aproximasse mais. Fiquei pensando em tudo isso, saudosa do metrô e das praças e das ruas e do contato com estranhos, enquanto tentava descobrir os livros nas estantes da Ana Maria, que para piorar ainda mais a minha situação, se serviu de um chá em uma xícara branca de porcelana pintada com flores azuis. Tudo tão lindo na biblioteca da Ana Maria!… Quero ser amiga dela. Sou inofensiva, juro.

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O espaço literário… a coisa mais próxima da vida

Morreste-me. Fazes-me falta. Copo vazio. Um copo de cólera. A morte e o meteoro. Fahrenheit 451. O jardim de cimento. Flores artificiais. As brasas. Vidas secas. O que fazer quando tudo arde? Amor. Guerra e Paz. Festa no covil. Festa do Bode. A festa da insignificância. Viver. A insustentável leveza do ser. Sete anos. Cem anos de solidão. Formas de voltar para casa. Um ano depois.  Certeza do agora. Mulheres de cinzas. Mulheres que correm com os lobos. Mulherzinhas. As meninas. O gigante enterrado. O drible. Outros cantos. Meia noite e vinte. A noite da espera. De mim já nem se lembra. Ruído branco. O ruído do tempo. Espera passar o avião. Enterre seus mortos. Todos os santos. Todos os nomes. Você vai voltar pra mim. Glória. O que ela sussurra. Quando nada está acontecendo. Resta um. A tirania do amor. A um passo. Uma sensação estranha. A fera na selva. Os mortos. Submundo. Tudo é rio. Voltar para casa. Nu, de botas. Entre dois palácios. Desnorteio. Desesterro. A resistência. Enfim, imperatriz. Aos 7 e aos 40. Um, nenhum e cem mil. Eles eram muitos cavalos. É isso um homem? Segredos. Assombrações. Pássaros na boca. Becos da memória. A cidade sitiada. Vivendo sob o fogo. Aprendendo a viver. Nas vertigens do dia. Cadeira de balanço. Bonsai. O silêncio. Flores. O jardim secreto. De verdade. Se deus me chamar não vou. Nem vem. A vida pela frente. Grande sertão. Vida querida.

 

 

  • Este pequeno texto, incluindo o título, é feito apenas e exclusivamente com títulos de livros que têm me ajudado a passar pela vida, que inclui a dor da morte de pessoas queridas, como aconteceu comigo na semana passada, e como tem acontecido com milhares de brasileiros especialmente nesse último ano. Mas que também inclui a beleza da resistência, da solidariedade e da esperança por dias melhores.

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O verão da nossa desesperança

Dizem os franceses que é preciso exagerar para ser compreendido. Eu gosto de exagerar e de ser prolixa. Sempre acreditei que essa é uma estratégia poderosa para entreter e despertar o interesse das pessoas à sua volta, emprestando mais cor e sabor aos detalhes quando você precisa comunicar com precisão emoções extremas, boas ou más.

Se você descreve um assalto sofrido com palavras neutras e num tom de voz monocórdio, ninguém chegará nem perto de compreender os momentos de pavor que você enfrentou nem sua persistente sensação de desamparo. Se, da mesma forma, você relata um encontro inesperado com um antigo ‘crush’ que resultou em uma tórrida noite de amor, sem se dar ao luxo de fazer pausas dramáticas para incrementar o suspense, intercalar suspiros e abusar de expressões onomatopaicas, seus amigos acharão que você sofre de anorgasmia.

Por isso, para falar do verão 2021, quero me derramar sem censura no relato da minha absoluta incompatibilidade com o clima tropical em geral e do meu profundo desconforto com as temperaturas abrasadoras típicas do verão brasileiro, qualquer que seja a região do país em que você more.

Sei que praticamente todo mundo aguarda com ansiedade o período que vai de dezembro a março. É como se disparasse um alarme em todas as consciências de que é chegada a hora de sair de casa e demonstrar alegria – falsa ou verdadeira. Praia, boteco, roda de samba, parques lotados de gente se exercitando e confraternizando sob o sol. Tem início também a temporada de campanhas publicitárias que exploram ad nauseam imagens de jovens festejando a vida ao ar livre e se encharcando de cerveja, refrigerante, água de coco e sorvete. Inútil perguntar para onde vão nessa época os padres e freiras tradicionalistas, além dos velhinhos, principalmente os asmáticos e os cardíacos: provavelmente estarão fazendo uma excursão para regiões de mata fria ou encarando um retiro espiritual dos brabos.

A mim, mais do que convite para a auto exposição, essas associações só trazem desejo de distanciamento e reclusão. Não quero me misturar com nada nem ninguém, por mais arrogante que isso possa parecer. Sinto minha pele arrepiar só de pensar na sensação angustiante de estar sentada em uma praia, com o corpo todo lambuzado de filtro solar, misturado com sal, suor e areia – sabe aquela terrível impressão de estar sendo empanada viva para ser inapelavelmente morta esturricada logo depois?

Na cidade, não é diferente, ao contrário. À testa porejando sem parar, gotas de suor escorrendo para dentro dos olhos, ao excesso de luminosidade que obriga a franzir a testa e enrugar os olhos, à necessidade de enxugar constantemente as laterais do nariz e da boca e à transpiração empapando suas roupas formais de trabalho vem somar-se o vapor que vai subindo do asfalto e deixa um cheiro de borracha queimada no ar, o barulho enlouquecedor do trânsito, o ar poluído que não circula em função dos prédios altos.

No verão brasileiro você entende visualmente a crueldade da desigualdade social, sem precisar recorrer à leitura das teses mais densas de algum sociólogo ou filósofo político. Por mais que esteja envolto em trajes etéreos e confortáveis da linha Dolce & Gabbana, se você está caminhando há algum tempo pelas ruas em meio ao calor escaldante, inevitavelmente vai parecer pobre, desalinhado, vulgar, uma pessoa fora de forma e de maneiras rudes. Nada pode distingui-lo nessa situação: sua maquiagem caríssima vai derreter do mesmo jeito e sua gravata vai parecer aquilo que é de fato, uma forca. Só quando você está a bordo de seu carro importado blindado com as janelas escurecidas fechadas, helicóptero, avião, lancha ou iate particular ou ainda dentro de um hotel cinco estrelas, contando com o auxílio de um potente aparelho de ar-condicionado ligado na intensidade máxima, tendo à mão uma taça de champanhe Veuve Clicquot gelada, pode sonhar em recuperar seu status e seu ar de distinção.

Não há civilização possível no calor tropical, amazônico. Daí você compreende também a pecha de preguiçoso aplicada a todo nordestino ou nortista. Não há determinação, força de vontade ou empenho consciente que se sustente quando seu corpo se exaure com o menor dos gestos. Basta levantar um braço para que uma nova onda de suor inunde seu corpo e entorpeça sua mente. Não há concentração disponível para a realização de um trabalho intelectual, para a leitura ou para uma reflexão filosófica a respeito da dimensão trágica da existência. Você está preso à materialidade, às sensações corporais, ao momento presente.

Não dá para esquecer ainda do caudal de desgraças de que o verão se faz habitualmente acompanhar. Chuvas torrenciais, alagamentos, deslizamentos de terra, soterramentos, queda de árvores, raios e falta de energia elétrica, represas secando e racionamento de água, irritação permanente, cansaço incapacitante, inflamação dos espíritos e consequente aumento da violência.

Se esse mal-estar todo acontece em anos normais, sem a interferência de fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, imagine então o que representa para uma pessoa avessa ao calor como eu estar confinada em casa, sem muito o que fazer para me distrair, e sendo forçada a usar uma focinheira como máscara até mesmo se eu estiver abrindo a porta apenas para jogar o lixo fora.

Graças a Deus, este ano não haverá Carnaval, a perfeita visão do inferno para mim. Ninguém merece ficar horas sentado diante da televisão assistindo às já desgastadas imagens de corpos nus ou fantasiados de baiana, índio – ou pior ainda, de figuras dos tempos do império com roupas de veludo e arminho em volta do pescoço.

Mas, devo admitir, nenhum mal se compara aos terríveis transtornos físicos e psicológicos causados pelo calor do verão brasileiro, pelo desemprego, pela fome, pela violência e pelo coronavírus somados: é somente  quando sua atenção é desviada para o festival tupiniquim de obscurantismo, negacionismo científico, conservadorismo nos costumes, fundamentalismo religioso, inação governamental e nauseantes negociatas políticas a céu aberto que você sente que lhe falta ar por outras razões mais insondáveis e sub-reptícias do que a mera ausência de vento. No outono ou na primavera, no inverno ou no verão, você habita uma surreal Pasárgada, onde não é amigo do rei e não lhe é dado o direito a escolher nem a mulher nem a cama onde vai se deitar.

Bem-vindo à desesperança do verão do não consigo respirar.

 

 

 

 

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Chegou fevereiro…

e não vai ter Carnaval. Quando pudermos fazer festa de novo (há de se ter fé) vou comemorar todos os aniversários passados sem festa e vai ter gente fantasiada de bruxa com paetês fazendo procissão e pulando fogueira e comendo ovo de Páscoa e bebendo quentão com um pedaço de panetone mergulhado ao som de Ivete vestida de Mamãe Noel cantando “pula a fogueira iaiá”, que mesmo quem não gosta de festa vai gostar.

Minha mãe me levava pular Carnaval fantasiada quando eu era criança e não sei dizer se eu gostava ou não. Sei que na pré-adolescência comecei a achar tudo aquilo muito besta, como uma boa pré-adolescente que acha tudo muito besta. Até que na adolescência me enfiei numa matinê com umas amigas e me apaixonei. Por um garoto e pelo Carnaval. Foram anos indo desde o grito de Carnaval até o baile da ressaca. Já teve escola de samba no Rio e em São Paulo. E foi em um desses carnavais que um namorado (não mais a paixão da matinê) me avisou que iria viajar para a praia, só ele e uns amigos. Fiquei indignada. Quem viaja só com os amigos para a praia no Carnaval bem intencionado? Ele nem ligou para a minha indignação e foi. Todo sorridente. Sobrei com um bico enorme na boca.

No sábado de Carnaval pedi para o meu pai me levar até uma livraria. Fazia tempo que eu não lia muito. Era a época de vestibular e toda leitura me remetia a essa prova. Foram os anos em que não tive prazer em ler. Mas minha raiva era tanta que só consegui pensar em livros para passar o Carnaval. Lembro que comprei quatro. Um para cada dia do feriado. De dois deles eu me lembro perfeitamente: “Favela High-tech” e “O amor é fodido”. Este, do português Miguel Esteves Cardoso, era exatamente o que eu precisava naquele Carnaval. Consigo me ver sentada na mesma poltrona da sala, os quatro dias, cada dia com um livro, plena, cheia de vida e alegria. O namorado voltou e foi recebido com saudades. “Tá tudo bem mesmo?”, ele perguntou. “Tá tudo ótimo”, eu respondi sem mentir. Acontecesse o que acontecesse, a partir daquele momento, eu havia descoberto como não sentir solidão.

O namorado mudou. Vieram os filhos e as matinês com eles, eu curtindo mais do que as crianças. Vieram menos bailes do que eu gostaria. Alguns desfiles pela tevê. Outras noites de sono. E veio até fevereiro no Brasil sem Carnaval.

O que importa, agora, é que a minha descoberta continua aqui, pulsante. Essa ninguém me tira. Venha o que vier.

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Matemática do amor

Esta semana meu pai passou por mais uma cirurgia. Meu pai está com setenta e cinco anos. Eu estou com quarenta e cinco. O pai do meu pai tinha sessenta e nove anos quando morreu. Meu pai já viveu seis anos a mais que o pai dele. Meu pai tinha quarenta e quatro anos quando o pai dele morreu. Meu pai tinha um ano a menos que eu quando o pai dele morreu. Eu achava que meu avô já era velho quando morreu. E que meu pai já tinha vivido o suficiente com ele. Eu achava que meu pai era adulto e sabia lidar com a morte do pai. Meu pai é muito novo para morrer. E eu sou uma criança, apesar de um ano mais velha que meu pai quando meu avô morreu, que não acredito que pai e mãe morrem. Meu pai está bem e não vai morrer. Não agora. Mas basta estar vivo para morrer, eu sei, ainda mais em 2020 e 2021. O José Luís Peixoto escreveu um livro lindo depois que o pai dele morreu. “Morreste-me”. Os portugueses sabem dar os melhores títulos para os livros. Conhece os do Lobo Antunes? “Que farei quando tudo arde?”, “Não é meia noite quem quer”, “Os cus de Judas”, “Explicação dos pássaros”. Eu nunca consigo achar um título bom para o que escrevo. Eu queria saber escrever um livro como o José Luís Peixoto escreve. Um “morreste-me” depois que meu pai morrer, o que vai demorar. Mas o livro já foi escrito e eu não sou o José Luís Peixoto. Lobo Antunes não é desse mundo, deixa pra lá. Eu queria só conseguir terminar essa pequena crônica, no quarto de onde escrevo e posso, pela janela, ver o hospital onde meu pai está, na companhia da minha mãe, como é há cinquenta e cinco anos, sem nenhuma visita porque mais de duzentas mil pessoas já morreram, mais novos ou mais velhos que eu e meu pai. Mas há dias não consigo terminar nada que começo e estou me perguntando “que farei quando tudo arde?”. Abrir o livro do Lobo, por exemplo, pode ser uma resposta. Ser sincera e escrever aqui que não consigo achar um fim para esse texto pode ser outra. Um vento entra pela janela, as folhas de uma das árvores mais bonitas que conheço balançam. Eu fecho os olhos e puxo o ar bem fundo. Será que minha mãe e meu pai também conseguem ver o vento?

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Saúde!

A primeira pessoa a receber a vacina no Brasil, uma mulher negra. As mulheres na linha de frente. A guerra não tem rosto de mulher, a Svetlana tem razão, não tem mesmo. Mulheres não fazem guerra, mas não fogem da luta, jamais. Nos momentos em que penso que é difícil além da conta lidar com a vida e com a maternidade, penso na minha bisavó atravessando o Atlântico segurando quatro filhos pelas duas mãos, com a certeza de que nunca mais veria sua terra natal devastada pela guerra, mesmo com a esperança de revê-la, rumo a um país que ela não sabia nem identificar no mapa. É pra lá ou pra cá? Penso na minha avó que ria muito e fazia piadas e gostava de dançar e não chorava vendo filmes. E quando perguntei se ela não chorava nunca, ouvi que “quem já viu guerra não chora, minha filha”. E essa frase ficou. Pá pá pá na minha cabeça.

O homem laranja que gosta de guerra entrou no avião e foi embora da presidência e eu fiquei dando tchau para a tevê com as mãos dizendo “já vai tarde” e meu filho riu. Que tonta eu sou de dar tchau pela tevê. E rimos. E dei mais tchau. O outro homem que gosta de guerra e de tortura, ao sul de quem olha o mapa desenhado por quem, afinal? (pra lá ou pra cá?), continua por aqui. Para quem gosta do que ele gosta, o prazer de ver pessoas morrendo asfixiadas deve ser quase sexual. No livro o homem que está na guerra começa a ser enterrado vivo e é sempre muito assustador pensar que isso existe fora da literatura. Uma pessoa ser enterrada viva. Uma pessoa ter as unhas arrancadas. Uma pessoa receber choques. Coloco o marcador na página insuportável e cubro meus filhos na cama. No quarto ao lado dorme o meu pai, que nunca conseguiu me falar sobre o que viu nos anos de uma ditadura que tanta gente afirma nunca ter existido.

Eu, mamis e a sister brindando os 21!

O dia já clareou, é sempre novo e pode ser sempre o mesmo. Procuro pelo cheiro do café, pelo pão quente ou amanhecido, ainda sinto dor no braço onde meu filho adormeceu. Os patos grasnam mais pela manhã. Os cocôs das capivaras espalhados pela grama e pelo asfalto. É bom estar com quem não quer guerra com ninguém. Imagine, como nos pediu Lennon. Faltou oxigênio na floresta chamada de pulmão do mundo. O sono quase não veio esta semana. O tamanho do broche no peito da Lady Gaga é do tamanho da nossa agonia. A luz do sol ontem à tarde deixou a água do lago dourada e eu vi e pensei que é bonito a água ficar dourada.

Às 21h21 do dia 21 de 01 de 2021 eu brindei. Sobretudo por estar viva e disposta, ainda que dolorida. E porque é bom brincar. Depois do café leio as notícias e abro o livro de novo. Porque quanto mais sei que dói, mais sei contra o que é preciso lutar.

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Ouça seu coração, já dizia a minha mãe

Durante os primeiros meses dessa pandemia não foram poucas as pessoas que me mandaram mensagens pedindo dicas de leitura, livros que pudessem fazer com que elas se concentrassem em algo que não fosse o medo. Dicas eu até dei, mas as pessoas ainda me procuravam, chateadas: não consigo ler.

Eu, ao contrário das pessoas que não conseguiam se concentrar na leitura, saí lendo feito uma desesperada, o que eu estava mesmo, em vários momentos. No ano de 2020 li 109 livros de literatura. A lista, que não fez parte de meta alguma, é grande, do tamanho da minha agonia.

No começo, quando ainda achava que ficaríamos um mês em casa e a pandemia estaria controlada, peguei os livros que mais tinha medo de ler, pela dureza do tema, e li muitos deles. Saber que havia histórias piores do que a de pessoas que ficam trancadas em suas casas para evitarem uma contaminação me ajudaria a ver que já houve, e ainda há, situações piores. Foi assim que li todos os livros, até então publicados, da Scolastique Mukasonga. Eu tinha pavor de ler esses livros que têm como tema o genocídio de Ruanda. E, eu estava certa. Depois de lê-los, eu só pensava que não era possível não ter garra para passar por essa, ou qualquer outra, pandemia. Reli “A Peste”, de Camus. Consegui enfrentar as quase mil páginas de “Um Defeito de Cor”.

Mas quando entendi que a pandemia não teria um fim assim tão próximo, tive que mudar de estratégia para não deprimir. Ainda que eu realmente ache que na boa literatura não há quase livros felizes (afinal, a gente escreve sobre aquilo que não conseguimos encarar ou dominar, sobre aquilo que dói – e aí nos comunicamos, aí nos sentimos menos sozinhos – e os momentos felizes estão longe disso), deixei a lista dos livros que me provocam medo de lado e segui por outro caminho.

E o ano virou. E as promessas das vacinas estão mais próximas. Talvez seja como ver um pouco de terra firme depois de um oceano agitado. E agora ficou difícil para mim. Passo o dia fazendo mil coisas que não queria estar fazendo, só pensando no momento de parar e abrir um livro e quando esse momento chega eu viro a página sem saber o que li na anterior. E volto as páginas. E viro de novo, sem lembrar do que li na anterior, e tento mais uma vez e ganho um buraco no peito. Já foram alguns os livros deixados na cabeceira nessa primeira quinzena de 2021. Dois terminados, não sem esforço, confesso. A tristeza que sinto é seca.

Mas aí a magia acontece. Um título indicado há anos e que não tive coragem de ler naquele momento começa a surgir no fundo da minha mente. A voz do livro fica batendo aqui no peito: leia-me, leia-me, leia-me… e depois de alguns dias sendo perseguida por essa vozinha eu decido ceder e aqui estou, dentro de um hospital em Israel, sugando cada palavra, imersa para saber o que vem na página seguinte, uma leitora contente de novo, grata por ter livros que me chamam quando eu mais preciso.

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2021

Voltei.

Considerando o número de pessoas que não conseguiram chegar em 2021 só por causa do mais novo vírus que nos assombra, voltei agradecida. Mais do que nunca. Nunca uma virada de ano foi tão comemorada. Desde março do ano passado o que mais falei para meus filhos, parentes e amigos foi: o importante é chegarmos vivos ao final do ano, minimamente sãos, física e mentalmente. O resto a gente resolve depois.

E chegamos.

Bebi um pouco e dancei muito entre as últimas horas de 2020 e as primeiras de 2021. Sozinha mesmo. Na sala. Fiz minha celebração, ainda que com todo o resto para resolver, tentando fazer com que meus filhos dançassem comigo, o que não consegui. Mas o importante era que eles estavam na sala, ao alcance do meu abraço, e pudemos nos beijar à meia-noite. O que mais desejei para eles e para todos, mais do que nos outros anos, foi saúde. Nunca também fez tanto sentido a famosa frase “o que importa é ter saúde, do resto a gente corre atrás”.

Terminei 2020 com 109 livros lidos. Uma média de dois livros por semana. Um deles com mil páginas. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto “nunca” em um texto só. Porque em 2020 muita coisa que nunca tinha acontecido antes na minha vida, aconteceu. Meu pai, que nem gripado eu tinha visto, em um entra e sai de hospitais. Minha mãe com passos lentos e olhar cansado. Meu braço direito paralisado de dor. Eu na cozinha fazendo comida. Meu marido em casa em uma quarta-feira à tarde. Uma tela entre alunos e professores, aniversariantes e convidados, entre amigos e amantes.

Se tudo doeu mais em 2020, todo pequeno ato também foi celebrado. A luz do sol que entra pela janela da sala às quatro da tarde e deixa o chão e os móveis alaranjados. O sono dos gatos nas almofadas durante uma tarde inteira. Uma xícara de café recém passado.

Assim fomos, ato por ato, página por página, passo por passo.

No dia primeiro de janeiro de 2021 meu filho mais velho me chamou no canto: mãe, agora que o ano novo chegou, a gente precisa fazer alguma coisa diferente ou pode continuar vivendo como antes? Ele estava sério. Era mesmo uma dúvida. Havíamos chegado ao ano novo, afinal. Estávamos vivos e saudáveis, meta alcançada. E agora, já que falamos tanto dele?

Agora continuamos, filho, vivendo como sempre vivemos. Tentando ser uma pessoa melhor a cada novo dia, sem deixar de olhar a luz do sol que entra pela janela, sem deixar de agradecer pelos pores do sol, sem esquecer do cafezinho no meio da tarde, sem deixar de chorar quando a garganta apertar muito.

E sem deixar de ler, não é, mãe?

Sempre. Isso sempre, meu filho.

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Qual é o pente que te penteia?

Phillip Roth, de longe meu autor preferido em língua inglesa, escreveu um livro ao mesmo tempo delicado e altamente provocador, chamado “The Human Stain” [A Mancha Humana], que funciona como uma espécie de bíblia antirracista para mim. Conta a estória de um homem oriundo de uma família negra humilde, mas que nasceu com a pele clara. Ao longo de sua infância, ele se dá conta do forte preconceito da vizinhança e dos colegas de escola contra sua família de origem e aos poucos vai se afastando dela, envergonhado.

No início da adolescência, começa a praticar boxe no colégio e se envolve cada vez mais com seu treinador judeu. Em função da proximidade afetiva entre os dois, que se estende para fora da escola, e do tom azeitonado de sua pele, que é comum entre alguns grupos judeus, muitas pessoas começam a imaginar ser ele também de origem judaica. A crença logo se consolida na cidade e o rapaz se aproveita dela para se afastar ainda mais da família e ocultar sua verdadeira identidade racial.

Amparado pela comunidade judaica, ele consegue ascender socialmente, torna-se professor e, mais tarde,  é eleito reitor de uma universidade local. A partir da perspectiva racial, Phillip  Roth vai então tecendo toda uma sutil trama abordando outras “manchas” humanas que orbitam a história de vida do personagem: conflitos psicológicos, disfarce de sentimentos, invejas, disputas de poder, conflitos identitários, preconceitos raciais e de classe social, etc.

Cena do filme norte-americano inspirado no livro de Phillip Roth

Apesar de sua habilidade para se esquivar dos golpes do destino, esse ex-pugilista vai enfrentando uma série de acusações na convivência com seus pares e alunos na faculdade, com os moradores da cidade e também com as mulheres. Certo dia, por exemplo, ele é acusado de racismo por duas de suas alunas afro-americanas por tê-las chamado de “spooks” [fantasmas], um termo fortemente pejorativo. Ele se defende argumentando que se referia apenas à baixa frequência das duas nas suas aulas, mas o conflito se instala, é levado ao conselho diretor da instituição e ele termina sendo demitido.

Em meio à disputa para limpar seu nome, ele sofre ainda com a doença e morte da esposa, uma mulher branca a quem nunca revelou sua origem racial, e acaba atribuindo o AVC sofrido por ela à tensão intrafamiliar decorrente da acusação. Ao mesmo tempo, ele conhece e se apaixona por uma faxineira branca, semialfabetizada e muito mais nova que ele, encarregada de limpar sua sala na faculdade. O encontro amoroso dos dois acaba sendo outra fonte de conflito e de pesadas acusações vindas de um grupo de professoras feministas que o denunciam por assédio sexual e machismo.

O leitor é sutilmente forçado a confrontar, ao longo de todo o roteiro, as nuances do universo psíquico desse afro-americano/judeu e as pretensas motivações atribuídas a ele pela hipócrita sociedade local. Não vou contar outras passagens dramáticas porque sei que os mais apressados perderiam a chance de pinçar por conta própria outras agudas provocações do livro.

O que quero ressaltar aqui é como é difícil se equilibrar num mundo que valoriza as aparências e que nos convida a cada instante a nos envolvermos em um intrincado jogo de espelhos. O convite à luta antirracista proposta nesse livro veio somar-se à minha intensa admiração pela obra de uma professora americana, ativista da causa da diversidade, Jane Elliott. Em uma série de vídeos contundentes, ela promove sessões de conscientização para crianças e adultos quanto às aparentemente inocentes mas perigosas armadilhas do cotidiano que levam à discriminação de pessoas a partir da cor de suas peles.

A série, chamada de “Blue Eyes” [Olhos Azuis], baseada num experimento de sensibilização para o racismo, propõe uma total inversão dos privilégios concedidos às pessoas brancas em nossa sociedade valendo-se de um recurso simples, mas engenhoso: o deslocamento da discriminação por cor de pele para a de cor dos olhos. Ela desenvolve e apresenta aos participantes a pseudo tese “científica” de que os portadores de olhos azuis ou verdes seriam pessoas menos inteligentes (porque lhes falta a melanina da maior adaptabilidade a um ambiente hostil), com mais dificuldades de aprendizagem, mais preguiçosas e mais ”mimizentas” (isto é, eternas reivindicadoras de direitos) do que as pessoas de olhos castanhos.

É simplesmente imperdível acompanhar o profundo choque causado à autoestima dos brancos por essa tese e a enorme comoção que toma conta dos participantes negros ao se verem retratados como pessoas “superiores”. É importante destacar que a participação de todos no experimento era totalmente voluntária – e, mesmo assim, praticamente ninguém opta por sair da sala antes do fim da sessão.

Desde a chegada, os participantes são divididos em dois grupos: os de olhos azuis/verdes e os de olhos castanhos. Os primeiros são obrigados a colocar um colar da mesma cor de seus olhos no pescoço para que seja possível reconhecê-los à distância. São atendidos de forma antipática ou indiferente, precisam esperar o início dos trabalhos sentados no chão de uma sala apertada e sem ar-condicionado. Enquanto isso, os de olhos castanhos recebem uma série de regalias: sucos, lanches, cadeiras confortáveis e tratamento preferencial. Uma vez iniciados os trabalhos, os participantes de olhos claros são então informados de que não poderão interagir com os membros do outro grupo nos intervalos e podem ser penalizados caso protestem contra o tratamento diferencial.

Em um trecho de um dos vídeos, Jane Elliott confronta os participantes com aquela que me parece a proposta mais reveladora do racismo estrutural: “Qualquer pessoa nesta sala que aceitaria passar um dia sendo tratado como nós tratamos os negros neste país, por favor se levante”. Frente ao silêncio constrangido que se sucede, ela replica: “Acho que vocês não entenderam o que eu disse. Vou explicar de novo” – e repete a proposta, com as mesmas palavras. Mais uma vez, ninguém se voluntaria. Ela então conclui: “É pior do que eu imaginava. Vocês sabem exatamente o que acontece… e são coniventes com esse estado de coisas”.

Adotei esse raciocínio como uma espécie de mantra para minha vida e no meu trabalho. Adoraria poder replicar esse treinamento em terras tupiniquins. Se isso fosse possível, no entanto, eu certamente teria de substituir a cor dos olhos por tipo de cabelo, uma vez que é essa característica a que mais concentra a atenção raivosa  dos racistas brasileiros.

Fora o velho xingamento de macaco, repetido à exaustão, o que mais se ouve em todos os casos nacionais de injúria racial é que o “cabelo duro/de Bombril” e os penteados afro não se adequam ao exercício de cargos de recepção ou contato com clientes e até mesmo podem interferir na capacidade e credibilidade dos ocupantes de cargos de liderança. Domar o cabelo rebelde tornou-se então o esporte preferido dos preconceituosos de plantão.  Intimidadas, as vítimas até que tentaram adequar-se, prendendo ou alisando os cabelos, mas o “atrevimento” dos fios em voltar às condições originais continua sendo sinônimo daquilo que mais se rejeita no trato diário com a comunidade negra: a insubmissão, a indisciplina, a ousadia de manter a cabeça ereta e de encarar os frequentadores da casa grande sem pestanejar, direto no fundo dos olhos.

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Vai que…

‘Meus pais, avós e tios me perguntavam o que eu gostaria de ganhar de presente nos aniversários e eu respondia: qualquer coisa que não seja mole. Porque, como toda criança pequena, eu não gostava de ganhar roupas. Pegava naqueles pacotes que se amoldavam à minha mão e já pensava: ah, roupa não. Até sapato, que vinha nas caixas, eu gostava, mas roupas?!

Então em um aniversário, eu era bem pequena, uma amiga da minha mãe me deu um pacote duro. Fiquei animada, começou bem. Abri, ansiosa, e era um livro. Um livro! Eu nunca tinha ganhado um livro de presente antes (Tereza, onde será que você está para saber disso?) e fiquei maravilhada. Porque eu gostava dos livros que tinha que ler para e na escola, mas ainda não tinha falado para as pessoas, mesmo para as mais próximas, que eu gostava dos livros. Era um livro do Monteiro Lobato com ilustrações, em preto e branco, papel jornal. Além de ler as histórias com alguma dificuldade, pois estava no início da alfabetização (meu pai e minha mãe nunca leram para mim e eu não sabia que podia pedir para eles lerem), eu também colori as ilustrações, mesmo sabendo que não era um livro de colorir. Aquele era meu livro e eu podia fazer com ele o que eu quisesse, assim como até hoje grifo e escrevo nos meus livros, para desespero de alguns.

Foi também nessa época que em um Natal, na casa da minha tia, tive outra experiência marcante. Essa minha tia era (e ainda é) casada com o homem que eu mais vi lendo na minha vida. Final de semana juntos, os paranauês rolando e meu tio sentado com a cara enfiada em um livro. Ele tinha (ainda tem) uma sobrinha da mesma idade que a minha e quando nos juntávamos no Natal ganhávamos os mesmos presentes. E, nesse ano marcante, meus tios deram primeiro o presente para ela. Um livro! Grande, capa dura, colorido, recheado de contos de fadas. Fiquei ansiosa, aquele mesmo livro logo estaria nas minhas mãos e… não foi o que aconteceu. Pela primeira vez, nossos presentes foram diferentes. Não me lembro qual foi o meu. Me lembro que era um presentão, um brinquedo bom (não é mole, não é, Luciana, gostou?), mas eu só conseguia pensar que não tinha ganhado aquele livro. Por que, eu tinha vontade de perguntar, justo dessa vez nossos presentes não são iguais? Já adulta, comprei um livrão colorido e de capa dura cheio de contos de fadas para mim. O mais perto que consegui chegar daquele que sempre achei que deveria ser meu.

Demorou para eu contar para os meus pais que eu gostava de livros. Talvez por não ver meus pais lendo, talvez por não ver quase ninguém lendo com exceção desse tio, eu não me sentisse encorajada para revelar esse amor. Quando revelei, que bom, fui apoiada. Minha mãe passou a me dar livros. Meu pai passou a dizer “sim” todas as vezes em que eu pedia livros de presente, fosse uma data especial ou não. Que alívio!

Gostar de ler quando estamos em um ambiente com poucos leitores pode ser motivo de vergonha. Michèle Petit chega a dizer que aquele que gosta de ler, nesse ambiente, pode se sentir um traidor. Todos seus amigos lá, por exemplo, com uma bola, e você chega com um livro? A família naquele auê de televisão e você querendo silêncio para ler? Michèle Petit me fez entender porque demorei para fazer a revelação. Porque mantive esse amor em silêncio por um tempo que me parece longo. Por isso, na dúvida, dê livros de presente. Vai que o presenteado está ali, em silêncio, esperando por isso.

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