Categoria: COLABORAÇÕES

Textos de cronistas convidados do blog.

A Humanização

E chegamos em dezembro.

Desde março meu discurso em casa é para tentarmos chegar em dezembro com saúde. Se as crianças vão perder o ano letivo e estudar tudo de novo no ano que vem e se os adultos vão precisar se endividar para pagar as contas, são problemas que resolveremos depois. O foco nesse 2020 foi outro. Ou, dito de forma mais bonita pelo escritor Valter Hugo Mãe, no livro “A desumanização”, em trecho que me chegou pelo Whatsapp de um grupo de leitura:

Havemos de dezembrar. Dizia eu. Faltava pouco para o fim do ano. Era o meu pai, nos tempos de maior conversa, que o pedia. Depois de cada dificuldade, esperava que dezembrássemos todos. Que era prometer que chegaríamos vivos e salvos ao fim do ano, entrados em janeiro, começados de novo. A resistir.

Dezembramos, pois. Havemos de janeirar. Havemos de continuar sonhando e resistindo e insistindo. Havemos de fazer concessão ao uso do gerúndio. Havemos de aprender a desacelerar. Talvez a comprar menos nesse Natal. Quase um ano inteiro isolados em casa nos fez ver que o consumismo não tapa os nossos buracos, não? Nós precisamos que os aparelhos celulares funcionem e só. Ninguém sairá saltitante pelas ruas cheias de bolas vermelhas caindo do céu porque comprou um telefone, por mais inteligente que ele seja.  Não vamos sair dançando pela sala se usarmos este ou aquele amaciante de roupas. Vamos dançar pela sala se colocarmos uma música para tocar, ainda que dentro da nossa cabeça. E se tivermos companhia, melhor ainda. Não tem par de sapato que substitua o olhar de uma pessoa amada. Dividir um poema com uma amiga acalenta mais do que uma sacola cheia de roupas. Tente. Uma calça jeans no armário é suficiente. Por que tenho uns dez batons na gaveta se uso sempre o mesmo? Para que três aparelhos de jantar se o mais gostoso mesmo é encher a casa de gente querida e cada um que coma onde der e como der? Os pratos, cada um de jeito, equilibrados nas nossas mãos enquanto nos acomodamos no braço do sofá e até sentamos num cantinho, no chão? Quem se preocupa com pratos e copos iguais se o ambiente está tomado por risadas? Havemos de ter tudo isso novamente.

Havemos de ter vacina para todos e não primeiro para os membros do Ministério Público, como está na notícia que li hoje. Aqueles dentre os mais privilegiados, com mais condições materiais de se proteger, querendo a frente da fila. Sim, quando penso na vacina, por exemplo, eu não deixo de pensar: vai ter para os meus filhos? Porque sou umbiguista e medrosa como creio que todos humanos são. A diferença, penso eu, está na nossa disposição de todos os dias, por mais que doa, nos tirarmos do centro do mundo.

Havemos de aprender a dezembrar, todos os anos, com mais comunhão.

 

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Amém

Meu ombro e meu braço direito ainda doem, mas já consigo digitar sem fazer tantas caretas e soltar alguns ais e uis. Digito devagar, no ritmo que a dor me impôs. É como dizem: uma hora o corpo te obriga a diminuir o ritmo. Só parece que não sou inteligente o suficiente para aprender a lição de forma definitiva. Porque já fui obrigada a diminuir o ritmo antes. Morar em São Paulo talvez não ajude, onde partículas de ansiedade podem ser captadas no ar. Só que eu amo São Paulo. E aprendi a entrar em alguns lugares (quando podíamos andar pelas ruas) quando me sentia sufocada pelos passos apressados nas calçadas e pelas buzinas tocadas por pessoas à beira da insanidade: livrarias principalmente. Com café então, era como sair do inferno direto para o paraíso. Perto dos livros, a calma me toma. Cada um com seu templo.

Nesses dias de dores, tantas outras além daquela no meu braço e ombro (a pandemia não acabou, as crianças continuam trancadas em casa, nossos pais, assim como nós, seguem envelhecendo, o dinheiro nem sempre dá para as contas, continuamos matando jovens negros), sigo na companhia dos livros e das personagens que misturo com pessoas de carne e osso que conheço. Será que alguém me entende quando digo que Carolina Maria de Jesus tem segurado a minha mão em vários momentos? Estanco um grito e escuto sua voz me encorajando: vai, filha, vai… Escuto Kehinde, escuto Amina, escuto Anna, escuto minha vó Cida e minha vó Eslava, escuto minha mãe: vai, filha, vai…

Como você lê tanto, Luciana, como consegue? A pergunta que escuto quase diariamente. Você não trabalha (sim, e trabalho muito com livros)? Você não come (sim, bastante, muitas vezes lendo ao mesmo tempo)? Você não dorme (pouco, é verdade)? Você não vê tevê (quase nada)? Algumas perguntas são mera curiosidade. Algumas vêm com o peso da afronta: só uma pessoa tão desocupada pode ler tanto assim, não? Algumas vêm revestidas de receita doce:

Sabe por que você tem essas dores, Luciana? Porque você não reza.

Dei de ombros (mesmo dolorido – quiçá por falta de reza). Como já disse: cada um com seu templo. Eu já rezei com texto de Clarice Lispector. Não peço que ninguém reze comigo. Em troca, espero que ninguém me obrigue a rezar de modo diferente.

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‘Rebecca’, ou a arte de contar histórias

por Carmen Cagno

Joan Fontaine e Dame Judith Anderson no original de 1940 e Kristin Scott Thomas com Lily James na de 2020

Produzir remakes de grandes clássicos é um perigo. No caso da nova versão de “Rebecca”, lançada em outubro deste ano, trata-se de um verdadeiro desastre. Na modesta opinião de quem sempre se curvou diante do altar do grande Alfred Hitchcock, o diretor da nova versão, Ben Wheatley (“Free Fire”, “No Topo do Poder”), deveria, a partir de agora, subir a escadaria da Lapa de joelhos diariamente e bater no peito três vezes ao dia, pedindo perdão ao grande mestre do suspense pelo pecado cometido.     Sem contar a dívida eterna para com os verdadeiros amantes do cinema que tiveram que engolir essa bobagem que mais se assemelha a uma comédia romântica de quinta (afinal, existem comédias românticas boas).

Quem teve o prazer de assistir à versão de 1940 sabe do que estou falando. Além da história de Daphne du Maurier (1938), na qual o filme se baseia, “Rebecca, a mulher inesquecível” original é uma obra prima, com indicação aos Oscars de melhor filme, melhor diretor (Alfred Hitchcok), melhor ator (Lawrence Olivier), melhor atriz (Joan Fontaine), melhor atriz coadjuvante (Judith Anderson), melhor roteiro, efeitos especiais, edição, trilha sonora e fotografia. Levou os prêmios de melhor filme e fotografia em PB. Poderia ter levado todos.

Primeiro projeto norte-americano de Hitchcock, produzido por outra fera, David O. Selznick, trata-se de um suspense com tintas góticas, ambientado na Inglaterra e gira em torno da relação entre um riquíssimo herdeiro e uma garota simples e ingênua, atormentada pelo fantasma da antiga esposa do protagonista, morta em condições misteriosas. O filme se passa dentro dos limites da mansão Manderley – que a genialidade do diretor transformou em mais um personagem. É esse lugar imenso, ostensivo, sombrio um dos elementos fundamentais como cenário da história.

Com roteiro impecável de Michael Hogan e Joan Harrison assentado sobre a belíssima fotografia em branco e preto de George Barnes, com luz e enquadramentos que intensificam o clima de suspense, e trilha de Franz Waxman, o filme conta com algumas vigas de sustentação que constroem seu preciosismo. A principal delas, lógico, é a direção do mestre do suspense, que transforma Rebecca, a personagem fantasma, na verdadeira protagonista, através da qual cresce aos poucos o clima de tensão e mistério. Hitchcock constrói essa heroína invisível, idealizada e aparentemente indestrutível através de efeitos contundentes: os closes em seus monogramas espalhados por todos os objetos da casa, a câmera passeando obsessiva por suas roupas, seu quarto, seu perfume, suas lembranças e até seu cachorro, e os relatos dos personagens sobre a beleza e a personalidade da morta.

A frágil personagem de Fontaine, assim como nós, pobres espectadores, vamos sendo aos poucos conduzidos às dúvidas e ao temor em relação a essa mulher que dá nome ao filme, embora não apareça em nenhuma cena. O fantasma, o espectro, o intangível, portanto, o perfeito.

A grande alavanca para essa idealização, sem dúvida, é a governanta, magistralmente interpretada por Anderson – cruel, doentia, assustadora, ela mantém vivo e soberano o espectro da antiga patroa em cada cômodo da casa, aterrorizando crescentemente a frágil e insegura protagonista vivida por Fontaine.

A aparente indiferença e arrogância de Max de Winter, o viúvo de Rebecca, interpretado pelo grande Olivier, que vaga pela propriedade num silêncio atormentado, corrobora o clima de incerteza e tensão da jovem e ingênua personagem de Joan Fontaine, que não por acaso, não tem nome na história – falta-lhe identidade, personalidade, força, diante do turbilhão de Rebecca.

A atuação de Fontaine empresta a sua personagem uma sensação de enorme fragilidade. Seu corpo se curva, encolhe-se, seu rosto em primeiríssimo plano estampa o medo e a orfandade diante do poder da outra. Dizem as más línguas, inclusive, que a interpretação de Joan Fontaine foi “auxiliada” por Olivier, que queria para o papel sua então mulher, Vivien Leigh. Contrariado, teria fustigado a protagonista o tempo todo – para gáudio do diretor, que nunca se importou muito com o bem estar dos seus atores.

Além disso, o filme conta com a excelente performance do amante de Rebecca, interpretado pelo impagável George Sanders e seu cinismo sedutor e cafajeste que vai semeando dúvidas crescentes ao longo da história.

Muito bem. Encantados com as lembranças dessa obra prima, 80 anos depois somos apresentados à nova versão da história. Inteiramente apoiado no roteiro original, o filme ainda assim é um grande desastre, a começar pela direção, que não imprime em nenhuma cena a tensão e o suspense necessários. Não explora as dúvidas, a dramaticidade, a intensidade gótica da versão original.

Lawrence Olivier e Fontaine na versão de Hitchcock, e Armie Hammer com Lily James na de 2020: quanta diferença!

Wheatley limita-se a narrar o roteiro original, esquecendo-se de que, mais importante que a história, é a forma de contá-la. O resultado é um filme boboca, sem envergadura, pobre e mal feito. Com certeza, poucos diretores de cinema se igualam ao mestre inglês na arte da direção. Mas a impressão que se tem é que o atual diretor nem tentou fazer um bom trabalho. Além de aparentemente não ter exigido nada dos atores, não teve o cuidado de escolher um bom diretor de fotografia, ignorando iluminação e enquadramentos e desprezou até a direção de arte (vide o horrendo figurino da protagonista, que parece ter sido arrematado numa banca de liquidação).

A atuação de Lily James é fraca e inexpressiva. A atriz está longe de envergar o “aplomb” e a elegância discreta de Fontaine, além de não transmitir em nenhum momento a angústia indispensável à construção da personagem. Parece mais uma garota perdidinha e insatisfeita num filme de Sessão da Tarde. Armie Hammer jamais chegará aos pés de Olivier. Bonitinho, mas inexpressivo, não consegue emprestar a seu Max, em nenhum momento, a personalidade angustiada e misteriosa do protagonista lutando contra seus demônios e imprimindo à história a carga de mistério necessária.

E mesmo a excelente Kristin Scott Thomas não dá conta da perturbadora Mrs. Danver – é bonita e doce demais pra carregar personagem tão sombrio. Ou seja, tudo indica que o projeto de Wheatley foi muito mais comercial do que artístico. Poderia ter lançado mão de atores muito mais talentosos e competentes para interpretar os papéis principais e, sem dúvida, utilizado os infinitos recursos técnicos de que o cinema dispõe atualmente em favor de um resultado, no mínimo, mais sério. E mesmo nas raras tentativas de emprestar alguma dramaticidade à determinada cena, como no baile acontecido na mansão, o resultado é banal e forçado.

As grandes histórias, no cinema ou não, são aquelas que nos encantam, afligem, assustam, redimem e ajudam a reinventar o frio cotidiano da vida. Atrás delas estão os grandes contadores de histórias, que com talento, dedicação e afinco extrapolam os limites da realidade e nos permitem experimentar a dimensão da fantasia, justificando a vida através da arte.

Rebecca contada por Hitchcok é pura arte.

Rebecca contada por Wheatley não é nada.

 

 

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Prescrição: clubes de leitura

Capsulite. Tendinite. Bursite. Dois mil e vintite. Parece que é tudo isso junto que tem me causado dores no ombro e braço direitos. Dores que me fizeram escrever, semana passada, “não consigo escrever o texto dessa semana.” Ler a frase que eu tinha acabado de digitar me doeu mais. Porque eu escrevo desde que fui alfabetizada. Antes de ser alfabetizada eu já escrevia na minha cabeça, o que fiz depois foi só começar a colocar no papel. Meus diários reais e fictícios e diários de personagens que eu criava. Tenho um diário até hoje guardado, que escrevi quando tinha uns oito ou nove anos, anotando detalhes de uma viagem que fiz (na minha cabeça enquanto folheava um Atlas – ai, meu ombro  –  do meu pai) para a Europa. O avião pousou em Madri, em um dia cinza e chuvoso, foi difícil conseguir entrar no ônibus que nos levaria para o hotel, a cidade estava um caos por causa da chuva.

Quase quarenta anos depois, quando fui para a Espanha também com o corpo, me despedi de Barcelona em um dia cinza e chuvoso, em que não conseguia achar um táxi para me levar até o aeroporto. Tive que me enfiar no metrô mesmo, às seis da tarde, carregando as malas, encharcada, e só cheguei a tempo porque um funcionário espanhol se compadeceu de mim e foi na minha frente feito Moisés. Quando me sentei no café do aeroporto, com tudo resolvido, para só esperar o voo, me lembrei da minha viagem ficcional. Não consegui não sorrir, pensando no vaticínio da menina para quem era tão fundamental escrever, fosse o que fosse, fosse como fosse. Essa menina que sou hoje. Se digito e a dor vai do ombro direito para o ombro esquerdo e se alastra até o dedo médio da mão direita e até a orelha direita, digitar “não consigo escrever” doeu mais. E agora, nesse exato momento enquanto digito, lembro da minha mãe me dizendo que eu parecia catar milho na primeira máquina de escrever que meu pai me deu. Uma maquininha infantil em vários tons de azul, trazida de uma viagem que ele fez a trabalho para os Estados Unidos. Ele me explicou que a máquina não tinha os acentos porque em inglês eles não existiam. Eu digitava e colocava os acentos depois, com a caneta. E pensava nessa língua que não tinha acentos. O que mais existia sem eu ter a mais remota ideia? E lá ia eu para o Atlas, para a Barsa, para a Mirador, para a biblioteca da escola. E lá ia eu experimentar a vida pela leitura e pela escrita. Como nunca deixei de fazer. A angústia e a delícia de tanto querer conhecer.

Nesse ano cheio de dores como meu corpo agora, conhecer o mundo e as pessoas por meio de tantas páginas já escritas ainda é o melhor remédio que encontrei, com um ganho: a existência dos clubes de leitura, os quais conheci só na vida adulta. Se ler sozinha já melhora as dores, compartilhar a leitura com tantas pessoas incríveis que habitam o mundo (sim, há muitas, há tantas) faz a dor quase sumir. Pelo menos por algumas horas. O que já é muito.

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Quando?

Sonhei com praia. Eu caminhava e andava de bicicleta pela areia e mergulhava no mar. E sonhei com festa. Todo mundo de roupa de praia e canga e bermuda. Sonhei com caipirinha, cerveja e abraços. E música e dança. Tinha ônibus trazendo e levando gente da festa. O moço mais bonito foi embora, entrou no ônibus sem nem olhar para atrás, no caso para mim, sem que ele tivesse me notado em momento algum. Mas tinha música e eu saí dançando até chegar em Salvador, porque nessa pandemia eu tenho sentido falta mesmo é de Salvador. Ter lido “Um Defeito de Cor”, além de ter me ensinado tudo o que eu deveria ter visto nas aulas de História e não vi, me levou para Salvador. E em cada descrição das ruas, que já existiam lá no século XIX, eu parava mais. Lia uma frase e fechava os olhos para olhar as pedras, o mar, a Baía de Todos os Santos. De olhos fechados, respirava mais fundo para sentir o cheiro do mar. E ouvir o som do Mercado Modelo.

E acordei ao me mexer, o nervo do braço se retorceu e suei frio e vi círculos amarelos e azuis, de tanta dor o cérebro quase me fez desmaiar, uma gota gelada escorria pelo meu pescoço e nem chorar eu conseguia, então fiquei deitada respirando fundo, muito fundo, cada vez mais fundo, até a dor passar, e adormeci na neve de Davos, no Sanatório de Berghof, pois é lá que tenho passado muito tempo nas últimas semanas, nas centenas de páginas de “A Montanha Mágica”, confundida pelo tempo lá e cá. Ler “A Montanha Mágica” durante uma pandemia é diferente. Fazer qualquer coisa durante uma pandemia é diferente.

Hoje é sexta? De novo estou sem me localizar nesse tempo inventado. Desde terça estou achando que é quinta. E hoje ainda acho que é quinta. Passei uma semana na quinta-feira. Alguém falou em novembro e eu ri. Mas novembro não demora? Em um dia de 2019 andei quatro horas seguidas em uma praia, tenho sonhado com essa caminhada. Andar de quinta a quinta, quatro horas em cada quinta, em algum lugar onde o vento possa bater no meu rosto, no calor de Salvador ou no frio de Davos, andar, andar e andar, além dos livros, além dos sonhos.

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O que eu quero ser quando crescer

Passei a semana com um tema martelando minha cabeça. Vou deixar para escrever na quinta, pensei. E a quinta-feira chegou e é 15 de outubro. E como vou escrever neste dia sem falar dos professores? Porque o dia escolhido para homenagear os professores, para mim, é diferente das outras datas escolhidas para outras homenagens. Até do Dia das Crianças eu quase me esqueci, mesmo com dois exemplares em casa, mas desde ontem estou falando para os meus filhos: amanhã é Dia dos Professores, por favor, vejam como eles são importantes, peloamordeDeus, agradeçam os seus professores por eles existirem e ainda não terem desistido, digam, verbalizem, beijem os pés pela tela se for preciso, ergam as mãos aos céus, o que seria de nós, eu e vocês, sem eles? Porque nessa pandemia, mais do que nunca, eu penso nos professores e fico comovida. Agradecida. Encantada. Como fizeram meus filhos ler? Como não perderam a paciência ao ensinar a tabuada? E as caixas-lotes (quem me acompanha aqui sabe do que estou falando)? Como não jogaram papel, apagador e giz (ou pincel atômico) pro alto para nunca mais voltar?

Então penso nos meus professores. Talvez eles não tenham jogado tudo para cima para nunca mais voltarem porque sabiam que dificilmente seriam esquecidos. Porque sabiam que estavam ali para fazer uma diferença positiva nas nossas vidas. Tenho tantos professores ainda falando diariamente dentro de mim. Dona Ângela, sei até hoje as preposições e o uso da crase só de te ouvir falando. E o mais importante, aquilo que me transformou e me constituiu: a professora-ponte para a literatura. A professora que me fez leitora. Isso eu nunca teria como agradecer, então faço o que consigo: estico a ponte. Maraísa, a professora de História que me ensinou que os livros podem estar cheios de mentiras contadas por quem está e quer se manter no poder. Ela explodiu minha cabeça aos nove anos de idade. Professor Edu, se alguma coisa eu sei de Biologia, foi por sua causa, os desenhos na lousa até hoje na minha retina. O professor que lotou uma sala de aula com mais de 200 adolescentes, em uma tarde de sexta-feira ensolarada, ao falar sobre cobras peçonhentas, matéria que não estava no currículo escolar e nem cairia na prova. Gian e o exército de Napoleão desenhado nas paredes. Eram muitos para ficarem só na lousa. O professor que já tinha acabado a matéria do ano e viu um jornal sobre a mesa e disse: querem saber a história da Folha e do Estadão? Nós quisemos. E ele deu a aula ali, pensada na hora, da qual me lembro até hoje ao ler um ou outro jornal. Francis, o que me fez parecer que eu sempre entendi Matemática. Ciça, tão além do “the book is on the table”. Professor Júnior com os olhos brilhantes falando de Capitu, Lúcia falando de “Senhora”, meu amor pela literatura sempre aquecido. Professor Pasquale e a Língua Portuguesa nas letras de Gil, Chico e Caetano. O dia em que colocamos o Hino Nacional na ordem direta. Como podia um professor juntar tanta coisa boa ao mesmo tempo?, eu pensava enquanto me encantava ainda mais com a nossa língua. Elena, que mais do que Educação Física, nos mostrou nossos corpos, nossas individualidades. Foi ela, e não minha mãe, quem me falou pela primeira vez sobre menstruação. Isso é marca boa e indelével. Meu professor de Direito Civil, responsável por eu escolher minha área de atuação só por causa das aulas que nos deu. Não, ele não falou nem fez nada de extraordinário. Foi lá, durante cinco anos, pontualmente, e deu as aulas que tinha que dar, do início ao fim. Nos respondeu na hora quando sabia, nos trouxe respostas depois quando não sabia. Pessoas, do jeito que eu gosto. Como Fernando Pessoa na pele de Álvaro de Campos, eu também me cansei de semideuses há muito tempo.

E penso aqui no meu texto mais recente, no qual mencionei meu primeiro emprego, de professora de inglês. Tomo um susto. Penso nas turmas de Direito em que fui professora auxiliar, as vezes em que conduzi as aulas sozinha, aqueles estudantes todos me olhando, anotando o que eu falava, levantando a mão para me questionar, que frio na barriga de quem está viva e pensando.

E hoje nas formações de mediadores, nas oficinas de leitura e escrita para jovens eu continuo lá, nesse lugar da professora, mas sem conseguir assim me nomear. Talvez eu ainda ache que não estou à altura. Porque ser professora é grande. Grande demais!

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A sociedade do cansaço pode ficar sempre mais cansada – ou não

Eu tinha quatorze anos quando consegui meu primeiro trabalho, de professora de inglês para crianças ainda não alfabetizadas. Logo depois ganhei uma turma de crianças maiores. E depois outra. Lembro de corrigir as lições dos meus alunos durante as aulas de inglês que tinha na escola. Enquanto ficávamos no “I am You are He She It is”, a professora me dava uma piscadela e eu seguia fazendo as correções. No fim da semana eu estava bem cansada, ao que meu pai me dizia: você não tem ideia do que é o cansaço.

Dei aula de inglês até deixar a cidade em que cresci para voltar para a cidade onde nasci (São Paulo que nunca saiu do meu coração) para fazer faculdade. Logo consegui um estágio perfeito para quem estudava de manhã. O estágio na emissora de tevê começava só após o almoço e seguia madrugada adentro, fosse nas gravações de shows e eventos fosse nas geladas ilhas de edição, para onde eu levava muito café e chocolate. E tinha as gravações nos sábados, domingos e feriados. Lembro de chegar em casa após a primeira semana com aulas na faculdade, produção, captação e edição de shows e me deitar no chão da sala mesmo, braços e pernas espalhadas e olhos fechados, achando que dali nunca mais sairia. Já não morava mais com meu pai, mas me fiz a pergunta: será que agora sei o que é o cansaço? Ah, os nossos limites que sempre se alargam.

Terminei a faculdade, continuei trabalhando nessa emissora, depois mudei, era produção de tarde e de noite, edição na madrugada, um pouco de sono pela manhã, programas ao vivo nos finais de semana, fui assaltada em São Paulo, comecei a ganhar uma síndrome de pânico, resolvi estudar Direito e voltar para o interior, dei mais aulas de inglês, logo já veio o estágio na advocacia, depois a chance de estagiar em escritórios maiores na capital, não quis mudar de escola, estrada todo dia, estágio de manhã e à tarde, faculdade à noite, poucas horas de sono, achava que já sabia o que era cansaço, mas não, meu pai tinha razão, eu não tinha nem trinta anos, dava até tempo de fazer ioga, me formei, continuei no escritório da capital, casei e voltei para São Paulo de vez, onde nasceram meus filhos.

Meu riso agora (que você não está vendo, mas que está aqui no meu rosto) é de nervoso. O que eu achava que eram poucas horas de sono até então era, na verdade, um banquete. Eu ouvia as amigas falarem que com um bebê em casa a gente mal conseguia tomar banho e não conseguia imaginar como isso era possível. Afinal, o que tanto faz um bebê para impedir a mãe de um banho? (Meu riso agora cresce e sinto até palpitação). Lembro da primeira vez em que consegui lavar e secar o cabelo, meu filho com uns três meses, e da sensação de que, talvez, talvez um dia, mesmo que longe, eu teria minha vida autônoma de volta.

Meu filho mais velho não tinha nem um ano e meio quando nasceu o segundo, o bebê que chorava de três em três horas para comer, feito um relógio suíço programado por um alemão. Lembro de me deitar às vezes na cama, olhar para o marido e dizer: não é possível que esse cansaço que estou sentindo exista. Mas era, e eu o sentia. E isso que eu tinha marido, ajudante em casa, mãe, irmã, cunhada e sogra a postos, amigas, dinheiro para pagar a maioria das contas, a dos médicos incluída. Eu chorava no banho para dar um alívio ao cansaço e pensava nas tantas mulheres e mães como eu, só que sem a minha sorte e os meus privilégios. Passei a entender tantos comportamentos, mas tantos…

Sim, o cansaço foi se transformando em pânico que se transformou em depressão, que fica para outro dia, outra história, tantas outras histórias, mas meu pai me olhava e já não me falava que eu ainda não sabia o que era cansaço. Até porque sabia o que podia vir se falasse. Já enfrentou uma mãe exausta? Então.

Assim como não me falou dias atrás, quando cheguei para passar uns dias com ele e minha mãe, carregando filhos, sacolas, livros, apostilas, malas, mochilas de escola com as lições vencidas e vincendas, computador para as aulas, cronograma de cada um, mais o meu, revezamento de computador e celular para todo mundo poder fazer o que tem que fazer pela tela, agora você tem aula, depois é a minha reunião, mil e quinhentas mensagens no Whatsapp a cada duas horas, agora quem tem aula é você, depois eu dou aula, enquanto eu dou aula ninguém me chama peloamordasdeusas, e depois das aulas saiam da tela, nosso cérebros vão derreter e nossos olhos ficarão quadrados, não é possível que isso vá acabar bem, mas, mãe, a gente sai da tela e vai pra onde agora? Nós também estamos cansados, mãe.

Não. Não digo para eles que ainda não sabem o que é o cansaço. Dou um abraço, me permito chorar um pouco. Estamos todos muito cansados, eu digo, vamos fazer o possível, fazer o que dá para fazer agora, pegar um livro cada um, por exemplo, deitar juntos na cama, cada um com seu livrinho, uma viagem individual que pode ser compartilhada, leio um pouco e te conto um pouco, você lê e me conta, e a ficção vai entrando e conversando com a realidade, o que é uma e o que é outra, e o corpo vai esquecendo do cansaço, a cabeça vai para longe e volta, vai e volta, e tem risada e tem mais choro e estamos juntos – estamos juntos.

O que acham dessa ideia, hein?

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Cinco caixa-lotes e um abraço

Nunca precisei estudar muito Língua Portuguesa e História para tirar boas notas na escola. Eu prestava atenção porque gostava das aulas. Sei lá como isso se dá. Só sei que me lembro perfeitamente das aulas de alfabetização, mesmo com a vovó viu a uva. Para cada letra do alfabeto minha professora criou um personagem. Fez os desenhos no papel, pintou, plastificou e colou cada um em um espetinho de madeira de churrasco. Uma espécie de fantoches. Lembro que a letra “b” era uma bailarina. O corpinho delgado era a parte alongada do “b”. E um dia a bailarina se encontrou com o índio, corpo magrelo como o da letra “i” e juntos foram passear num “bi”. Fiquei maravilhada com esses encontros que de bi viraram bicicleta, bisteca, biblioteca e por aí vai, por aí fui.

Nunca tive dificuldade para entender a crase. Artigo mais preposição (sei ainda de cor toda a lista das preposições) sempre fez sentido para mim, assim como as frases subordinadas. Adorava fazer análise sintática. Com História era a mesma coisa. Não entendia o sofrimento das amigas que não entendiam História. Nem sei se um dia achei que havia algo para ser entendido, mas não é divertido saber o que aconteceu, como aconteceu? Não, muitas me diziam. E trocávamos lições e trabalhos de História pelos de Matemática e Física. Até hoje não me conformo que eu precisava ficar calculando quando o carrinho A encontraria o carrinho B na estrada X se A estivesse a sei lá quantos quilômetros por hora e B blá blá blá. Uma hora encontra, professora, eu queria dizer, e aí faz tchauzinho e tá resolvido.

Cheguei a tirar meio em uma prova de Física. Meu pai, depois de se recuperar do quase enfarto, disse que o meio ponto foi por eu saber meu nome (hoje talvez nem isso eu conseguiria). Mas a professora me chamou e me fez uma proposta: se eu te der uma nova prova, você estuda? Porque ela percebeu que eu realmente não estava nem aí para a Física. Aceitei a proposta, honrei a chance e tirei dez. Mas meu sangue continuou só borbulhando pelas Humanas. Se acho importante passarmos por tudo? Claro. Me arrependo de não ter estudado mais Matemática e Física (e Biologia também, vai)? Não. Mas a vida, ah, a vida…

Se a crase fazia sentido para mim, o mesmo não se dava com as operações com frações, por exemplo. E a pandemia me pega com um dos filhos bem nesse momento na escola. Por que, minhas deusas, eu preciso rever a soma, a subtração, a divisão e a multiplicação de frações próprias e impróprias? Impróprias são as palavras que eu tenho vontade de falar para o meu filho que me pede ajuda e que não tem nada a ver com o fato de ter uma mãe constituída inteiramente de Humanidades. E tem o outro que está aprendendo divisão e não usa mais chave para armar a operação. Tantos anos tentando fazer as contas armadas e agora não me servem de nada.

Hoje entendo minha mãe, que também não podia me ajudar com o método ultrapassado com o qual tinha aprendido. A gente envelhece de várias formas. Tenho vontade de me jogar aos pés de minha mãezinha e pedir perdão por tudo o que pensava quando ela não conseguia me ajudar. Talvez eu faça isso quando pudermos (se pudermos) encostar nas pessoas novamente. Talvez eu peça perdão por isso e por tanto mais, já que ela foi uma mulher adulta dedicada integralmente aos filhos e à casa. E não nos matou. Nem mesmo nos causou grandes traumas. Que feito! Não tem salário de CEO que pague essa trabalheira, mas isso fica para outro dia.

Por ora, olho minha pilha de livros para ler, o que tanto eu gostaria de fazer após todo o trabalho feito, enquanto aprendo a usar caixa-lote na divisão. Para cada caixa-lote, umas dez ou vinte páginas a menos na minha vida. Para quem é mortal e ama ler como eu, é muita coisa.

PS: termino agora de revisar esse texto. Meu filho mais novo entra no quarto: obrigado, mãe, por me ajudar com a lição de Matemática. Vinte páginas a menos, mas valeu a pena. Ah, a maternidade.

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Mais uma semana no país do passado

Estou me sentindo meio Regina Duarte, o que é horrível. Não, na verdade não é bem Regina Duarte. Porque ela tinha tantas coisas bonitas para falar. E eu não tenho. Ou até tenho. Começou a primavera e não foi sem alegria que percebi que a Terra, mesmo plana, continua girando e as flores entendem que uma estação nova começou. A luz do sol incidiu no gramado, um passarinho veio procurar o resto do meu lanche, uma árvore cujo nome desconheço amanheceu com a copa roxa e eu vi beleza em tudo isso. Vi. Eu juro. E até suspirei. Vi meu filho desligar a tela e andar de bicicleta. Suspirei também. E quase chorei.

Mas tudo isso não basta. Não tem bastado. As mortes ainda são muitas. Milhares. Teve o sete de setembro e o vírus CDF nem ligou para o feriado e foi trabalhar, que coisa! E nem só de COVID se morre nesse país. Os jovens negros nas periferias, por exemplo, continuam morrendo. A última estatística que temos é de 1 morte a cada 23 minutos. Não escrevi errado. Mi-nu-tos. E teve onça pintada nos olhando pelas telas com o olhar de quem morre aos poucos e sem amparo. Porque é assim que se morre no Brasil. Teve céu amarelo de tanto fogo. E aldeias queimadas e indígenas sem ter para onde ir (do pouco que já lhes resta) e parece que essas mortes vão grudando na pele e me pesando e me impedindo o sono e o descanso e a paz e a higiene e a vontade de sair da cama de manhã. Tudo tão seco que nem chorar mais tenho conseguido.

A internet por aqui também continua funcionando, ou melhor, quase sempre, o que é uma coisa boa também em época de isolamento, não? Apesar de que essa semana liguei quase chorando para o suporte da escola das crianças. Porque teve hacker-hater invadindo a aula das crianças. Sim, teve. E tivemos que mudar todos os acessos das crianças e na minha cabeça já não entra mais informação nova e sobrou para o rapaz do suporte que não sabia se me orientava ou me consolava.

E soube de mais invasões em congressos e aulas e seminários e palestras. Xingam as feministas. Xingam quem fala contra o racismo. Xingam quem se preocupa com a situação das pessoas encarceradas. Xingam quem luta contra a violência contra a mulher. Ah, é. Porque isso também não só continua acontecendo como também piorou. Mas xinga-se. Não basta não se preocupar com essas causas. Não basta querer que tudo continue como está ou sempre foi. É preciso ainda impedir que se lute contra toda essa violência. E impedir com mais violência. E não há ficção que resolva porque a boa ficção é boa justamente porque não é alienante. Por isso também o medo dela. Xinga-se quem defende o direito à leitura de literatura. Acaba-se com os programas existentes. Houve até reescrita de histórias para crianças. Porque agora tudo deve ser edificante na literatura. O país, que já era um grande cemitério, tornou-se também um crematório. Mas a literatura, veja bem, não pode mostrar as maldades. Somos tratados como grandes estúpidos incapazes de associar fome com bolacha.

É… eu até queria falar de coisas bonitas. Quem não queria, não é, Regina? Mas se os olhos estão abertos e se há ainda alguma ética, não dá para silenciar. Posso ser ficcionista, mas não sou uma mentirosa ardilosa, o que também teve esta semana.

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Verde é a cor da grama onde não pisamos mais

Acordei até que animada para uma reunião que teria logo cedo, o primeiro compromisso do dia depois de acordar os filhos e verificar o que iriam comer e se já não estavam atrasados para as aulas. O mais novo está em semana de Olimpíadas-virtuais-com-cara-de-gincana-mico e depois de termos gravado um vídeo, na noite anterior, em que simulávamos os movimentos do nado sincronizado no seco, ele me pediu para ajudar na composição de um grito de guerra com gravação de novo vídeo. Eram sete da manhã, verde é a cor da equipe do meu menino e mesmo xingando a ideia da escola, por mais que um lado meu entenda todo o esforço e até agradeça muito, não resisti à carinha dele me pedindo ajuda. Só eu poderia passar ridículo com ele, eu que já dancei o créu em um barquinho cheio de turistas na República Dominicana, o que fez meu filho corar ao se lembrar da cena, ao mesmo tempo em que confirmou a certeza de que eu passo ridículo rindo e seria a companhia ideal para a gravação do grito de guerra. Sete da manhã e pulei da cama, “claro que te ajudo, filho”, e me vesti toda de verde, vestido, colar, brincos e achei exagero os óculos, mudei para os de aro roxo, aprendi o grito com ele – ele que inventou, ensaiamos, igual ao ensaio do nado sincronizado no seco, trancados no banheiro para o pai e o irmão não verem, eu toda no verde e já pronta para a reunião que viria em seguida, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, verde é a cor da grama…, vi os vídeos com as outras mães, mães me comovem, cada coisa que fazemos, cada coisa que nossas mães fizeram por nós, rindo e sorrindo, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, acabou, ufa, o vídeo ficou bom, ele gostou, abri o computador para ir para a reunião, é assim que vamos agora, abre tela, fecha tela, abre tela, fecha tela, e atravessamos quilômetros. Essa semana fui até Angola, ouvi Ondjaki falando, outras pessoas de Angola e em Angola ali, na minha tela, a literatura em torno de nós, precisei ler Ondjaki para poder dormir – meu corpo é assim, se não lê pelo menos algumas páginas por dia não dorme à noite, roda roda roda na cama, e eu sei que é o livro que ficou faltando, então não resisto, assim como não resisti ao meu filho . E abro o livro e leio, às vezes atravesso a madrugada e ela não se torna mais um sapo boi gigante querendo me devorar. Às vezes poucas linhas fazem com que meus olhos se fechem e meu corpo se acalme, e essa noite foi assim, poucas páginas, e eu toda no verde com óculos roxos, cadê o link?, cadê o link?, outra pergunta que não aguentamos mais, cadê o link?, você tá mutado; caiu?, acho que caiu, voltou!; e dá um aperto, uma vontade de gritar que não farei mais nada a distância, mas tanta coisa melhorou a distância, e a reunião não era hoje. Acordei adiantada. Estou verde, brinquei com os outros participantes pelo Whatsapp, alguns achando que tinham perdido a reunião que era só amanhã diante da minha confusão. Mas amanhã estarei madura. Espero.

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