Categoria: Palavreiros

Seção com crônicas de convidados do blog

Fui ali ser feliz…

Saiu.

Foi assim, sem aviso ou despedida, que ela não mais voltou.

Antes, havia revelado para poucos que estava muito doente. Sofria de ódio. Disse que era uma dor infame que lhe aplacava todos os dias e que não sabia se começava nela ou se era algo que vinha no ar.

Na memória vinham cenas de momentos em que havia se sentido depreciada e diminuída, excluída e desamparada. Disse que essa dor foi, e é, terrível e que gerava nela algumas reações (não era bonito).

Contou ainda outros episódios em que suspeita onde pode ter ocorrido a contaminação. Mensagens. Foram muitas mensagens e posts.

Às vezes, contou ela, “podia perceber algo diferente em meu corpo ao ler. Meus olhos abriam mais do que o necessário, sentia um aperto no peito e o estômago ardendo. Travava os dentes e notava as narinas com abas mais abertas.”

Mas achou que não era nada. Com o tempo foi perdendo alguns movimentos. Ir e vir já não era tão fácil. Se sentia um tanto acuada. A voz começou a se tornar mais fraca. A garganta doía, a cabeça pesava e seu grito ficou mudo.

Perdeu coisas, como pessoas que chamava de amigos. Outras que chamava, parentes. Gente que não se importou com as dores que lhe causavam.

Confusa, não sabia se o que sentia vinha de fora ou de dentro. No primeiro momento, estava certa de que a contaminação havia lhe tomado inadvertidamente. Ela se sabia saudável e tinha todos os exames em dia.

Ingênua, não havia notado que o vírus do ódio é algo que vem programado em todos e que é sistêmico. Atinge fortemente, nesse momento, todo o país, quiçá o planeta, e faz parte de uma faceta humana.

Depois de algum tempo, ela se deu conta de que a doença que tomava como sua já era uma epidemia e os jornais falavam sobre vários casos de morte. Todos os dias as notícias traziam situações de ataques e contaminações.

A dor foi se ampliando e, aos poucos, se tornando insuportável.

Num domingo de sol, já torpe e surda, veio a decisão inadiável. Rompeu com os grilhões do medo de não fazer parte do sistema e saiu.

Determinada, decretou: Vou ser feliz!

P.S. 1: Pensou em si mesma. No entanto, a decisão agravou os sintomas de alguns. Episódios de inveja aguda foram relatados ao ouvirem-na cantar suas raízes: “Quem é que sobe a ladeira, do curuzu? […] Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade / Como é que é? / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade.”

P.S. 2: Terminou dizendo: “Fui. Beijo, me liga”.

 

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Quem são eles?

Em algum momento, lá onde as tribos nômades começaram as batalhas por territórios, aprendemos um conceito equivocado que até hoje guia a humanidade. Nós OU eles. E nós somos sempre os bons, nós somos sempre os certos, nós somos os melhores e mais bem intencionados. Nós somos os escolhidos que sabem o caminho melhor do que os outros.

Bad news!

Assim como não existe jogar o lixo fora porque não existe fora desse planeta, não existem eles.

Eles todos somos nós. E todos nós temos as mesmas necessidades de pertencimento, de amor, de compreensão, carinho, de conexão.

Todos nós temos necessidade de nos sentirmos respeitados.

O mundo está em convulsão. Terremotos, manifestações de indignação e revolta, tempestades, inundações, vulcões acordando… e um clima extremamente tenso no ar.

Isso acontece no panorama externo para que tenhamos atenção ao interno. A violência interna (e tudo o mais que estiver guardado em nós) gera a violência externa. Quando nos alimentamos de cenas, palavras e pensamentos violentos criamos essa atmosfera. Isso é lei, uma lei hermética chamada ressonância.

Não importa se acreditamos ou não. Lei é lei. Como a lei da gravidade, não vemos e, para que ela aconteça, não precisa acreditar. O que está em cima está embaixo, assim como o que está dentro está fora.

Como disse uma amiga (Andrea Honaiser) hoje em seu post, “tem horas que, se não existe nada de bom a acrescentar, melhor calar”.

Nesses tempos acirrados entre o bem e o mal, entre bandidos e mocinhos, vejo a exaltação da violência feita sem a menor responsabilidade nas redes sociais. Conhecidos, amigos, parentes, que antes não verbalizavam suas posições extremas se regozijam ao rivalizar com outras pessoas, muitas vezes, apenas para destilar ódio e vingança. Têm um prazer em inferiorizar o outro, em apontar as falhas, diminuir, em se colocarem como os certos da história seja ela qual for.

Bad news! Não existem “eles”.

“Eles” todos somos nós.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Tão simples que parece complicado

José Eduardo Gomes de Carvalho*

A ansiedade digital do século 21 fez da gente comum que sonha em ser feliz um alvo fácil para processos estressantes de sobrevivência, que geram pessoas crispadas e agressivas – e, portanto, infelizes. Daí que é automático concluir que a busca pela felicidade mais parece uma lenda. E o próximo passo é virar mito.

A desenfreada procura do ser humano pelo prazer e pela satisfação, ou pela felicidade, enfim, é tão antiga quanto a descoberta do fogo. É verdade que, em certos momentos de nossa vida, falar de felicidade parece um delírio diante dessa necessidade de terminar cada dia, cada mês, mas retomar essa busca sistematicamente pode ser uma saída para os males imediatos, nem que seja por míseros instantes.

Sábios pré-socráticos, filósofos de todas as correntes, acadêmicos e religiosos de vários matizes tentaram ao longo dos séculos dimensionar e tornar palpáveis fórmulas de felicidade, segredos da busca pela realização pessoal e pela convivência feliz. Foram esforços, na maioria, em vão, incluindo as peripécias dos milhares de picaretas da autoajuda, praga típica do mundo contemporâneo, instantâneo e fugaz.

Pois um psicólogo norte-americano, Daniel Gilbert, desconstrói alguns dogmas e derruba barreiras seculares para elaborar um plano de felicidade que não requer habilidades especiais nem grandes posses materiais. Gilbert, além de tudo um exímio argumentador, não se baseia em suposições, mas em minuciosos estudos de comportamento que tornaram as conclusões de suas pesquisas um conjunto de observações com alicerces na Ciência e não em pirotecnias impalpáveis.

PhD em Princeton e professor de Harvard, 60 anos, este pesquisador que abomina os manuais de autoajuda transformou-se num concorridíssimo consultor internacional de vários segmentos, em especial depois do mais lido de seus inúmeros livros publicados, que no Brasil, aliás, recebeu um título empapado de autoajuda, “O que nos faz felizes” (Editora Campus-Elsevier). No original se chama “Tropeçando na Felicidade” (Stumbling on Happiness).

Gilbert não faz suposições nem análises subjetivas. Seus levantamentos são diretos, atingem os alvos sem muito trololó, como a pesquisa com cinco mil pessoas de todas as idades e classes sociais que respondiam coisas como “o que faria você feliz neste exato momento?”, após um telefonema de surpresa – no trabalho, de madrugada, durante as férias. Para o cientista, não se trata de desprezar o que já foi feito por grandes cérebros da história. Ele preza demais, por exemplo, as distintas correntes hedonistas, que basicamente defendem a “felicidade que é simples”, a realização do indivíduo com as coisas básicas a seu alcance e sem nenhum malabarismo financeiro. Mas pondera que os estudos acadêmicos do mundo moderno, individualista e tecnológico, foram revelando, nem sempre para o bem, as atitudes de pessoas de todas as idades, crenças e situações sociais.

Do ponto de vista científico, que é o que interessa a Gilbert, é possível detectar perfeitamente, com os instrumentos à disposição dos estudiosos, o que é o conceito de bem-estar que mais se aproxima do mundo real. E as conclusões apontam para um panorama de surpreendente simplicidade para que a maioria das pessoas se sintam de fato felizes.

Nos resultados da equipe do especialista, quatro pontos são levantados como fundamentais para se atingir um estado seguro de felicidade: exercício físico, conversas/reuniões com amigos, música e sexo. São atividades que elevam corpo e espírito a um patamar de satisfação suficiente para compensar, com lucro, as mazelas da vida e abrir caminho para o equilíbrio pessoal.

Todos os outros itens eram de alguma forma ligados aos temas principais, tais como viajar, passear e conversar com os filhos, curtir os animais de estimação, consumir a comida preferida.

Do escopo da pesquisa não constavam questões nem respostas de alta especificidade, mas coisas como dinheiro, poder/prestígio, uma casa na praia, consumo exagerado ou um carrão da moda pouco apareceram quando as pessoas se referiam à felicidade duradoura.

Nas conclusões do grupo de Daniel Gilbert, o que ficou de mais representativo foi que todos os quatro requisitos para ser feliz podem ser atingidos a custo zero. Ao contrário, ficaram em segundo plano grande parte dos prazeres efêmeros/materiais, estes, sim, que podem custar o olho da cara.

Trata-se da velha diferença entre ter e ser. Tão escandalosamente simples que até parece complicado. É ou não para se pensar?

 

* José Eduardo Gomes de Carvalho é jornalista, “explorador do mundo”, mentor e amigo para toda a vida


 

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O Noivo ‘Bafudo’ **

FERNANDO BRAGA **

Domingo, meados dos anos 1960, Carlos ia almoçar pela primeira vez na casa de Carmem Lúcia. Pensava em casamento.

Desceu a Duque de Caxias e, ao chegar na Luiz da Cunha, parou na cancela do trem. Era a única ligação do Centro da Cidade com a Vila Tibério.

“Maldita porteira, tinha que fechar bem agora!”, lamentou.

Uma locomotiva a vapor, conhecida como Maria-Fumaça, fazia manobras pelo pátio da Estação da Mogiana. As “porteiras” interrompiam a passagem de veículos e pedestres. Os mais apressados corriam pelo túnel malcheiroso que passava por baixo da linha férrea. A maioria aguardava o fim das manobras.

Carlos, impaciente dentro do seu “Gordini”, pensava que poderiam não gostar do seu atraso. Mas, na verdade, o que o incomodava mesmo, era o fato de ele ser torcedor do Comercial, e ser “bafudo” era considerado um crime pelo pai de Carmem Lúcia. Ela aceitava a preferência do seu amado, mas pedia para Carlos guardar segredo.

“É melhor não falar em futebol”, dizia ela.

“Aqui nesta casa não tem ‘bafudo’…”

“Seu” Pedro tinha orgulho de dizer que naquela casa só entravam produtos da Antarctica, fabricados na Vila Tibério, e que ele, embora filho de ferroviário da Mogiana, sempre trabalhara na cervejaria. Orgulho maior era dizer que toda a família era composta de botafoguenses.

“Graças a Deus não tem nenhum ‘bafudo’ aqui”, dizia, atrás de um bigodinho bem aparado.

Carlos passou pelos bares da Luiz da Cunha, todos lotados, e virou na Conselheiro Dantas. Passou em frente ao Grupo Escolar Dona Sinhá Junqueira, ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário e virou na Santos Dumont, na esquina do Bar do Paciência.

Enfrentando o sogrão

Parou em frente à casa com um pequeno alpendre e desceu, enxugando o suor, provocado pelo forte calor e pela ansiedade.

Carlos foi recebido por Carmem Lúcia e seu irmão, um jovem com seus 16 anos. Entraram e “seu” Pedro foi logo oferecendo um copo de cerveja. A mãe, dona Lurdes, veio cumprimentar o rapaz e voltou logo para a cozinha, acabar o almoço.

“Seu” Pedro foi logo inquirindo sobre o que fazia e qual time torcia. Carlos contou que trabalhava como vencedor em uma loja e que não ligava pra futebol.

“O quê? Não gosta de futebol, pois hoje tem Come-Fogo e você vai comigo ver o que é um time de verdade”, afirmou.

Carlos não teve outra alternativa. Depois de uma farta macarronada com frango e muita cerveja, foi com o “sogrão” e o “cunhadinho” para o Estádio Luiz Pereira, a alguns quarteirões dali.

No Come-Fogo

O Botafogo ganhou por 5 a 2, com gol de Laerte, dois de Antoninho e dois de Geo. Era um tal de abraços e pulos que não acabava mais. Carlos quase se traiu no gol de Carlos Cézar.

Depois do jogo, “seu” Pedro falou que a comemoração de verdade iria acontecer no Bar Botafogo, do Chanaan Pedro Alem. Lá, centenas de pessoas, todas com cerveja na mão, gritavam eufóricas. Um caixão de defunto apareceu dos fundos das canchas de bocha e imediatamente “seu” Pedro pegou uma das alças e colocou as mãos do “genro” em outra. Virou uma verdadeira procissão com a multidão acompanhando o caixão e cantando: “Dia 13 de Maio, na Vila Tibério, o Bafo apanhou de cinco a zero; Ave, Ave, Ave Maria…”.

Carlos, segurando uma das alças daquele fatídico caixão pensou: “O que a gente não faz por amor!”.

 

História fictícia baseada em acontecimentos verdadeiros, como a passagem
da porteira, o Come-Fogo e o enterro, que ainda menino, presenciei

 

** Fernando Braga é jornalista e proprietário orgulhoso do Jornal da Vila, da Vila Tibério, um dos bairros mais antigos e tradicionais de Ribeirão Preto


 

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Só não peçam entusiasmo… (*)

JOSÉ EDUARDO GOMES DE CARVALHO **

Consta que não há clima de Copa nas ruas do Brasil. É um dos poucos pontos em que coincidem tanto a minúscula mídia que presta quanto a gigantesca mídia que não presta. Me fio mais nas pessoas que circulam por São Paulo muito mais do que circulei por toda a vida e que são testemunhas de que há mesmo uma indiferença enorme de P. a P. e de J.A. a J.A., de Pirituba ao Pari, do Jardim América ao Jardim Ângela. No Rio, então, nem sinal de Neymar e companhia, muito populares no Twitter e no Instagram, mas sem praticamente empatia com a vida real. No Brasil inteiro, nada de vendas em massa de telas planas, nada de camisas amarelas bombando, quase nada de calçadas e paredes pintadas.

Alguém se surpreende? Só protozoários e amebas.

Quando a manada começou a agir para transformar as instituições brasileiras em um depósito de dejetos há pouco mais de quatro anos, quem tinha um pingo de consciência social – infelizes que somos – já vislumbrava uma falta de perspectiva que destruía toda a capacidade de alimentar alguma esperança. Só não sabíamos que aqueles movimentos claros de deterioração eram só uma sensação térmica de fundo do poço: o fundo do poço de verdade não chega nunca.

Vamos fazer nosso papel de sujeito médio, com um mínimo de capacidade de reflexão e que é apaixonado por futebol. Essa pessoa acorda todo dia, se é que conseguiu dormir, e tenta projetar como serão suas próximas horas. Nesse trabalho insano de tentar manter o equilíbrio no cotidiano, busca uma saída diante do que tem visto: “Farsantes, golpistas, facínoras com poder, perseguição ideológica, a sociedade em decomposição…. Já deu, né?” Mas não deu, parece que nunca dá, porque a manada descobre sempre um jeito de piorar. Que lugar tem hoje a euforia provocada pelo futebol nosso de cada dia nesse contexto?

Mais para ‘Mad Max’
Mesmo o sujeito que raramente reflete, e que sequer cogita que é possível viver em comunidade de forma civilizada, está levando bordoada de todo lado. Esse tipo faz parte dos milhões de estúpidos que foram para as ruas pedir a destituição/prisão/linchamento de gente inocente e que, agora, não podem se eximir da crua verdade: são os  diretamente responsáveis pelo buraco em que o país foi jogado pelas criaturas que eles produziram. Esses que agora dizem “não era bem isso que eu queria” também estão longe de entrar na vibe de uma Copa do Mundo. Neste momento, aliás, estão mais para Mad Max do que para Shangri-La, nem conseguem imaginar como vai ser o amanhã, se vai ter água, se o ônibus vai circular ou se o carro vai sair da garagem, quanto mais sonhar com o mês que vem.

Não digo que o futebol, com sua capacidade aglutinadora e poder de acender paixões, não opere milagres. Pode até ser que, por alguns instantes, a Copa faça o papel de anestésico para uma sociedade doente, fraturada e transtornada, um amontoado de gente que é réu e ao mesmo tempo vítima da avacalhação geral em que se transformou a nação. Mas que ninguém se engane: o momento hoje nada tem a ver com a Copa que a ditadura militar tentou capitalizar em 1970, gestando uma euforia artificial. O país dos Dorias, Moros e Bolsonaros não tem minimamente o perfil do Brasil que os militares controlavam à base de tortura e repressão. Hoje, a ditadura vem das entranhas da sociedade civil, é uma ditadura orgânica e terminal, uma serpente de várias cabeças, cercada por gremlins que se multiplicam conforme a mediocridade avança. Não é um monstro que cresce nos quartéis, mas um câncer generalizado, que invadiu as esquinas, os bares, as escolas. Não há ideias, não há projetos e os últimos bastiões, como o Judiciário, já não garantem nada e se aparelharam como instrumentos ideológicos de punição implacável a uns poucos.

Neste panorama podre e repugnante, pouco podem fazer os rapazes de Tite, até porque esses moços recebem centenas de milhares de euros todos os anos, vivem no universo paralelo que é hoje o futebol de elite e em matéria de consciência social são basicamente uma lástima.

Vou assistir a Copa da Rússia com gosto, você provavelmente também, como boa parte dos brasileiros, estúpidos ou não. Mas não peçam entusiasmo, por favor.

 

(*) Crônica originalmente publicada no site ChuteiraFC/CartaCapital

 

** José Eduardo Gomes de Carvalho é jornalista, “explorador do mundo”, mentor e amigo daqueles que são para sempre


 

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Memórias do Cárcere I

CORDEIRO DE SÁ *

Nessa onda de apocalipse zumbi dos caminhoneiros (a quem eu apoiei até apoiarem a Ditadura Militar), ando preocupado com a batata da papinha da minha filha e com as batatas que a mãe dela precisa para se transformar em leite. Ponto. No mais, me viro. Se precisar ir a pé, tô de boa. Se precisar fazer dieta, tô precisando. Mas, claro, também aproveito para cuidar da vida dos outros…

Estava no Pão de Açúcar abastecendo o carrinho, pensando na logística do que estraga antes, do que estraga depois, para comprar tudo numa certa ordem de consumo e cuidando para não levar demais, pois o espaço em casa é pequeno. Enquanto pensava, via tudo esvaziar –  aqui na zona Sul a coisa foi rápida, já que o pessoal tem tutano e dispensa grande.

(Nesse ponto, preciso informar que eu moro na zona Sul, ok, mas não nasci em berço de ouro e trabalhei na perifa muito tempo, com o pé no barro mesmo. Por isso, eu sei bem o que é comer milho até o sabugo para não ficar com fome depois.)

Voltando ao Pão de Açúcar, estava eu lá tentando dar uma de herói de filme do Romero, quando me senti numa comédia italiana. Uma senhora bem cheirosa passou por mim, pegou uma peça de uns dois quilos de filé mignon daqueles maturados, selados com grife, duns 70 mangos o quilo, e entregou a carne para o açougueiro mandando moer… e remoer!!!

O rapaz ficou sem graça: “Moça, se eu remoer, a carne vai ficar toda na máquina. É muito molinha!”. Ela fez que tudo bem e explicou: “Sabe, rapaz, é que eu preciso muito fazer um molho. Será que dá?”

Fui para casa triste. Triste com a situação do país, triste com a ignorância das pessoas, com os caminhoneiros dominando o mundo e depois achando que os militares é que são a solução e ainda mais triste em pensar naquele filezaço virando molho à Bolognesa.

Dois dias depois, fui salvar a Dona Maura da fila do busão e acabei num mercado da Zona Oeste. Tinha tudo por lá, até as batatas! É que sem bufunfa, penso que o povo não pode sair descontrolado enchendo as dispensas. Parecia um oásis. Juntei as coisas que me faltavam e saí de lá com uma iguaria sem igual: dois gomos de meio metro de linguiça Cabo-de-reio! Dona Maura já estrilou: “Não me faz isso na frigideira, que vai sujar a casa toda!”. Ela tinha razão, mas eu acalmei sua fúria ao suborná-la com metade da linguiça.

A iguaria está aqui na geladeira, aguardando a fila logística para ser degustada. Será feita inteira, sem moer, claro!

 

* Cordeiro de Sá é ilustrador, professor universitário, marido da fofíssima Ana, pai da
linda Lúcia e geek com muito orgulho


 

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Sobre rolimãs e meganhas

RENATO ANDRADE *

Era preta e branca e depois ganhou esse laranjão vivo. Moderno.

No começo dos anos 1970 era possivelmente um dos símbolos mais aterrorizantes da repressão. UCom os meganhas de rayban e braços à mostra na janela, a chegada da viatura quase sempre impunha o sentimento de medo e obediência. Polícia era polícia. Ponto.

A construção do bólido partia quase do nada, ou melhor dizendo: não existia loja especializada, manual e muito menos um site ou tutorial de apoio. As várias construções em andamento no bairro ainda nascituro fornecia madeiras, tábuas, ripas, vigas, caibros, chapas e mais uma infinidade de materiais a serem “emprestados”.

As rolimãs já exigiam conexões mais específicas. Uma oficina do tio daquele carinha novo na rua. Aquele desmanche quase em outro estado onde uma excursão de belina seria organizada.

Comprar novas só em caso extremo, e engolindo o certificado de incapacidade.

A ajuda do pai, irmão mais velho, amigos, tio, primo ou outro elemento com mais destreza e segurança no manusear do ferramentário, claro, era sempre muito bem vinda.

Quem vê hoje um desses prontos sendo vendidos em loja acha que a empreitada não exigia muitos segredos. Procurem um projetista automobilístico, “assuntem” sobre todas as variantes mecânicas, aerodinâmicas, de design, materiais… e depois tentem transferir todas as informações prum moleque de 10 anos há 45 anos atrás. Era tudo na unha (muitas vezes martelada) e na raça.

Depois de pronto, o teste na rua.

O som das rolimãs deslizando pelo asfalto (impressão ou não existiam tantos buracos?) fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado. Pinturas customizadas não eram muito comuns, mas um colante STP sempre fazia bonito.


O som das rolimãs deslizando pelo asfalto fazia qualquer ronco de F1 parecer um liquidificador engasgado


As corridas. 10, 15, 25, 35… acho que ninguém contabilizava os participantes. Essa mania de precisão numérica deve ter vindo depois. O importante era a vibração na rua e o som…

Aaaaah o som!

Vivo, encorpado, selvagemente metálico e assustador!

Daqueles que quem sentiu – pois era um som pra ser absorvido por todos os poros e sentidos do corpo humano – nunca mais esqueceu.

Mas sempre tinha um morador que se incomodava com essa rascante sinfonia. E aí chegava o camburão lá de cima.

Falei em medo e obediência?

A molecada jogava os carrinhos dentro dos altos matos do entorno, quase florestas. E se divertia vendo os homens da lei adentrando na busca e apreensão. Invariavelmente lotavam o chiqueirinho com o comboio tão arduamente construído. 

Uma vez um dos pilotos sorrateiramente tentou tirar o adesivo grudado em seu carrinho já acomodado na caçamba. Bastou um olhar do oficial.

Sabe que eu acho que no fundo os milicos se divertiam com a coisa toda?

Eram tempos de chumbo – torturas, terrorismo, desaparecimentos, bombas e sequestros.

Ali, naquelas ruas de um bairro sendo colonizado, numa cidade do interior que poderia até ser chamada de pacata na época, uma molecada reproduzindo Interlagos com direito a derrapagens e sentidas escoriações… agora tenho quase certeza… se divertiam sim.

Por trás dos raybans e fardas acontecia de vez em quando um comentário jocoso sobre a operação em andamento. Todos ríamos: PMs e pilotos. Naqueles distantes dias, até o medo, de vez em quando, tinha motivos para brincar.

 

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De São José a Olavo – A Trajetória de Um Casal Inesquecível

JORGE RODINI *

Um amor de amoreira. E mangueiras, limoeiros e tantas árvores frutíferas naquele pomar enorme que circundava nosso mundo. Cavalos de vassoura “Aiô Silver”, o cinema paradiso, a praça da Igreja, os bancos marcados com nomes das famílias.
E o quadro do São Jorge? Imponente na sala pequena ao lado da Mor. Pilhas de revistas hoje antigas, com fotos de mulheres belas de cabelos armados, de produtos inovadores à época. Na cozinha, um fogão de lenha impecável. Inesquecíveis momentos da velha senhora que sofria com feridas na perna e jamais desistia.
De tempos em tempos, repouso. Mas aquilo só lhe fazia bem quando os netos a paparicavam. E brincavam e escondiam debaixo da cama, agora já na cidade grande. Cama de ferro, fabricado pelo dono do cartório, seu marido, ex-presidente da Câmara da cidade de onde vinham.
Agora, uma casa menor, que abrigava cada vez mais gente. É uma casa árvore, onde a raiz foi se solidificando e gerando frutos e frutos dos frutos e sempre frutos. O portão branco, fácil dos pequenos pularem, o pinheiro que se empolgava, a netaiada que chegava. Na calada do dia, no silêncio da noite. E o senhor da casa árvore, lendo seus jornais, agora já de lupa, com um terno que lhe conferia austeridade, uma credibilidade patriarcal. Terminava as refeições pela salada, fazia contas enormes de somar começando pelos algarismos da esquerda. Era tradicional com o básico, mas liberal com o importante.
Aquele casal, com quadro emoldurado na sala principal, era só um. Único, imponente, humilde. Doce mulher, homem guerreiro. Um sem o outro, só pelos filhos e pelos netos.
Daquela harmonia, uma história fincou na terra. E parece que todos são pautados pela mesma fome de família.
Em todos os 25 de dezembro desde 1966, o Natal é realizado naquela casa árvore, já sem pinheiro, sem portão baixo, sem os donos legítimos, sem um par de tios, sem um par de primos, mas com alegria ímpar. A admiração é de muitos com aquela festa-bagunça organizada na varanda, na sala, na copa-cozinha, no quintal e na calçada. Sem perder a foto do meio da rua.
Cada vez mais família, cada vez menos rua. E a cada novo membro, a árvore, em forma de concreto, cuida e acolhe. Parece que a porta da casa é aberta a cada nova vida que se inicia, pelos que nunca serão esquecidos.
E, lá pelas três, a mesa está servida! Saúde! TIM TIM!

 

* Jorge Rodini é engenheiro, empresário, pai de quatro filhos e avô de quatro netos,
que gosta  de números, palavras e pessoas


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Poesia crônica

SÔNIA MAGGIOTTO *

Hum, e agora?

Por que essa dificuldade em escrever?

Como assim, escrever é o que mais faz no dia!

Então, melhor… o que acontece com essa dificuldade em publicar o que escrevo?

Opiniões, ideias e sensações. Tudo muito rico, muito intenso e muito volúvel.

Sim, descobri!

Sou mulher, fluo com as energias, com o que acontece dentro e fora de mim.

Percebo que escrevo com a alma e depois, assim que termino de ler, já não sou mais essa.

Já sou outra.

Como assim? Outra?

Outras impressões, outras vontades, outros desejos e outros prazeres.

Simples assim! Muitas em uma, uma em muitas.

Tai, Palavreira! Obrigada por me fazer pensar! Um dia eu escreverei algo publicável!

No melhor estilo mendiga

me componho de retalhos, de trapos.

peças que me aquecem, que me colorem e me fazem sentido.

uma sobre a outra. essa sou eu. uma composição de coisas que não combinam

Às vezes com nós, outras ao vento.

Sou feita de retalhos. De

Seda,

Juta,

Barbante e sonhos.

Todos verdadeiros a seu modo, no seu tempo.

 

* Sonia Magiotto é jornalista, empresária, mestre em yoga e palavreira
encantadoramente modesta


 

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O Anjo da Justiça

FÁBIO LUÍS LUCIANO *

Se houvesse um anjo da justiça. Se ele propusesse trazer justiça ao planeta Terra, ele desembainharia sua espada afiada de JUSTIÇA e atravessaria impiedosamente a alegria e a felicidade de toda a Terra. E a começar pelos banquetes extravagantes dos bilionários, passando de puteiro em puteiro, de desfile de moda a desfile de Carnaval, viraria todas as mesas de todos os botecos do mundo, atravessando goela abaixo com sua espada de justiça a felicidade excêntrica do ser humano até restar apenas luto sobre luto, lágrima sobre lágrima. Degolaria impiedosamente a felicidade de cada ser humano da Terra até que este pudesse compreender a gravidade da injustiça, da fome e da miséria do mundo e deixasse de apontar seus dedos alienados para cima se furtando convenientemente à verdade absoluta dos fatos e da realidade da injustiça impiedosa humana em toda a Terra. Traria fome e miséria para toda a Terra de maneira democrática e contundente até que o último poderoso; presidente ou banqueiro, astro ou ídolo, bonequinho e bonequinha fútil de vaidade chorassem de fome como uma criança miserável africana. Até que este monte de carne e osso desalmado que se auto-denomina humano descobrisse o valor da vida acima do ultraje fútil e escandaloso que é vestido de ego, orgulho, arrogância e diversão. Talvez, como no Êxodo, trouxesse consigo o anjo da morte para levar todos os primogênitos de todos os bilionários e multimilionários do mundo para que estes aprendessem na realidade o que é a dor de perder um filho de fome e sede. Certamente este anjo da justiça iria com grande fúria a acabar com toda a indústria fútil do entretenimento do mundo e de todo tipo de cultura inútil para ensinar ao ser humano o que é a vida além da festa, além do comercial, além do ócio e além da diversão. Assim apresentaria ao mundo o quanto trabalho duro é preciso para manter um planeta vivo e equilibrado e assim traria, enfim, JUSTIÇA a todos os animais. Até que o ser humano apavorado e assombrado reduzisse o valor que dá em sua pulsão e desejo, cobiça e vaidade a pó. E assim, quando o mundo inteiro estivesse de luto ao mesmo tempo, na mesma miséria, na mesma fome, na mesma sede insuportável, na mesma hora, no mesmo dia, haveria o retorno de alguma consciência do valor da vida, da razão da vida e da JUSTIÇA na Terra. E assim sacrificando impiedosamente a alegria, a felicidade e a euforia do ser humano, apresentaria a este desumano o que ele tanto clama: “JUSTIÇA”. E ao colocar enfim sua espada de JUSTIÇA de volta à bainha, ao colocar a balança da JUSTIÇA definitiva na Terra, não sobraria sequer um só inocente.

 

* Fábio Luís Luciano é teólogo e aluno do curso de escrita ficcional
de Lucas Arantes, do Espaço
A Coisa, em Ribeirão Preto


 

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