Categoria: Palavreiros

Seção com crônicas de convidados do blog

Um Novo Caso de Amor

CAROL OLIVEIRA *

Quando o ponteiro chegou no 7, o Google enviou um aviso: trânsito intenso na sua área.

Antes que eu levantasse desesperada com a notificação, lembrei que não usava mais o carro e suspirei aliviada.

Olhei pela varanda e vi o Corsinha coberto de folhas de ipê-roxo. Parecia estar num velório, um bonito velório em sua homenagem, que sempre foi muito útil, mas precisava descansar.

Peguei minha bicicleta e segui em direção ao estúdio onde faço aulas de dança. Dei de cara com um dos cenários mais lindos de Brasília: ipês-amarelos contrastando com um grande tapete de folhas secas.

Olhei para o céu, nenhuma nuvem, tudo azul.

Mais algumas pedaladas e pude perceber algumas árvores, as quais nunca havia notado. Suas folhas eram laranjadas e se destacavam em meio a outras totalmente peladas, expondo apenas seus galhos retorcidos.

A sensação foi de felicidade extrema. Daquelas que a gente conquista sem perceber. Depois de anos correndo loucamente para cima e para baixo para chegar a tempo no trabalho, deixar menino na escola, enfrentando engarrafamentos homéricos, finalmente estava me sentindo realizada.

A decisão de estacioná-lo para sempre não foi de repente. Eu estava ensaiando há algum tempo. Fui algumas vezes para o trabalho de bicicleta, mas acabava usando o carro para todo o resto. Ele precisou dar os últimos suspiros para me alertar que não aguentava mais e que uma nova vida nos esperava. Eu ainda insisti. Uma, duas, três vezes, mas ele não resistiu. Morreu ali, em minhas mãos.

Fiquei por alguns segundos segurando o volante, olhos umedecidos tentando organizar os sentimentos. No início senti raiva, logo depois tristeza, gratidão e por fim a aceitação.

Fiz um carinho nele, uma lágrima caiu, sai de dentro, tranquei a porta e parti.

É. Ainda olhei para trás. Mas era mesmo o fim.

Mas veja só! Com a sua despedida pude perceber um mundo novo.

Não vou negar que ainda sinto a sua falta. Sinto! Mas tudo mudou em minha vida.

Gastos com mecânicos nunca mais, gasolina nem pensar, engarrafamentos, não, não.

Claro que para isso ser possível fiz alguns ajustes. Mudei-me para um local mais perto de onde faço minhas atividades, faço meus trabalhos de casa e moro ao lado da escola do meu filho. Assim, conto com caronas, Uber para locais mais distantes e bicicleta na maioria dos casos.

Ah minha bicicleta… Temos tido um lindo caso de amor.

Estou naquele momento de tentar encontrar um apelidinho carinhoso para ela. Tudo muito recente, sabe? Mas o amor tem crescido a cada dia que passa.

Ela me inspira a manter a saúde em dia, promete deixar minhas pernas mais firmes, me carrega para onde eu quiser, me dá tempo para perceber a vida ao redor, me dá uma sensação de liberdade…

Meu ex-carrinho que me perdoe, mas ele me sufocava. Era tanta tensão no trânsito que eu não respirava. Sou grata a tudo o que ele me proporcionou, mas agora a vida é outra.

Hoje sou mais feliz. Eu e minha bicicleta.

A Branquinha ou Bykinha, quem sabe Tchutchuquinha? Acho que Parceirinha é legal. Não… Brisa. Talvez Nuvem, Leve, Maneirinha, Retrôzinha…

 

* Carol Oliveira
Jornalista, artista e mãe do Miguel


 

 

 

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‘Take a photo, my love’

MÁRCIA INTRABARTOLLO *

Máquinas têm sentimentos e, ouso dizer, paixões. Não falo por falar, mas porque vi, e tenho testemunhas, a sedução de uma filmadora e fotógrafa americana em cima de um indefeso alemão.

Pobrezinho, caiu na rede dela e fazia cara de gostosão. O moço nem era bonito, até sem graça para meu gosto, com roupas quadradinhas e reações óbvias. Tinha aquela frieza europeia que incomoda bastante minha verve tropical. Mas convenhamos, essas características devem ser sensacionais para máquinas, mesmo para ela que teve certa vivência norte-americana (corre à boca pequena que ela tinha sido fabricada na China e ido de navio para os Estados Unidos, e depois fora exibida em vitrines de eletroeletrônicos com todas as suas partes à mostra, o que presumo deve ter subido à sua cabeça. Ela, vou falar sério, se achava!).

O nome da maquininha miúda e de tecnologia requintada era Gopro. Cá entre nós, a tecnologia podia ser chique mas a própria era escancarada nas sem-vergonhices. Vocês me darão razão.

Para constar, pronuncia-se goupró, e esse é um detalhe importante porque era ensinada a atender comandos de voz. Para que ela tirasse uma foto, por exemplo, devia ser-lhe dito: Gopro, take a photo. E ela agia.

Apesar de minhas restrições, nos coloquemos um pouco do lado dela. Tirada da China novinha, levada para um país estranho e depois para o Brasil de seus compradores, e mais uma vez embarcada com seus donos e amigos para ser praticamente escravizada… Enquanto todos passeavam de bonés, óculos, protetores, ficava ela sob o sol escaldante sem um chapéu sequer trabalhando sem parar, filmando, gravando, fotografando, inclusive à noite. Não tinha vínculos afetivos, não tinha amigos e vida social zero. Carentona. De modo que, ao ver o alemão com aquele sotaque diferente e frio como uma geladeira deve ter achado sexy e se apaixonado. Arrumou então um jeitinho de declarar seu amor.


‘Para constar, pronuncia-se goupró, e esse é um detalhe
importante porque era ensinada a atender comandos de voz’


Convenhamos que havia outras possibilidades: poderia ter caprichado nas imagens dele, poderia ter se jogado no seu colo várias vezes, engripado e feito de tudo para ele vir acariciá-la. Mas nada disso seria tão explícito quanto o que aquela inteligência artificial maquinou.

A paixão acha brechas, cria ocasiões.

Contrariando o profissionalismo que dela era esperado, a Gopro fechou seus ouvidos para todas as outras vozes e só atendia aos comandos do seu amo e senhor, o frívolo alemão.

Espertinha.

O dono da Gopro queria tirar uma foto, dava o comando, ela nada. Duas, três vezes e nada. Chamavam o germânico e ele dizia todo vaidosinho “Gopro, take a photo” e ela, pi pi pi clique.

Assanhada.

Com o tempo ele até brincava: “Gopro, take a photo”, dava um tempo e completava “my love”.

Foi tentado de tudo. Até chamaram um autêntico inglês britânico, que armou sua melhor pronuncia e entonação para dizer várias vezes “Gopro, take a photo”… sem sucesso. A professora de inglês disse “Gopro, take a photo” inutilmente. Só rolava com o alemão.

Faltava pouco para ele assumi-la, carregá-la a viagem toda com ele, quando alguém resolveu atrapalhar a relação. Sempre tem alguma intrigueira, e essa foi realmente perversa. Arquitetou um plano para tirar os holofotes da sedutora filmadora fotógrafa e ainda baixar a bola do alemãozito. A falsa pediu displicentemente para ele falar com a Gopro, e ele atendeu, deu o comando como quem beija. Ela rapidamente deu seus gritinhos delirantes: “pi pi pi” e clique, fotografou-o.

Mas a vilã destruidora de lares gravou a voz do alemão em seu celular. Bruxa, mas tiremos o chapéu para ela.

A Gopro não percebeu nada, coitadinha.


‘a Gopro fechou seus ouvidos para todas as outras vozes e só
atendia aos comandos do seu amo e senhor, o frívolo alemão’


Passo seguinte: perante todos, a vilã anunciou ao grupo. Pessoal, achei uma forma de não precisarmos mais do amigo aqui para dar comandos.

Corta-me o coração lembrar. Ela soltou o som de seu celular e a pobre apaixonada fez “pi pi pi” e clique. Caiu feito uma patinha.

É preciso registrar o despeito do objeto da paixão. Riu sem graça, como se tivesse sido traído. Como se o amor que ele julgava verdadeiro fosse de fato um amor que não sobe a serra. Desiludiu-se. Disse que não falava mais com ela.

Ela encolheu suas asas de sonho e reduziu seu coração de ching-ling a fracas batidinhas. Perdeu o brilho. Viu-se nada mais do que um objeto, abandonada em seu puro amor que não via limites nem pedia muito. Prometeu que para sempre as imagens dele ficariam gravadas nela. Sabe-se que artifícios usará para não ser descarregada.

Assim chegou ao fim o caso de sedução explícito informatizado, robótico, testemunhado, que valeu para provar que o amor é coisa esquisita mesmo, que paira, dá choques e, estando no mundo desde que o mundo é mundo, ainda rende histórias para contar.

 

(*) Márcia Intrabartolo é jornalista,
escritora nata e amiga do coração


 

 

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A memória de velhas crianças

GUILHERME NALI *

A vida do ser humano, se colocada em um plano cartesiano, seria assim: a linha sairia lá de baixo e iria aumentando até chegar ao ponto máximo. Depois entraria em decadência pura. Biologicamente é o ciclo natural da vida. A gente nasce, cresce, se reproduz e morre. Inevitável. Mas existe uma única coisa no mundo capaz de quebrar esse determinismo. A memória.

Há alguns anos tenho pesquisado muito sobre a memória coletiva ao redor de um acontecimento do passado. Um dos temas foi a Revolução de 1932, em Cássia dos Coqueiros – MG. Para entender o que esse evento histórico significou para aquela população fui atrás das testemunhas oculares da época. Descobri um universo de poucos senhores e senhoras de idade avançada, que eram crianças quando as tropas chegaram à pacata cidade.

Eu sabia exatamente o que perguntar a eles, para levantar meus dados. Mas uma dúvida parecia não ter resposta certa: Como eles se lembrariam de algo que aconteceu há mais de 80 anos? O resultado foi surpreendente.

Por se tratar de um acontecimento traumático para a cidade e principalmente para as crianças, que mal entendiam o que estava acontecendo – muitas famílias fugiram de suas casas com medo de tiroteio no meio da noite -, muitas imagens ficaram gravadas na memória. Mas carregadas de sentimentos do universo infantil.

“Eu passava a noite embaixo da cama. A gente ouvia o zunido das balas lá fora assim: zum, zum, zum”, declarou um dos meus entrevistados. Essa fala, cheia de onomatopeias, é característica das crianças, mas está na boca de um senhor de 90 anos. O passar dos anos, claro, trouxe o sentido que eles não entendiam sobre a revolução, mas a memória permaneceu como foi percebida na época.

Por serem os únicos a ter “legitimidade” de contar a história, todos trazem consigo um sentimento de orgulho.


“Por serem os únicos a ter ‘legitimidade’ de contar a história,
todos trazem consigo um sentimento de orgulho”


Principalmente por terem participado, de certa maneira, de um evento importante do país, do Estado – mesmo que SP tenha perdido a guerra.

A memória, carregada de sentimentos, mesmo que a escala da vida do sujeito já esteja em queda, sempre nos remete ao ponto máximo da nossa história. Assim nos tornamos importantes, imprescindíveis, eternos.

Esse é o sentimento que vou levar dos meus velhinhos, quando eles se forem. Meu avô já não pode andar mais, mas mantém a lucidez e a ternura de sempre. Minhas avós também têm lá suas limitações de saúde. Mas são puro amor, quando estão com os filhos e os netos.

Sempre que posso, peço que eles me contem uma história do passado, de quando estavam fortes, saudáveis, produtivos. E instantaneamente, pelo menos por alguns segundos, todas as dores da vida passam e são substituídas por um sentimento de glória.

Quanto mais histórias de vida nós pudermos contar e ouvir, mais chances temos de admirar o ser humano, principalmente os idosos, tão importantes na nossa vida. Essa é minha maneira de manter nossas velhas crianças vivas pra sempre.

 

* Guilherme Nali
Jornalista, editor e apresentador do
Bom Dia Cidade e Jornal da EPTV


 

 

 

 

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Liberdade

CÁSSIO BIDA *

“Fugi com o circo! Adeus”. Quando leu a frase, Romeu se espantou. Mas, no fundo, sabia porque sua amada estava fazendo isto.

Desde que se conheceram, Romeu e Carmem se encantaram um com o outro. Ele com a vivacidade da moça. Ela com a sensação de paz que o jovem transmitia com naturalidade.

Romeu tinha paixão pela escrita. Gostava, vez ou outra, de surpreender com textos, palavras, frases, citações. Muitas vezes emprestadas de Machado, Cortella e Vinícius. Mas, na maioria, frases escritas por conta própria.

Já Carmem, moça prática, não era de muitos rodeios. Tinha muitas urgências. A principal de todas era viver. Principalmente depois de um Carnaval onde tomou um banho de purpurina. O brilho invadiu a alma da moça que, desde então, passou a ser intensa.

Encontrou em Romeu um rapaz pacífico. Sabia acendê-la, mas ainda faltava algo. Ela queria a paz no amor, mas tinha em si mesma o fogo e a energia da juventude. A delícia da descoberta. Aquela chama de renascimento, típica de uma fênix. Talvez por isto Carmem nunca soube lidar direito com esse negócio chamado rotina.

Romeu, por sua vez, era extremamente organizado. Metódico, o rapaz tinha hora para tudo. Acordar, trabalhar, exercitar o corpo, a mente, a alma. Depois de um tempo, pasmem, até hora para namorar ele exigia.

Carmem, no entanto, era mais flexível. Aproveitava os prazeres da vida nas horas em que bem lhe cabiam. Entendia a importância de manter uma rotina, mas não era bitolada com essas coisas.

A moça gostava de surpresas. E Romeu sabia como presentear a amada nos momentos em que ela menos esperava. Fosse com uma flor, um verso, uma canção ou mesmo uma frase. Entre números de malabares e serenatas, ambos davam seu colorido um ao outro.


Acostumado com a presença dela, parou de investir no relacionamento.
E isto deixou a moça triste em um primeiro momento.
Depois irritada. E, por fim, indiferente.


Até que, em um dia cinzento e chuvoso, tudo foi esmaecendo. Carmem queria ainda acreditar naquele amor. Só que Romeu se acomodou. Acostumado com a presença dela, parou de investir no relacionamento. E isto deixou a moça triste em um primeiro momento. Depois irritada. E, por fim, indiferente.

Foi quando ela tomou uma atitude drástica. Na calada da madrugada armou uma corda de lençóis. Teresa como o pessoal chama por aí. Desceu, sabe-se lá como, sem fazer barulho, nem chamar a atenção dos vizinhos. E, com uma pequena mochila, sumiu no mundo.

Quando acordou, Romeu deu de cara com um bilhete que dizia pouco e explicava tudo: “Fugi com o circo! Adeus”. Poderia ser para ele o fim, inclusive da própria vida. Mas o jovem escritor não terminou como o xará do romance de Shakespeare.

Ao invés do obituário, Romeu resolveu deixar à amada uma lembrança diferente. Espalhou em outdoors pelo país uma mensagem. Uma mensagem tão bonita que Carmem lembrar-se-ia dele sempre ao ler.

No cartaz, uma fênix. Dourada, de asas abertas e com as chamas em carmim. E a frase que simbolizava o sentido de todo aquele amor: “Quem nasceu para ser livre jamais se prenderá a qualquer gaiola!”

Em uma das viagens com a trupe, Carmem viu o cartaz. Deu um leve sorriso e, artista como era, ficou admirada com o gesto. A viagem de ambos, mesmo separados, seguiu. Ele com o carinho das palavras. E ela, entre malabares e contorcionismos, fazendo o dia do respeitável público mais feliz.

 

* Cássio Bida
Jornalista curitibano e funcionário público, gosta de criar escrever histórias nas horas vagas.

É autor do PodCast Cartas Faladas  que desenvolveu para espalhar amor em meio à dureza do mundo.


 

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Pensar com os pés e olhar as estrelas

SHEILA CRISTINA GUIMARÃES *

Quando criança olhava para o céu, contemplava as estrelas e pensava no porquê de ter nascido onde nasci, na casa onde morava, na família que tinha, na cidade onde vivia.

A minha dimensão do mundo naquela fase da vida era bem diminuta, não ía muito além desse universo cotidiano e dos poucos quilômetros percorridos entre uma visita familiar e outra. Ainda assim, ficava curiosa em saber como viviam as pessoas em lugares diferentes do meu.

Pessoas curiosas ou com ideias fixas não têm muito jeito, seguem vida afora com essa forma de buscar a vida e os porquês.

Do alto dos meus crescidos anos, numa palestra que assisti uma vez, ouvi do Frei Beto uma frase que fez todo sentido para mim: “pensamos de acordo com o lugar onde pisamos”. E a luzinha do olhar que contemplava as estrelas se acendeu imediatamente naquele momento. Daí a encontrar uma forma de descobrir por mim mesma as respostas que buscava levou alguns anos de andanças pelo cotidiano da vida.

E foi justamente nas andanças que descobri o universo da peregrinação. O Caminho de Santiago foi a minha estreia na modalidade de percorrer caminhos a pé levando uma mochila nas costas. Um verdadeiro experimento de vida, tudo novo para mim: país, pessoas, comidas, lugares, carregar peso nas costas, percorrer estradas e cidades à velocidade dos pés. Foram 30 dias repensando a minha existência, pesando significados e traçando novas rotas para a minha vivência neste mundo.

Desde então, outros Caminhos foram percorridos e muitas histórias entraram para o repertório da minha alma. A peregrinação virou paixão associada à curiosidade infantil inicial, abrindo um vasto caminho de aprendizados e inúmeros amigos de diversos lugares do mundo invadindo o espaço do meu coração. Mais do que tentar entender como vivem as pessoas em suas geografias, pisar no mesmo solo que elas, olhar as estrelas e compartilhar momentos de vida, numa troca de “humanidades”, preenche de sentido as lacunas dos meus questionamentos.

 

* Sheila Guimarães
Jornalista, designer gráfica, mãe da Marina,
avó da Helena e “peregrina mundo afora


 

 

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Natural solidão de um pensamento

ADEMIR ESTEVES *

Estive repensando, amigos. Por mais que me tente crer numa mudança, cá por dentro a ansiedade e a busca por uma solução viável, continua. A mata morre. Morre a decência. A competência. Morre o bicho!

O preço pago, já foi pago, pago, até ser pago pelo último.

Senhor da vida, não dá mais pra suportar tanta esculhambação. É ainda pior, porque faço parte da escória… e, ironicamente, a minha súplica invalida outras.

Que caiam os ministérios e seus processos.

Que inventemos um dia feliz para os demais incoerentes. Que o meu cinismo não chegue a ponto de sorrir para os que me feriram, sem retorno aos meus recursos perdidos.

A mata queima.

Meu nojo impera! Regurgito pensando neles. (Impera o asco em mim). Regurgitam ao pensarem no eu que sou pensado: luta de coisa alguma. Guerra sem princípios.

Antes de ir, peço farto e doente, que não me permitam entregar um Óscar a quem não interpretou as mensagens do roteirista.

Mãos vazias. Sem prêmios. Sem fósforos. Sem poder.

Por que, Creonte, fui nascer tão idiota?

Por que valorizei amigos e não as vantagens?

Por que, Medeia, amei tanto ou mais que você e não me dei o direito de matar meus filhos como vingança?

E me responde a desconfiança: porque matando ontem hoje estaria esquecido.

Só um minuto dura a vida.

A ideia para ser posta é longa, imensa, mas preciso interromper

pois ainda não paguei as contas do mês retrasado.

Que possa continuar a lamuria quem está com nome limpo e a consciência tranquila.

E, antes que passe em branco: ontem consegui alimentar um menino e uma mulher no calçadão… e eles, creiam, sorriram.

 

* Ademir Esteves
Professor e diretor de teatro na TPC, diretor do
Núcleo de Teatro Queratina e palavreiro assíduo


 

 

 

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Tudo começou com um pescoção

ANA CÂNDIDA TOFETI DE OLIVEIRA *

Agosto de 1996. Sexta-feira de “pescoção” (plantão para fechar duas edições) na Folha de S.Paulo sucursal Ribeirão Preto. Eu ainda de luto pela morte repentina de um primo querido. Por volta de 22h, já havia fechado o jornal do dia, mas faltava o de domingo ainda. Os computadores, aqueles de tela preta com letra laranja, travaram. Perdi o artigo de um professor que deveria ser publicado na editoria opinião da edição dominical. Bom lembrar que neste ano a Internet era para poucos, só podia ser acessada no computador do editor-chefe e ainda era discada: lentidão total. Celular também era objeto de luxo.

Como achar o tal professor para mandar novamente (por fax) o texto ou me ditar pelo telefone, como havia feito anteriormente, se ele estava numa casa de praia que nem telefone fixo havia quanto mais sinal de celular? A solução era substituir por outro artigo assinado, mas como encontrar algum numa noite gelada de sexta-feira? Apelei para um professor que havia dado aulas com meus pais. Ele tinha um artigo inédito pronto e fez a caridade de me levar (impresso) até à redação para que eu pudesse digitar e publicar. Isso já era quase meia-noite. A primeira batalha estava vencida. Mas ainda faltavam duas matérias para fechar. Estavam apuradas, mas tinha que escrever e aguardar a edição. Assim o fiz. Sai da redação de madrugada e no outro dia às 8h começava o meu plantão.


“neste ano a Internet era para poucos, só podia ser acessada no computador do editor-chefe e ainda era discada: lentidão total. Celular também era objeto de luxo”


Chegando ao Jornal, comecei pela ronda policial e logo na primeira ligação fui informada do furto de um avião em uma propriedade rural da região. Apurei tudo por telefone porque a matéria ia render chamada na edição nacional. No meio da tarde, quando estava finalizando a matéria e acabando de apurar outras me veio uma crise de choro. Uma mistura de cansaço, com tristeza e a sensação de que não era isso que eu queria para minha vida.

Estava sentada, em frente ao computador, no canto da sala, e bem nessa hora o telefone toca. A pessoa do outro lado se identifica como Sílvia Pereira. Estava vendendo uma pauta (trabalhava na época como assessora de imprensa). A pauta não me lembro mais, mas o que ela me falou mudou o rumo da minha vida: inesquecível. Percebeu que eu estava chorando, que não estava bem emocionalmente. Mesmo sem me conhecer, se importou comigo e se colocou no meu lugar. Senti confiança e me desabafei com ela. Ao final ela me disse: “eu te entendo porque já passei por isso. Tenho um amigo que é diretor em uma revista mensal que está precisando de jornalista, você não quer tentar a vaga? Eu te passo os contatos. O salário não deve ser igual, mas o trabalho é mais calmo e você vai ter mais tempo de cuidar de você. Do jeito que está não vai aguentar mais muito tempo”.

Agradeci, anotei os contatos e no outro dia estava na Revista Revide para conversar com Murilo Pinheiro. Lembro direitinho do tom da conversa, das matérias dos jornais assinadas por mim que levei para que ele avaliasse. Gostou e disse que a vaga era minha, mas que tinha que começar na semana seguinte. No outro dia cheguei à redação da Folha e pedi demissão. Fiquei mais uma semana e meia para terminar os trabalhos e deixar algumas especiais prontas. O editor da época tentou me convencer a ficar, mas eu estava decidida. Ia casar no final do ano e naquele momento a outra proposta ia me trazer mais qualidade de vida. Já havia trabalhado em jornal Diário por seis anos em São Paulo e a maratona de plantões era algo que não cabia naquele momento para mim.


“Na Revide fiquei quatro anos, fiz muitas matérias boas,
conheci muita gente, fiz grandes amigos, que conservo até hoje”


Na Revide fiquei quatro anos, fiz muitas matérias boas, conheci muita gente, fiz grandes amigos, que conservo até hoje. Em 2000, surgiu a oportunidade de mudar para uma assessoria de imprensa: a Outras Palavras, que tinha três anos de existência. Era um desafio novo e resolvi arriscar. Menalton Braff havia acabado de receber o prêmio Jabuti pela editora Palavra Mágica e eu fui ajudar nesta divulgação. Outros clientes vieram até que tive a oportunidade de virar sócia da empresa e, desde 2015 assumi a administração sozinha, contando, claro, com excelente equipe de colaboradores.

Nunca mais ouvi falar da Sílvia e nem fiquei sabendo o paradeiro dela. Importante enfatizar que não existiam redes sociais na época. Eis que a Regina Oliveira, uma jornalista que havia trabalhado comigo na Revide e depois na Outras Palavras, foi convidada para ser repórter na Tribuna de Araraquara e quem era sua editora? Sílvia Pereira. Quando fiquei sabendo quis muito falar com ela para agradecer o que tinha feito por mim. Ela lembrou do fato, mas não imaginava o tanto que aquilo havia marcado minha vida. Depois de uns anos voltou para Ribeirão para assumir a editoria de Cultura do Jornal A Cidade e nos aproximamos de novo.

Ela, uma virginiana, eu, uma canceriana, que temos em comum o amor pelo jornalismo, pela literatura, pelos amigos, pela vida. E por coincidência ainda descobri que ela faz aniversário no mesmo dia da minha primogênita: 21 de setembro. Não tinha como não começar a minha participação em Palavreira sem contar este história que nos une e que, embora Cândida como eu, é especial e retrato um pouco do que era o jornalismo em Ribeirão na década de 1990.

Obrigada Sílvia e sucesso sempre.

 

Ana Cândida Tofeti de Oliveira
Jornalista com grande experiência e amiga querida!!!


 

 

 

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NOTA DA BLOGUEIRA

Ana Cândida, querida, o que fiz foi pouquíssimo e o mérito é todo seu por ter conquistado a vaga. A recompensa de sua amizade é que é inestimável e muito mais do que mereço pelo episódio. Gratidão sinto eu por tanta generosidade de sua parte! Beijos carinhosos e cheios de admiração! Namastê.

 

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Mulheres de Araraquara

CRISTIANE GERCINA DA SILVA *

Fevereiro de 2017. Férias, crise econômica e ressignificação.

Chego em Araraquara e as marcas do tempo denunciam muitas mudanças. O mato cresce com a quantidade de chuva de janeiro e um misto de sol sorrateiro que dá força à natureza.

Cresceram também Valentina, Íris, Luiza e Júlia. Cresceu Laura. Chegou Lívia.

Em outro ritmo, em outro tempo, consigo observar todas essas transformações.

Como me espantam e como me alegram!

Não vi cena mais bonita nos últimos meses do que a da minha filha, aos 10 anos, sentada à beira da piscina, em silêncio, ao lado da sobrinha de minha amiga. Um silêncio que diz tanto.

É assim que nascem as amizades?, pergunto a mim mesma.

A resposta talvez esteja no convívio tão intenso com tão genuínas mulheres em um único final de semana. Minhas amigas, as mães das minhas amigas, as avós que nasceram, as mulheres que se tornaram mães e a delicadeza das que escolheram ainda não ter filhos, mas que acolhem a vida como ninguém.

Tanto aprendizado em tão poucos dias.

Naquele final de semana, as palavras mais tocantes vieram de uma adolescente questionando a existência e os próprios sentimentos: “Quando é que vai parar de doer?”, questionava ela.

Eu quis responder que nunca, mas resolvi ler uma crônica. Escrita por uma mulher. E discutimos literatura.

A volta para casa também trouxe lições e reflexões.

O pôr do sol, mais convívio e a certeza de que as mulheres pulsando em Araraquara representam o pulso do mundo.

 

* Cristiane Gercina da Silva
Jornalista com experiência em reportagem e edição na Tribuna Impressa, de Araraquara, e editora-assistente de Economia no Agora São Paulo

 


 

 

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E X I S T Ê N C I A S

REGINA OLIVEIRA *

E aí o ratão desfila faceiro pelo saguão da rodoviária de Ribeirão Preto, provocando correria e gritaria da mulherada, da homarada, da criançada, da terceira idade e da juventude que passa.

Destemido, o morador de rua, sujinho de fazer inveja ao Cascão, corre atrás do bicho, bate no bicho, mata o bicho, desfila pelo saguão segurando pelo rabo o corpo do bicho, atravessa a rua e deposita o bicho morto no latão de lixo.

E volta para a rodoviária sorridente e orgulhoso por seu momento de herói para aquele povo que, em 100% das situações, o vê apenas como um bicho feio, sujo, asqueroso, ameaçador e repugnante como o rato…

 


* Regina Oliveira

Jornalista com mais de 20 anos de experiência nas linguagens impressa, radiofônica e vídeo e  atuação em assessorias de imprensa

 


 

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D I S F A R C E

ÉRICA AMÊNDOLA *

Mulher desgraçada!

Acorda atrasada, leva no peito o lençol e derruba travesseiros, dobra tapete no pé, cata a toalha e debaixo do chuveiro abre os olhos pela primeira vez no dia. Bom dia! Bom?

Água curta, rápida, gelada, tem que ser bom!

Que sorte, a roupa pronta na poltrona, só escolhe os sapatos. Que lugar comum, meu, seu, meu Deus!

Briga com a alegria do novo todos os dias, pensa à noite, reza, chora, pede a Deus e pensa que o novo vem assim, tão de graça! Desgraça!

Pronta pra que? Por que? Pra da porta pra fora vestir o disfarce, fingir com a boca pintada, cílios plastificados. Pode chorar à vontade, não vai borrar nada!

 

Érica Amêndola*

jornalista com experiências como repórter, editora-chefe, apresentadora e âncora de noticiário nas empresas EPTV Ribeirão, SBT, Record TV e TV Thaty

 


Amiga querida, sempre de bem com a vida, Eriquinha inaugura a seção PALAVREIROS do blog, que toda semana passa a trazer texto autoral de um convidado.

 

 

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