Categoria: PALAVREIRA

Crônicas para compartilhar a escrita como expressão da alma e do olhar.

Meus ‘pais’ Zé

Acordei hoje com a notícia do desencarne do jornalista, fotógrafo e empresário José Mário Sousa, o querido “Zé Mário”. Querido por mim e por gerações de jornalistas que, como eu, tiveram sua primeira oportunidade na área graças à sua generosidade e fé.

O Zé tinha fé de sobra, principalmente nas pessoas. Graças a ele pude me desvencilhar de um emprego no qual sofria muito para cometer meus primeiros erros e acertos em uma redação de jornal – saudoso Jornal de Ribeirão, semanário que era feito em um dos prédios do campus da Unaerp, onde me formei, em 1991. Lá o Zé Mário também foi nosso professor de Fotografia no curso de Jornalismo. Conseguiu me fazer acreditar, por um tempo, que meu futuro no Jornalismo passava pela Foto (minha paixão pela palavra venceu).

O passamento do Zé tão jovem (69 anos) me fez lamentar não ter lhe feito nenhuma visita mais demorada desde que voltei a Ribeirão Preto, em 2012, após 17 anos trabalhando fora. Nos esbarramos em alguns eventos para a imprensa. Nos cumprimentávamos rapidamente, como velhos conhecidos que éramos… eu me dizendo que teria tempo, “uma outra hora”, de pagar uma visita para lhe falar de minha gratidão.

Graças ao Zé, não só tive a primeira valiosa experiência no Jornalismo, mas também conheci pessoas que se tornaram amigas do coração para o resto desta vida minha. E Deus sabe que, não fosse aquela redação, essas mesmas pessoas nunca teriam se dado a chance de me conhecer e descobrir que eu não era tão arrogante quanto o meu TDA (Transtorno de Déficit de Atenção) fazia crer – né, Maria Elena “Bil” Covre, Sheila Guimarães & cia? (RISOS).

Não ter encontrado um tempo para o Zé Mário em vida me levou a outro olhar desconfortante para o meu espelho interior (tenho olhado muito pra ele desde que iniciei terapia e Reforma Íntima). Enxerguei – não pela primeira vez – como tendo a me lembrar mais dos chefes ruins que tive na profissão e menos dos que me ajudaram tanto. E olhe que tive dois “Zé” extraordinários nessa trajetória, que me ensinaram muito – muito mais do que eu merecia, percebo agora.

O Zé Mário tinha esse perfil de “pai” carinhoso, que incentiva e joga os rebentos no mundo pra saírem nadando sozinhos. Mas sabia, sim, exigir resultados, sem nunca humilhar e sequer levantar a voz. E o Zé Eduardo, ainda entre nós, mas a um oceano de distância física, era um “pai” mais severo e exigente, mas também muito amigo. Sabia valorizar meu trabalho sem precisar elogiar (queria ter aprendido isso) e acreditou em mim quando eu mesma não acreditava. Acho até que o decepcionei um pouco, mas nem assim desistiu de mim.

Sorte que também acredito que nunca é tarde para nada! Sei que o Zé Mário, aonde estiver, estará recebendo minhas preces de gratidão e meu pedido de desculpas pela omissão de “filha”, porque seu coração segue enorme. Já ao outro Zé, atrevo-me a fazer, ainda, um apelo: trate de viver até os 100 pra eu ter tempo de agradecer por tudo, ainda nesta vida!

Vai com Deus, Zé!

Fica com Deus Zé!

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Empatia tem poder!

Olha, não ignoro que dou minha cara a tapa com este texto até pra quem me conhece e ama, pois certamente já me ouviu criticar mais de uma vez realities como o Big Brother Brasil (por glamourizar a banalidade e faturar com o que o ser humano mostra de mais mesquinho em seus momentos de vulnerabilidade, etc, etc). Mesmo assim, confesso: EU ASSISTI ao BBB21 até o mais “amado” fim! #prontofalei.

Até hoje, acreditava que havia sido uma das milhões de vítimas do “efeitopandemia”, que fez a gente se viciar em entretenimento barato no desespero de fugir à triste e crua realidade do país. Mas agora há pouco, desidratando de chorar com o documentário “Você Nunca Esteve Sozinha – o doc de Juliette” (Globoplay), entendi um pouco mais sobre minha “virada de casaca”: não foi exatamente ao BBB que me rendi (by the way, mantenho aquela primeira opinião sobre alguns aspectos do programa), mas ao fenômeno que atende pelo nome de Juliette Freire. Com sua empatia e fortaleza, ela ficou maior que o reality.

Comecei a acompanhar sua trajetória lá dentro atraída pela polêmica “Lucas Penteado x Carol Konká”, que ocupou a mídia em massa e mereceu crônicas sobre “cancelamento e assédio moral” até de nomes respeitáveis do jornalismo. Achei que seria coisa de um episódio só, apenas pra eu poder entender do que, afinal, todo mundo estava falando. Então, testemunhei Juliette sendo hostilizada gratuitamente e me condoí (empatia tem poder!). Aí quis assistir outro pra ver se ela conseguia “dar a volta por cima”… Depois outro, pra ver se ela voltava do “paredão”… quando vi, já estava procurando diariamente, nos meus sites de notícias preferidos, as seções “Famosos/Realities/BBB” pra ler como a imprensa estava tratando a participante.

Fui conquistada pela personalidade forte e ao mesmo tempo generosa da paraibana, capaz de se defender “muito bem, obrigada”, mas também de acolher e perdoar quem lhe agride. Admirei cada vez em que ela conseguiu sustentar, com didatismo e leveza, narrativas de sororidade, empatia e orgulho – não aquele orgulho ruim, nascido de egos inflados  ou feridos, mas de pertencimento, de quem abraça a própria identidade com firmeza, sem precisar, para isso, ofender a do outro – em meio à adversidade.

Virei “cacto” (como se intitulam os até então torcedores e hoje fãs de Juliette). E olhe que eu nem havia assistido a seus piores momentos dentro da casa mais vigiada do Brasil, ocorridos lá pelas primeiras semanas. Fui vê-los só hoje, no terceiro episódio do seu doc: ela sendo covardemente criticada e/ou ridicularizada, a maior parte dos ataques “em bando”, ela sozinha pra se defender. Ainda tentava o diálogo. Ainda forçava-se a entender que cicatriz ou dor fez tal pessoa agredi-la de determinada forma. E sempre conseguindo se impor sem vitimização – algumas vezes até de uma forma autoritária, porque… você sabe… é um fio tênue a separar a firmeza do autoritarismo e ninguém é perfeito o tempo todo, ou não viveria neste mundo.

Eu pensava: caramba, como ela consegue se manter em pé? Porque eu, com um décimo do que ela passou ali, teria me liquefeito em choros convulsivos, ido embora pra casa e me fechado em um quarto escuro por uns dez anos, cheia de vergonha por ter me mostrado tão vulnerável em público.

Daí que eu quis ser ela. O Brasil inteiro quis e este foi o verdadeiro fenômeno!

Em um período tão cheio de discursos de ódio e intolerância, a gente (finalmente!!!) quis se espelhar em alguém que sabe pregar a paz mesmo ferida, que exerce a amorosidade sem se deixar diminuir ou subjugar.

Não é pouco, senhoras e senhores. Na verdade, é muito! Principalmente no Brasil de hoje.

Além disso, o carisma de Juliette, aliado a seu jeito simples e espontâneo, faz a gente festejar suas conquistas como se fossem nossas – ou de um familiar muito querido. Por isso nem rola inveja: parece a gente lá (já disse que empatia tem poder?!).

Acho que eu e os mais de 31,5 milhões de cactos que a seguem no Instagram estávamos precisando lembrar (e/ou descobrir e/ou acreditar) que existe no mundo gente forte e generosa como Juliette e que não é tão diferente assim de nós. Isso é um alívio! Dá esperança.

Então, ‘bora lá passar da torcida pra reforma interior necessária pra gente também ser mais assim? Eu ‘tô na lida!

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Prece pra meus ídolos viverem pra sempre

A cada aniversário de Bethânia, Caetano, Gil, Chico Buarque ou qualquer um de meus “ídolos supremos” (tenho que rankeá-los por adjetivos, porque tenho muitos e em todas as artes) me vem sempre o mesmo desejo-pensamento-mega-egoísta: “tem gente que devia aniversariar pra sempre!”. Nunca morrer nem parar de fazer arte.

Porque, do contrário (aiaiai… não gosto nem, de pensar)… Imagine nunca mais ouvir uma nova música ou um  álbum inteiro, novinho em folha, na voz da Maria Bethânia!!! Sobe um frio pela minha espinha imaginar nunca mais assistir a um novo show ao vivo (mesmo que gravado) com sua interpretação magnética e arrebatadora! (Caetano, Gil e Chico idem, mas não foram eles a aniversariarem neste 18 de junho).

Descobri da pior forma o quanto dói isso de perder alguém com o poder de “salvar seu dia” (por vezes sua vida)” só com a sua arte: tinha 21 anos quando morreu Fred Mercury – pra mim a voz mais linda do rock de todos os tempos! (entre os vivos é a do Eddie Vedder). Fiquei muito triste na hora, mas não me descabelei. Só fui sentir luto pesado mesmo cerca de um ano depois, quando fazia mais uma maratona auditiva do Queen e caiu minha ficha de que nunca mais ouviria nada novo na voz dele. Cara… nem sei descrever o abismo que encarei com aquela ausência!

Quando se foram Renato Russo e Cassia Eller, eu já tinha a dimensão real do impacto de uma perda dessas pra quem tem música como religião – lembro exatamente onde estava quando recebi a notícia sobre a morte de ambos… a da Cássia até que cheiros senti na hora e de como, de repente, aquele início de noite agradável com meu amor numa mesa de pizzaria perdeu todo o sentido.

Até hoje, quando ouço alguma gravação da Cassia cantando, me vem esse luto reincidente: “aaaaai… nunca mais novas interpretações viscerais nessa voz passional, que rasga o ouvido e apura os sentidos…”. E aqueles agudos arrepiantes de barítono do Renato cantando poemas que falam tão pra dentro de mim… como não ter saudades doloridas?!?!

Scott Weiland (Stone Temple Pilots) e Chris Cornell (Soundgarten, etc) não estão em minha categoria de “supremos”, mas também sinto falta.

É tão sério pra mim isso de saudades artísticas que, a cada vez que um de meus ídolos aniversaria, faço uma prece de gratidão. Fiz uma hoje por Bethânia, logo que fui lembrada de seu aniversário no primeiro telejornal da manhã. Depois, pus no rádio do carro sua playlist pra tocar, começando por “Onde Estará o Meu Amor” e cantarolei junto com uma alegria de festa! Percorri o trânsito caótico entre minha casa e a de meus pais no clima que toda obra de arte arrebatadora causa em mim: uma sensação de plenitude e perfeição, como se tudo no mundo estivesse exatamente onde deveria estar.

E agora mesmo, vendo outra matéria sobre o aniversário de Bethânia no telejornal da noite,  atrevi-me a rezar outra prece – esta bem mais egoísta: “por favor, Deus, faça ela aniversariar pra sempre! (E também Caetano… e Gil… e Chico… e Marisa… e Nana… Zélia… Eddie… Zizi… McCartney… Herbert… e o parêntese não fecha, nem o texto acaba porque a lista não tem fim…

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No grupo ‘dasamiga’

Em um grupo de WhatsApp do qual participo com cinco amigas (todas vacinadas), uma delas convida (vamos chamá-la de AMIGA A) para um café ao ar livre, com o devido distanciamento social, para matar as saudades de um ano e meio sem nos vermos presencialmente. Segue-se, ao convite, o seguinte diálogo:

AMIGA B: Bom dia, meninas. Eu adoraria tomar café com vocês, mas, por segurança, não vou. O teste da covid em minha mãe deu positivo e eu estive perto dela. Ela passa bem, sem sintomas. Ainda bem que tomou a vacina. A nossa quarentena termina domingo. Obrigada pelo convite. Acho prudente não ir para a segurança de vocês. Saudades!

AMIGA C: Aqui em casa também estamos isolados até dia 16, porque o chefe do meu marido, com o qual ele se reuniu recentemente [após mais de um ano em home office], positivou covid.

AMIGA D: Bom dia. Também estou isolada porque tive contatos no atendimento 24 horas. Prefiro não arriscar. Um beijo.

AMIGA B: Um dia a gente se encontra sem medo. Até lá, meninas.

AMIGA E: Tá bom meninas. Um dia ainda seremos felizes.

Saliento que:

  • Aquelas entre nós que ainda têm trabalho (emprego nenhuma tem mais) mantêm-se em home office;

  • Antes e após termos sido vacinadas, mantivemos sempre o máximo de distanciamento social que conseguimos (sempre chega a hora em que temos de levar um dos pais idosos ao médico, ou comparecer ao Serviço de Saúde por conta de algum problema que a telemedicina não resolve, ou ter um contato profissional que não tem como fazer remotamente, etc, etc, etc…) e nos impomos auto isolamento sempre que suspeitamos de contaminação, em respeito às outras pessoas;

  • Mesmo com todos os cuidados, uma de nós já contraiu covid, junto com toda a sua família.

  • Perdemos a conta de quantos conhecidos de nossas relações tiveram covid, alguns dos quais faleceram;

Conclusão: mesmo pessoas que respeitam a ciência e observam ao máximo todos os cuidados de prevenção acabam “cercadas” pelo vírus, graças àqueles que continuam vivendo como se não existisse pandemia no Brasil.

GENOCÍDIO NUNCA É PRATICADO POR UMA PESSOA SÓ!

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Mãe de pais

Nunca fui mãe.
Não cheguei sequer a engravidar, portanto não conheço a sensação de receber um teste positivo, de ter meu corpo se transformando pra formar um novo ser e confesso que não invejo conhecer a famosa “mãe de todas as dores” (com o perdão do trocadilho) de parir uma criança de parto normal sem anestesia – Deus sabe que conheço muitas dores físicas incapacitantes e não sei se aguentaria uma pior!

No entanto, sempre tive o maior respeito por pais e mães. Respeito tanto que, apesar de sempre ter desejado filhos, não tive coragem de tentar engravidar quando finalmente pude escolher – antes faltava um pai, depois estabilidade financeira e depois tempo, mas o que realmente me impediu foi a covardia. É que cresci filha caçula em uma família de poucos recursos, com um pai que passava a semana fora para atender clientes em outras regiões num tempo em que telefones fixos eram luxo e celulares uma ficção. Então assisti muito de perto aos sacrifícios e dificuldades enfrentados por minha mãe para conciliar a criação das três filhas com o dinheirinho extra que precisava fazer olhando filhos de vizinhos e prestando serviços de manicure. Depois testemunhei a loucura que foi para minhas irmãs mais velhas conciliarem trabalho e maternidade.

Faltou coragem da minha parte, mas Deus achou um jeito de me fazer experimentar um simulacro de maternidade: mexeu seus pauzinhos para garantir que eu, entre as três irmãs, tivesse como cuidar mais de perto de meus pais quando minha mãe perdeu toda a mobilidade. Foi quando finalmente entendi a utilidade de ter sofrido um acidente grave de moto que me deixou quase um ano sem andar entre 2016 e 17 – recebi todo o amor e suporte de minha família na ocasião, mas mesmo assim senti na pele como é difícil depender fisicamente de outro ser humano.

Depender do outro implica muito além de vulnerabilidade física, mas também (e muito mais) vulnerabilidade emocional e psicológica; implica muita vergonha por se ter sempre companhia ao fazer necessidades fisiológicas; culpas – como, por exemplo, de sua bexiga funcionar tão bem que o cuidador fica com o sono picotado por ter de posicionar a comadre pra você mais de uma vez na madrugada; enfim, de precisar que outra pessoa refaça toda a sua rotina para conseguir estar presente na hora de lhe dar café da manhã, almoço, jantar e banho.

Qualquer semelhança com os tão alardeados clichês da maternidade  (“nunca mais dormi depois de virar mãe”) não é mera coincidência. A era de longevidade em que vivemos tem nos imposto uma parentalidade intensa de nossos pais, já que o progresso da ciência anda mais rápido do que a competência de nossos governantes em garantir suporte institucional para uma qualidade de vida na maturidade. Nossa família ainda teve sorte, pois pude abrir mão (não sem prejuízos) de trabalhos para cuidar de meus pais, mas e os filhos que não podem parar de trabalhar?

Mesmo os que podem nem sempre estão preparados física e psicologicamente para isso. E é preciso estar, pois pode apostar que há muita diferença entre trocar fraldas e dar banhos em um bebê e fazê-los em um adulto de 80 quilos, de quem você já dependeu e a quem deveu obediência a vida toda. Isso sem falar na pesada carga mental que é administrar agendas de consultas médicas, exames, remédios, contas de farmácia que só aumentam (aposentadoria que não) e ter sempre que ligar antes pra saber como é a acessibilidade daquele laboratório ou consultório onde é preciso levar sua mãe cadeirante – PASMEM! Alguns não têm sequer estacionamento pra desembarcar deficiente e outros nem elevador como alternativa à escada (aprendi da pior forma!), etc, etc, etc…

O que também aprendi com as experiências de cuidada e cuidadora é que, quando se está no papel de quem cuida, nada pode ser sobre você! Não interessa se você tem todo o seu tempo disponível ou se precisa “equilibrar pratos” para conciliar os cuidados a seu idoso com os de sua família nuclear, seu trabalho ou o que for: não pode deixá-los sentir que atrapalham um pouquinho que seja seus planos, pois já estão se sentindo um estorvo e incapazes o suficiente sem você reclamar. E se você acha que é difícil estar no papel de cuidador, não tem noção do quanto mais difícil é estar na posição do cuidado, posso garantir!

Ter estado neste lugar me fez entender que não se trata de teimosia, por exemplo, quando um idoso leva tombo teimando em tentar fazer coisas que seu corpo não suporta mais: é vergonha de depender! E os choros fáceis não são manha ou chantagem emocional, mas vulnerabilidade psicológica decorrente de não se reconhecer em seu próprio corpo. As irritações e os maus humores não são rabugices, mas pura manifestação de impotência. Sem falar do medo de que nada nunca mais volte a ser como antes – e no caso deles o mais provável é que não volte mesmo.

Confesso que precisei do acidente para aprender esta empatia, pois meu déficit de atenção sempre me fez muito voltada para dentro de mim, portanto desligada do outro (o que me rendeu uma vida inteira de problemas de sociabilidade, mas essa é outra história). Posso dizer que, atualmente, sou uma “egoísta em reconstrução”, porque ainda não me tornei a melhor “mãe” do mundo para meus pais. Uma mãe virginiana, hiper organizada e responsável, sim, mas que ainda perde a paciência às vezes (me desculpo cada vez mais rápido!). Ainda preciso me lembrar de não reclamar perto deles e, ao menos por enquanto, não sei como disfarçar o cansaço e as dores físicas. 

Mas outra coisa que também acabei de aprender na prática (e aí vem outro clichezão) é que “nenhuma mãe é perfeita”… e está tudo bem! O importante é ter pra nós mesmas a consciência de que demos o nosso melhor. Tenho sido “a melhor mãe que posso” pra meus pais e peço todos os dias a Deus: por favor, Senhor, que esteja sendo suficiente!

 

P. S. Toda a minha gratidão ao meu amado marido, Márcio, que foi o melhor cuidador que uma acidentada poderia ter e nunca deixou transparecer o quão difícil era!

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Inconsciente, mas ainda racismo

Sobre a repercussão do episódio de racismo estrutural ocorrido no reality show Big Brother Brasil (BBB), acho que, em vez de jogar pedras, devíamos ajudar as pessoas a enxergarem o próprio preconceito, pois só a partir disso elas vão se conscientizar de que devem mudar. Dito isso, segue minha contribuição neste caso específico:

Quando o participante Rodolfo disse que o cabelo de sua fantasia de “Homem das cavernas” parecia o do colega de confinamento João, foi como este se sentiu – e como entendeu que pessoas como o sertanejo o veem devido a seu cabelo crespo.

Como beleza é um conceito socialmente construído, o episódio mostra que o de Rodolfo está contaminado pela crença (racista sim!) de que cabelo de negro é sinônimo de feiura.

Até acredito que Rodolfo não tenha tido intenção de ofender, mas é esta (a inconsciência) a principal característica do racismo estrutural: está tão arraigado em nosso comportamento e em nossas crenças que não o enxergamos.

Pra enxergar, é preciso, como a outra BBB Camila muito propriamente pontuou, APRENDER, e só se faz isso colocando-se no lugar das vítimas. No caso do Rodolfo, significaria sair do ponto de vista do próprio umbigo (de onde ele só enxerga que não houve intenção de ofender) pra perguntar por que o João se sentiu ofendido.

O João já deu uma pista quando disse que não é porque tem esse cabelo que é um homem das cavernas (uma figura pejorativamente associada à feiura e à brutalidade).

Quando  Rodolfo finalmente enxergar que a comparação fez João sentir-se feio e brutal, deve ir mais fundo na reflexão e SE PERGUNTAR por que uma fantasia de monstro o fez, impulsivamente, compará-la ao João. A resposta sincera a este auto questionamento é que levará ao aprendizado de Rodolfo sobre seu racismo inconsciente.

Espero ter contribuído.

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Já refletiu sobre seu racismo estrutural hoje?

Segundo a pedagoga brasileira Nilma Lino Gomes, os penteados trançados nasceram como indicativos de status nas sociedades africanas. Primeira mulher negra a comandar uma universidade pública federal brasileira (foi eleita reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira em 2013), Nilma lembrou, em artigo seu de 2003, que “no início do século 15, o cabelo funcionava como um condutor de mensagens na maioria das sociedades africanas ocidentais”, sendo “parte integrante de um complexo sistema de linguagem”. O estilo do penteado podia indicar, por exemplo, o estado civil, a origem, a idade, a religião, a etnia, a riqueza e até a posição social da pessoa. “O significado social do cabelo era uma riqueza para o africano”, escreveu a pedagoga, cujas pesquisas apontaram que, entre alguns povos, uma mulher deixar o cabelo despenteado sinalizava que alguma coisa estava errada, que ela estava de luto ou deprimida, por exemplo.

Considerado este contexto histórico, poderíamos atribuir apenas a desinformação o fato de, recentemente, uma clínica médica na Grande Belo Horizonte ter demitido uma recepcionista que se recusou a desfazer as tranças afro de seu cabelo. Só que não! Acionada na Justiça, a empregadora disse, no processo, que “o penteado não se enquadrava no padrão estético que a boa imagem institucional exigia”. Acabou condenada, em primeira instância, a indenizar a ex-funcionária em R$ 30 mil por danos morais.

Justiça feita, já que, quando você diz que um penteado afro está em desacordo com a “boa” imagem que quer passar, está afirmando, nas entrelinhas, que a cultura negra (da qual este penteado é uma expressão) passa uma imagem ruim. E quando você diz que a cultura ou a raça à qual uma pessoa pertence é menor, você está dizendo que esta pessoa é menor. Isso provoca o que, em Direito, configura dano moral (abalo psíquico, intelectual ou moral sofrido em decorrência de um ataque à imagem, honra, etc).

Esse tipo de comportamento – que seus praticantes nem percebem que é preconceituoso porque não se dão ao trabalho de refletir sobre – é considerado “racismo estrutural”. É chamado assim porque está amalgamado na estrutura social de tal forma que, de tanto ser praticado sem reflexão, as pessoas consideram “normal”, inofensivo, até certo. Mas pra quem o sofre não é!

Reflita: o que leva alguém a considerar a cultura afro ruim? Quem se der ao trabalho de responder a esta pergunta pra si mesmo, com sinceridade, correrá o risco de descobrir que também é racista.

Vejamos:

Se para respondê-la você lembrou que a população preta é maioria nos bolsões de pobreza e presídios brasileiros (o que é verdade) está sendo preconceituoso, porque nem todo negro é pobre ou criminoso. Pensar nisso ao visualizar um penteado afro denuncia, nas palavras do dicionário Oxford, uma “generalização apressada”, ou seja, que você está julgando toda uma população pelos erros de uma parcela dela.

Além de preconceituoso, está sendo injusto (por admitir a possibilidade de negros serem mais propensos ao crime) e, na melhor das hipóteses, mal informado, por ignorar as razões históricas dessa estatística.

Vamos a elas: quando foi abolida a escravidão no Brasil, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte numa sociedade hostil. Analfabetos e sem recursos para se manterem dignamente (logo seriam substituídos por imigrantes assalariados nas lavouras), passaram a sobreviver abaixo da linha da pobreza, dando início a uma longa linhagem de marginalizados – esse histórico, aliás, é que justifica leis como a do sistema de cotas nas universidades, que visam dar oportunidade para que cada vez mais pretos e pretas furem a bolha de exclusão à qual foram relegados por gerações. Exclusão social (quando os direitos universais assegurados por lei a todos não incluem você) gera revolta, que gera desprezo pelas leis (“se os direitos não me incluem, também não cumprirei os deveres”) e desemboca na criminalidade, que alimenta o preconceito, criando um círculo vicioso sem fim.

Nem essa triste realidade, porém, justifica considerar uma manifestação cultural menor que outra, mas foi exatamente o que fez a empregadora mineira ao tentar forçar a recepcionista a desfazer o penteado que manifesta suas raízes afro.

Exemplos como esse provam que não basta só não praticarmos o racismo. É preciso aprender a enxergá-lo, em nós e no outro, e ter coragem de denunciá-lo para que, punido, as pessoas parem de replicá-lo e copiá-lo. Assim, num futuro próximo – ou distante, quem sabe? -, talvez aprendamos a educar nossos filhos livres desse viés.

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Um bode já foi…

A parábola do “Bode na Sala” me foi contada pela primeira vez por um amigo querido e desde então a recordo sempre que uma situação remete a sua distorcida “moral da estória”. Resumo de memória, não sei se corretamente: conta que um homem pediu conselho a um sábio sobre como melhorar sua vida em família, desestabilizada por queixas da mulher estressada, dos filhos sempre querendo atenção e dele mesmo, desejoso de mais tranquilidade. O sábio o orientou a comprar um pequeno bode e colocá-lo para viver na sala de sua casa. Uma semana depois, o homem voltou dizendo que o clima em família só piorou, porque o bode quebrava as coisas e deixava a sala constantemente suja e fétida, fazendo todos infelizes. O sábio então mandou sumir com o animal e limpar a sala. Na semana seguinte, quando questionado sobre a vida em família, o homem disse que nunca esteve tão boa, agora que os familiares haviam aprendido a valorizar seu lar, que sem o bode tornou-se “o paraíso na Terra”.

Tenho certeza de que quem contou a parábola pela primeira vez não tinha nada contra bodes – que são animaizinhos adoráveis e até bonitinhos, embora incompatíveis com ambientes domésticos – e tinha como única intenção oferecer uma lição de resignação. Ocorre que, desde então, empresas e governos têm aproveitado a ideia como estratégia para livrarem-se de reclamações e cobranças por problemas que têm o dever de resolver – descobriram que fabricar um problema maior e depois eliminá-lo, além de fazer as pessoas esquecerem o anterior, as deixam extremamente agradecidas a eles.

O que me fez recordar a parábola hoje foram vários comentários de redes sociais pontuando que os estadunidenses não votaram para colocar o democrata Joe Biden na presidência, mas para tirar o republicano Donald de Trump de lá. Desse ponto de vista, a grande comemoração que se segue é mais pelo alívio de terem conseguido tirar o “bode da sala” (sendo Trump o próprio), o que faz todos esquecerem que Biden já plagiou discurso, votou pela invasão do Iraque e foi acusado, por ninguém menos que sua hoje vice, Kamala Harris, de ter apoiado congressistas com bandeiras racistas.

Quem me conhece ou me lê sempre sabe que não sou a pessoa mais otimista do mundo, mas desta vez sinto-me na obrigação de assumir, nesta novela, o papel de Pollyanna (a personagem de Eleanor H. Porter que consegue ver o lado bom de tudo com seu “jogo do contente”). Tudo bem que Biden não seja, assim, “um Obama”, mas permitam-me ficar feliz por testemunhar que uma parte majoritária da população do país mais poderoso do mundo decidiu que não quer mais ser governada pela cartilha direitista-armamentista-negacionista praticada por Trump. Mais: os números recordes de votação demonstram que a população se mobilizou para materializar esta escolha e deixar bem clara a rejeição ao bode da vez (nos EUA, além do voto não ser obrigatório, é um processo burocrático difícil, que desanima muitíssimos eleitores a exercê-lo).

Ok, a votação foi apertada… o país seguirá dividido, com pouco menos da metade ainda a defender a cartilha de Trump… podem advir conflitos internos… Biden pode decepcionar… E, SIM, posso estar sob o efeito “bode na sala”, mas (pro diabo com a racionalidade!) neste momento quero mais celebrar o fato de que nem todos enlouqueceram no mundo, que muitos ainda rejeitam líderes que colocam o próprio projeto de poder à frente do bem-estar coletivo e cultivam valores contrários aos Direitos Humanos e à coexistência pacífica entre diversos.

Um bode se foi! É um começo!!! Quem sabe mais pessoas consigam, finalmente, enxergar os que estão vivendo nas “nossas salas”?

Ainda há esperança! E ter esperança sempre vale a pena. Que Deus nos ajude a aproveitá-la.

Amém!

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Chorando e cantando

Tenho chorado à toa, feito manteiga derretida, ultimamente.

Hoje foi assistindo a este videoclipe do Michael Jackson que já havia visto umas 37 vezes antes sem me abalar – “é fabricado pra emocionar”, pensei na primeira vez que o vi, acho que com 26 anos de idade e me achando “A-cinéfila-crítica-fodona-de-cinema-e-vídeos”.

Mas pra entender “por que diabos” acabei passando a manhã de domingo de um feriado prolongado enterrada numa página de Youtube, a escavar videoclipes da década de 1990, é preciso explicar que toda minha vida sempre foi embalada por trilhas sonoras… que música, pra mim, é tão vital quanto duas refeições ao dia e ao menos seis horas de sono bem ou mal dormidas (conforme demandar a intensidade de meu ciclotímico bruxismo) entre um dia e outro. Então é super normal eu acordar já com uma canção qualquer tocando na cabeça, que preciso expurgar ouvindo outra – ou a própria – em algum dispositivos de som, antes que eu enlouqueça ou passe a odiá-la pra todo o sempre.

Daí que a música que brotou de dentro do meu sono esta manhã foi “Lady Picture Show”, do Stone Temple Pilots (que quem nasceu depois de 1996 provavelmente não conhece). Esperei dar 9h da manhã pra por tocar no meu som em um volume não muito decente pra uma moradora de condomínio de apartamentos (mas é domingo e feriado, né?). Daí que, já que ela faz parte de uma playlist do grupo no meu Apple Music, deixei tocar… e porque é dançante, deu vontade de continuar na vibe, o que me fez apelar logo pra outra playlist do Michael Jackson, que montei pra caminhar ao ar livre, em alta frequência cardíaca… E porque as baladas românticas do artista estavam na sequência, deixei rolar e fui entrando no clima que a voz dele foi instalando dentro dessa nova “eu”, que acorda cada dia mais à flor da pele com dores próprias e do mundo todo.

Foi quando me toquei de que nunca tinha notado antes como MJ usava a voz não só como um instrumento musical (isso todo bom cantor é capaz de fazer), mas como um recurso dramático, sabe… fazendo só com a voz o que um excelente ator faz com o corpo todo… ? Já pararam pra prestar atenção em como a voz do cara volita como se encantada por fadas naquelas canções água-com-açúcar como “Heal The World”? E como “chora” quando canta uma balada com letra dolorida tipo “Stranger in Moscow”?

Comentei isso com o marido, que confessou nunca ter visto o videoclipe dessa música… e lá fui eu acessar o Youtube pela nossa SmarTV pra mostrá-lo em HD legendado, só pra me dar conta de que também nunca tinha prestado atenção na letra dela (acho que ainda não entendia inglês na época em que a cultuava). É sobre ele estar se sentindo sozinho com a própria fama, sob um tiroteio de notícias negativas sobre si veiculadas pela mídia… Pensei comigo (meio tentando não me atrever a acreditar ou não em tudo o que já foi dito sobre suas tendências sexuais): “como pode um artista com tanto sentimento na voz ser capaz de tudo de ruim que lhe atribuíram?”.

Daí que tive vontade de rever outros videoclipes dele com coreografias de dança – que na adolescência me fizeram sonhar em ter uma carreira como bailarina – e fui revendo, revendo, revendo… até cair neste de “Earth Song”… que foi onde desmontei!

Cara, se você também está entre os inconformados com a onda direitista-hiperindividualista-antiambientalista que tem varrido o planeta nesta era, eu lhe desafio a também revisitar este videoclipe, com imagens de índios muito parecidos com os nossos do Brasil… de refugiados de guerra entre ruínas do que teriam sido suas casas… flashes de um bebê africano tentando mamar a canela esquelética da própria mãe (ah… Deus me ajude a esquecer esta imagem!!!)… uma família africana velando o cadáver de um elefante… um desmatador em ação… e MJ berrando aquela voz dolorida-indignada-chorosa em um cenário de árvores cortadas… e o arranjo grandiloquente mandando a gente prestar atenção…

Eu sei, provavelmente MJ cantava uma letra escrita por outros, em um cenário construído para chocar e em um videoclipe produzido pra emocionar, SIM, mas… de novo: como é possível cantar assim, com tanta dor e lágrima na voz, sem ter tudo isso dentro de si?

Posso estar exagerando (provavelmente estou e nem terminei a taça de vinho que o Ma me serviu junto com nosso marmitex de churrascaria), mas fato é que chorei e cantei junto, arrepiando muito e pensando que este clipe de 1996 nunca foi tão atual… E me deu tristeza pensar que não evoluímos nada em 30 anos… nem em 1990 anos, desde que um certo nazareno apareceu na antiga Galileia pregando um jeito de viver baseado em “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Tudo o que fizemos (eu inclusive!), desde então, foi colocar nossos interesses na frente de tudo e todos, o que nos trouxe a um mundo super aquecido por El Niños e La Niñas, aterrorizado por religiosos fundamentalistas que matam em nome de Deus e com governantes que defendem armamento civil, destruição de conquistas sociais, combate às diversidades e priorizam a própria agenda política em detrimento de populações ameaçadas por uma pandemia mundial.

Pensando bem, acho até que demorei pra começar a chorar… porque cantar, eu já cantava.

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Escritaterapia

Já há três domingos não escrevia.

Tenho esses períodos de silêncio auto infligido que nunca são por falta do que dizer (ao menos não na forma escrita), mas por medo (sou PHD nisso!). É que às vezes são tantos e tão difíceis de identificar os sentimentos que preciso descarregar na escrita – minha eterna terapia – e tão poucas as palavras para descrevê-los corretamente… E tem a exposição, o julgamento alheio (confesso! me apavora), as más interpretações, os egos feridos que reagem instintiva e, portanto, violentamente (não é certo que criticamos no outro o que não queremos enxergar dentro de nós?)…

Sempre digo à querida Marcinha Intrabartollo (um talento em processo de auto descoberta como escritora) que escrever para ser lido é, antes e mais do que tudo, um ato de extrema coragem! Porque quando escrevemos algo que toca o interior do outro – mesmo quando banalidades construídas para entreter o tempo – ficamos nus. E toda nudez é vulnerável, no literal e em todos os mais simbólicos e intangíveis sentidos.

Como sei disso? Porque, como toda leitora apaixonada, quantas vezes não me quedei perplexa, ao final de um texto ou livro que me alcançou a alma (não é, Luciana Gerbovic?), imaginando como era possível outro ser humano alcançar tão dentro de mim sem me conhecer? E quando caço a biografia desses autores quase sempre desacredito das imagens de divulgação que os mostram tão normais, quando já acho que não, tão gigantes me parecem em sua valentia!

Mas estou tergiversando. Ocorre que estou aqui sentada, vomitando esta escrita, obrigada por mim mesma a ter coragem!

Porque há dias sinto como se todos os sentimentos que venho, há tempos, toureando, na tentativa de manter algum equilíbrio, tivessem se rebelado e me feito refém. Não aceitaram, durante toda a última semana, ficarem quietinhos dentro de mim enquanto eu tocava a vida normalmente. Assumiram o controle, saindo pela minha boca em forma de gritos ante qualquer contrariedade, em espasmos de raiva que já não consigo dissimular ou aliviar com tentativas risíveis de meditação… em lágrimas de desesperança que há tempos não seguro mais ao assistir ou ler notícias que provam nosso fracasso como humanidade.

Pode ser coincidência ou auto sugestão, mas calhou desse descontrole ter começado no mesmo dia em que visitei uma terapeuta nova, que me espetou agulhas enquanto explicava o que cada ponto em minha orelha dizia sobre mim. Saí da sessão com um vidrinho de elixir (não sei se floral, homeopático ou coisa que o valha) que prometi tomar a conta-gotas, três vezes ao dia (estou tomando), mesmo convencida de que não me curaria e que minha orelha não havia entregue nenhuma novidade.

A novidade, hoje, é que acordei decidida a encarar o medo da minha terapia escrita e dizer, a mim mesma e a quem interessar possa, que: sim, estou triste! Sim, tenho medo. E tenho raiva. Muita raiva! E não é de hoje…

E escrevendo, como sempre, vou alcançando alguma compreensão de mim. Como a de que não estou triste só por mim. Que meu medo por mim mesma é, sim, gigantesco, mas também é por muitos – os pobres, os paupérrimos, os negros, os índios (ah! Os índios…), os enlutados… E a raiva – meu Deus… nem consigo dizer de que ou de quem – não é exclusividade minha e as redes sociais estão aí para provar.

Tanta dor vendo imagens de animais incinerados – alguns ainda abraçados às suas crias – porque não conseguiram fugir do fogo em nossas florestas. Fogo cada vez mais descontrolado desde que o atual governo começou a desmontar o aparelhamento e a legislação ambientais que as protegia em algum nível.  Tanto medo de chegar àquele temido momento de não ter mais como saldar as contas em uma economia em crise e com a legislação trabalhista flexibilizada! E tanta, mas TANTA RAIVA por constatar que os egoístas de plantão nos cargos públicos seguem aproveitando-se de calamidades para roubar… que defensores da violência e detratores dos direitos humanos têm coragem de evocar o nome de Deus em suas causas desumanas!

Tenho raiva, sim! E tenho muito medo… e tristeza – mansa, mas está lá. E lamento que, por mais que esta escrita tenha intenção terapêutica, não venha compartilhar alguma mensagem positiva, ou trazer alívio e nem respostas para as questões que levanta. Traz, sim (como toda terapia) mais questões. Por exemplo: por que nos sentimos tão solitários mesmo acompanhados? E tão desconectados mesmo nos comunicando tanto? Sou a única a interpretar como sendo só meus tantos sentimentos que têm convulsionado o mundo todo, engolfando todos numa nuvem quântica? E se assim não é, por que continuamos procurando soluções individuais para problemas coletivos?

Alguma hipótese?…

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