Diário de Viagem: Granada

Sierra Nevada: a primeira visão

Dormia no ônibus que nos trouxe de Madri quando a desaceleração me despertou. Entrávamos em Granada, a milenar cidade espanhola (desde o século 13, pois sua origem é árabe) que hoje é o lar de Clara e Eduardo – desses amigos que a gente sabe que terá (e amará) para a vida toda.

A primeira visão que tive da janela foi de um ajardinado colado a um pequeno viaduto, donde se destacou, para meus olhos, uma arvorezinha de flores liláses. Brotou-me um sorriso involuntário (“bom presságio!”).

Logo que o ônibus livrou-se do pequeno congestionamento à entrada, Clara chamou minha atenção para a visão dos picos sempre brancos da Sierra Nevada, que – eu descobriria – pode-se buscar de qualquer ponto da cidade.

Depois o metrô de superfície, que os usuários pagam eletronicamente ao entrar – nenhuma roleta ou fiscal obrigando a cobrança, apenas a consciência dos usuários -… a primeira caminhada por ruas que conjugam arquitetura milenar e contemporânea… o espaço urbano amplo, limpo, calmo… o trânsito “silencioso” apesar de intenso.

Por uma e outra calçada, bicicletas amarelas que se pode pegar, usar e deixar em qualquer outro ponto para serem usadas por outras pessoas – nunca são furtadas ou vandalizadas.

Não vi carros velhos pelas ruas. “Não vale a pena manter os com mais de cinco anos, com todas as revisões exigidas por lei e impostos”, explica Clara.

Com Du e Clara em ruela do bairro Albaicín, de origem árabe

Mas o casal não tem carro aqui. Tampouco usa muito o barato, eficaz e confortável sistema de transportes da cidade. Desde que se mudaram em definitivo, em novembro de 2017, Clara e Du fazem todos os percursos por Granada a pé – inclusive os passeios pelos bairros íngremes, que expandem-se colinas acima dos rios Genil e Darro e que mantêm os traçados de ruelas estreitas do período medieval, proibindo o trânsito de automóveis.

Eu os tenho seguido alegremente desde a última quarta, a despeito das canelas ressentidas pelo prolongado sedentarismo e das bolhas causadas por um tênis novo (erro primário!).

Percebo que observam com amoroso prazer meus sustos emocionados, minhas descobertas do quão lindo pode ser o mundo.

Hoje o domingo amanheceu frio, finalmente – a primavera na Espanha é feita de dias ensolarados e temperaturas amenas, em torno dos 24 graus -, convidando-me a esta escrita, que “costuro” no sofá da sala, devidamente aconchegada sob uma mantinha felpuda.

Evoco as saudades de meus entes queridos, que a estas horas de nossa manhã aqui devem estar mergulhados no sono da madrugada de lá. Envio-lhes uma prece amorosa e peço que me aguardem “un poquito más”.

Quando voltar, cheia de saudades e histórias, lhes contarei tudo sobre o quão lindo (e civilizado) ainda pode ser o mundo.

Granada (Espanha), 29 de abril de 2018.

 

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3 comentários

    • Thaís Regina Ismail em 4 de maio de 2018 às 22:25

    Você faz as lágrimas sangrarem. O quão feio e inviabilizado será meu Brasil?
    Que experiência mais linda, Minha querida amiga. Saudades

    • Ely Vieitez Lisboa em 30 de abril de 2018 às 13:24

    Amei sua crônica, muito fiel. Toda a Espanha é linda assim. Meu pai, tios, avós, são da Galícia, outra Espanha completamente diferente de Granada. Meu encantamento pela Galícia, é pelos campos lindos, que, na primavera ficam doirados de flores. É por Santiago de Compostela, cidade cosmopolita, porém mais famosa pela religiosidade do seu famoso Caminho… E há Madri… Bom, esta linda cidade merece outro comentário, porque é outra Espanha…Ou então. a belíssima Barcelona, com sua arquitetura única!

    • Marcia em 30 de abril de 2018 às 00:53

    Ai, Silvinha, sem o que dizer…

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