‘Experiência profissional’: estreia autoral na praça

O cineasta Marco Felipe

Compareci feliz à primeira cabine de imprensa de uma produção audiovisual para a qual fui convidada desde o início da pandemia, há quase dois anos. Em parte porque era também minha primeira vez numa sala de cinema desde então, mas muito mais por ser (uau… uma produção em plena pandemia!) indício mais do que bem-vindo de que a produção cinematográfica brasileira resiste em meio à crise econômica e à ausência total de incentivos e valorização, desta e todas as demais artes, por parte do Poder Público.

O resistente em questão é o “publicitário por profissão” – assim frisa o material de divulgação – Marco Felipe, que aos 24 anos abraça sua paixão pelo cinema com o primeiro curta-metragem da carreira: “Experiência Profissional” (Brasil, 2021, 25’), produzido em parceria com a produtora ribeirão-pretana Ilha Crossmídia, onde ele atua como diretor de estratégia e criação publicitária atualmente.

Bastidores da gravação de ‘Experiência Profissional’, curta-metragem de estreia do ribeirão-pretano

O roteiro, também assinado pelo diretor, mostra o jovem publicitário Francisco iniciando sua jornada profissional em uma empresa fabricante de alimentos à base de amendoim. Recepcionado por um executivo pertencente à velha guarda da empresa familiar, Fran também se vê enredado pelos da nova geração, que planejam modernizar as relações comerciais e de trabalho do negócio. Sua credulidade e ingenuidade o tornam presa fácil de ambas as frentes de batalhas, o que o coloca bem na “linha de fogo” de uma guerra com desfecho surpreendente.

Tão surpreendente que, há dois ou três anos, tal desfecho poderia soar inverossímel. Mas as polarizações políticas, o aumento dos discursos de ódio e a intransigência endêmica que se alastram pelo mundo têm nos forçado, como sociedades, a encarar espelhos que nos mostram verdades indigestas. Uma delas, a de que desaprendemos – ou será que nunca soubemos? – a discordar sem guerrear.

Desse ponto de vista, guardadas as ressalvas de que ambientes de trabalho tóxicos não são privilégio desta nem de nenhuma outra geração, e que disputas de poder sempre existiram no mundo corporativo, “Experiência Profissional” é bem-sucedido no objetivo do cineasta de “refletir qual o impacto a ausência de diálogo e empatia podem ter ao tornar até o ambiente de trabalho um lugar tóxico”.

O ritmo com que ele conta esta história flui bem, para o que contribui um roteiro enxuto, de diálogos sem “gorduras”. Mérito, talvez, da experiência na área publicitária. Aliás, o roteirista foi feliz ao ambientar a história em um universo familiar seu, o que nem sempre é exatamente um trunfo – pode, também, ser uma “faca de dois gumes”, quando o profissional acaba conseguindo se comunicar só com a sua “bolha”, não se preocupando em ser entendido pelo universo diverso dos espectadores.

Outro acerto é a forma como o roteiro vai construindo aos poucos a tensão, levando o espectador junto neste crescendo.

Por outro lado, dois aspectos me causaram estranheza – e esclareço que os comento da posição de cinéfila e não de crítica de cinema. O primeiro, a escolha do terraço de um edifício na zona sul de Ribeirão Preto como locação de uma das primeiras cenas, em que os personagens se dizem numa empresa com sede na capital paulista. Tudo bem que só ribeirão-pretanos estão aptos a reconhecer, no cenário de fundo, o complexo do RibeirãoShopping, os prédios empresariais em seu entorno e os residenciais na vizinha avenida João Fiúsa, mas acho difícil qualquer espectador aceitar como parte da metrópole paulistana aquele horizonte limpo, com faixas de verde ao fundo e verticalização irregular. A outra, os movimentos de câmera, convencionais na maior parte do tempo, mas que quando tentaram ousar – como no vai-vem entre os interlocutores em uma cena tensa na sala de reuniões – acaba causando algum desconforto visual.

Por fim, o título,  que considero uma das “iscas” de interesse sobre qualquer produto audiovisual, também não é dos mais fortes. Não remete ao cerne da questão, à tal razão pra tal história ser contada. Abre margem a muitas e variadas suposições sobre o assunto da obra, entre elas a de que pode se tratar de um produto didático e não dramatúrgico.  Passa a impressão de escolha fácil.

Tudo somado, porém, “Experiência Profissional” resulta um ótimo começo de carreira no cinema, pela autoralidade e pela valiosa pretensão de propor reflexões, para além do entretenimento – santa pretensão, que separa as criações audiovisuais entre obras de arte e produtos culturais.

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