Crônica,  Silvia Pereira

Minha pequena contravenção

Meu amor nunca gostou que eu desse tragadinhas em cigarro alheio. Na primeira vez que viu, valeu uma briga de ficar de mal o resto da noite – e do dia seguinte também.

Custei a entender que não era pelo cigarro, mas pela intimidade de dividir o dispositivo vindo de outra boca. “Se quer fumar, compra um cigarro de uma vez”, dizia, furioso.

É justo.

Mas não comprei. Passei a roubar tragadinhas só de amigas.

E juro, não sou fumante. Apesar de muitos amigos já terem profetizado que “é assim que se começa”, nunca comecei.

Digo… nunca comecei o vício (nem me lembro que existem cigarros no mundo quando não há ninguém para me atentar), mas basta um papo bom entre minhas melhores amigas fumantes, uma cervejinha em um momento de repousante prazer para vir a vontade da tonteirinha de “fumante de primeira viagem”.

E ela sempre vem exatamente por eu nunca ter aceitado o vício – já li que ele se instala porque o viciado persiste na procura da sensação da primeira vez e acho que o problema é todo este: querer senti-la o tempo todo.

Eu não. Uma vez ou outra, tomando uma cervejinha com meu amor, uma caipirinha feita pelo concunhado “Shou” (apelido de família do Edilson Minduba), um vinho entre amigos… vá lá, mas viver com aquele gosto de cinzas na boca?! Dispenso.

Só tragadinhas, por favor.

Não é tanto (só) pela tonteirinha, sabe? Tem também um componente sensorial nascido da contravenção – sim, para minha vidinha regrada, certinha, sem surpresas, tragadinhas são o máximo da ousadia!

Sinto-me uma “danadinha” quando saio para a sacada dar tragadas em um meio cigarro de um maço que uma amiga esqueceu em casa quase cheio, certa vez, quando de visita.

Ah… sozinha em casa, tomando uma taça de Malbec, saindo para a noite da sacada, sou a própria Lauren Bacall naqueles filmes charmosos das décadas de 1940/50, mesmo sorvendo um dispositivo de nicotina sabor menta.

Mas nunca fumo um cigarro inteiro. Como o estoque é finito, guardo o restante para outra hora, outra noite – um inteiro dá para três momentos de diva de cinema “noir”.

Passada a cena, mando imediatamente pra língua duas pastilhas de Halls preto, para não deixar nenhum vestígio daquele paladar de cinzeiro na boca (odeio!).

E volto à minha vida certinha sem culpa e (quase) nenhum prejuízo.

É justo também.

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